ELA… de novo!

Prólogo

Gabriel, quase trinta anos, é bem sucedido na profissão. Um homem alto, forte, muito atraente, encantador e muito educado. É o modelo da “finesse” personificada. Ele mantém sempre uma barba curta e bem feita. Vive com Helena, num local muito valorizado daquela cidade milenar. Ele é cético, tem verdades cultivadas e as tem quase como dogmas. Ao conhecer Catrina, vê-se diante de um desafio. Deixar-se envolver por ela, encarar novas formas de ver a vida, ou afastar-se e não permitir ser questionado?

Mas ela o atrai, ela o encanta desde a primeira vez que a viu.

Ele vai questionar o que vale mais a pena? Suas convicções supostamente inquestionáveis, ou vai dar margem ao amor e paixão em que se vê envolvido por aquela menina? Tem mais mistérios a serem desvendados! Quer descobrir os próximos acontecimentos? Fique conosco, então!

A HISTÓRIA

Lá estava ela de novo, atravessando a rua na sua direção. Sua direção, não! Na direção de sua casa. Era o que mais o atraia ali. Nunca tinha visto ninguém tão interessante desde que se mudou para aquela casa. Ela geralmente se movimentava de forma muito graciosa dentro daquele vestido, sempre solto, sempre esvoaçante, sempre deixando a imaginação dele tentar adivinhar o conteúdo.

Naquele momento, com aquelas emoções que o envolviam, em nada ele se assemelhava com a figura que aparentava. Alto, forte, muito lindo, por fora, um encanto, mas frágil, indeciso e muito carente por dentro. Mas ninguém via isso. Somente seu corpo esculpido, suas roupas lindas e seus olhos penetrantes eram testemunhas de seu ser naquele momento.

Ele nem ao menos estava visível na janela enquanto a olhava atravessar a rua.

Atrás da cortina de voal, observava o caminhar encantador daquela que habitava seus dias mesmo quando não se encontrava em casa.

A via vindo em sua direção, sorrindo para ele, abrindo os braços para abraçá-lo. Tudo o que ele realmente queria que acontecesse, mas nunca aconteceu, mas ele sonhava. Tudo é permitido em sonhos.

Como manter o que estava acontecendo com ele? Criticado por sua frieza, seu coração de pedra, estava agora invadido por sentimentos, emoções? Quem diria?

Mas somente ele sabia disso. Na verdade, ele jamais havia admitido isso, mesmo para si. Tudo nele era cuidadosamente planejado. Cada passo seu era analisado e medido antes de ser executado. Emoções? Era a última coisa que ele permitia manifestar.

Mas, diante daquela garota, ele perdia o controle. Isso o emocionava e o assustava. Parece que seu cérebro primitivo o dominava. Não havia mais ninguém com quem ele sonhasse ou pensasse. E ele nem sabia quem ela era.

Dois anos! Era o tempo em que ele morava lá.

Nunca teve coragem de mexer um músculo para encontrá-la pessoalmente. Não acreditava que tivesse algo para falar com ela.

Pela janela, atrás da cortina de voal, ele a viu pela primeira vez quando ainda estava se mudando.

Desde a primeira vez que a viu, ela tomou conta de seu coração, sem que ele nem ao menos tivesse percebido.

Uma menina. Uma garota que chamou atenção pelo riso fácil que ele ouviu e a viu encontrando-se com outros, sorrindo e brincando.

Na sua vida monótona, que muitos até invejavam pelas ilusões que nutriam a respeito, ele via no sorriso dela, no som de sua risada, a autenticidade que buscava em sua vida, mas ainda não encontrara.

O que faltava na vida dele, ela esbanjava por todos os lados: autenticidade!

Às vezes, ele pensava e buscava nas recordações do passado, se um dia ele havia sido daquele jeito, mas não encontrava nada parecido.

A vida dele era uma representação todo o tempo e os dois minutos em que ela era vista por ele atravessando a rua, sorrindo, eram a autenticidade pura.

Dois minutos de sinceridade em um rosto lindo, um corpo esguio que se movimentava com graciosidade e que dava impressão de dançar, vinha em sua direção, decepcionando-o depois quando, ao subir na calçada, ela mudava de direção e seguia em frente, nunca na sua direção.

A mureta baixa da casa ancestral em que ele mudara permitia a vista da rua, sempre detrás da cortina, nunca de forma real. O voal da cortina também fornecia uma névoa que alimentava o encanto.

Por enquanto, por dois anos, aquilo significava um desejo, a concretização de um sonho e o medo do sonho ser despedaçado e de tudo ser provado como uma mentira, uma ilusão fabricada por sua própria fantasia.

— Gabriel, venha almoçar, meu querido! — ele ouve Helena chamá-lo.

Essa voz o tira da bruma de sua fantasia e o traz abruptamente para a realidade.

— Sim, querida, vou já!

Os cumprimentos, as reverências, as gentilezas eram todas mecânicas, sem alma, sem sabor, mas quando a via, a alma o preenchia novamente e o carinho era algo palpável e verdadeiro.

Naquele palacete medieval, onde ele habitava agora, havia um ar misterioso que frequentemente o levava a pensar que sonhava acordado.

Aquela menina, transformada agora em fantasia, ou outros viventes, que ocasionalmente preenchiam sua imaginação, o conduzia por mundos paralelos, antes nunca imaginados.

As vidas vividas antes dele naquele lugar o encantavam e, ao mesmo tempo, o envolviam em mundos estranhos.

— O que te chama tanto a atenção, Gabriel? — pergunta Helena.

Ele rapidamente se vira para ela, que já está ao seu lado. Olha rapidamente para a calçada, mas a garota já se foi.

Ele respira aliviado. Aquela imagem, aquela aparição é só sua e não quer mais ninguém participando disso, especialmente Helena.

— O jardim! Tenho vontade de modificar um pouco o jardim. — ele responde rapidamente, apontando.

— Vamos almoçar primeiro. — diz Helena. — Depois falamos disso.

— Sim! — concorda Gabriel, ainda enebriado pela imagem da garota e pensamentos sobre ela.

Os dois almoçam mudos, servidos pela empregada que também não se manifesta e é a mais autêntica serviçal do palacete: quieta e muda.

— Vamos conversar sobre o jardim. — diz Helena.

— Agora não! Outra hora. Vou ler alguns contratos agora, vou para o escritório.

Helena o vê desaparecer por uma das várias portas do imenso palácio e sabe que deve deixá-lo sozinho.

Gabriel senta-se em sua poltrona favorita, de frente para o jardim, ainda aguardando ver de novo a garota que o encanta, mas ela não volta.

Parte do seu trabalho o arranca para fora daquele mundo, o joga no frenesi presente do momento. São dias em que ele sabe que não a verá, mas a tem com precisão em sua mente.

Um workshop programado para ele o qualifica como palestrante… enfadonha tarefa.

É parte de seu dia a dia. Sobe no tablado, naquele hotel lindíssimo, onde das janelas curvadas vê o magnífico jardim onde realmente gostaria de estar.

Acostumado que está com esses eventos, não presta muita atenção nas pessoas que, aos poucos, se aglomeram na plateia. Prepara seu material com cautela. Afinal, o assunto de seu discurso ainda é algo em que acredita na sua enfadonha tarefa.

Naquele dia, no entanto, um barulho diferente, um riso juvenil, chama sua atenção na plateia. Um som incomum, diferente das aparências taciturnas que povoam suas palestras, uma alma iluminada conduz seu olhar de volta.

Uma grata surpresa acontece quando, ao iniciar sua fala, um vestido vermelho esvoaçante entra atrasado e ansioso, buscando sentar-se sem ser vista, mas incapaz de se conter… O corpo que preenchia aquele vestido era ela.

Seu coração salta, emociona-se como há muito não acontecia. Ele aperta o controle do computador para que seu tremor não seja notado. Perde-se por um tempo na pausa do espanto. Helena, ao seu lado, procura o que o olhar dele enxerga, mas Helena não vê.

Ele vislumbra um misto de felicidade e prazer.

A palestra decorre, como sempre, em bons termos e o tempo todo seu olhar é atraído para a moça do vestido vermelho. Ele luta para não se deixar perder naquele olhar.

Termina sua palestra com um entusiasmo há muito extinto. Helena, que o acompanhava, corre para ele o parabenizando.

— Gabriel, você estava muito entusiasmado hoje e falou sobre seu assunto com uma classe incrível. Fazia tempo que não o via tão animado.

— Ora, Helena, obrigado. — ele responde, abaixando os olhos com receio de ser descoberto.

Ele fala com Helena, olhando o tempo todo para o público, ainda à procura do vestido vermelho esvoaçante e seu conteúdo. Não a vê por algum tempo, quando, de repente, sente uma mão tocar de leve seu braço.

Ela está ao seu lado e veio cumprimentá-lo. Ele fica sem fôlego, parecendo um adolescente, respirando forte.

Ela sorri para ele, estende sua mão em sua direção.

— Sua palestra foi linda! Gostaria de mais pessoas participando desse mesmo modo de pensar.

— Obrigado, diz ele, encantado.

Ele sorri para ela e, sem conseguir se controlar, coloca sua mão esquerda sobre a mão dela.

Helena vê naquele gesto algo inapropriado para alguém como ele e nota, sem dúvida, o sorriso de Gabriel que acompanha a garota, que começa a se afastar.

O rapaz ao lado dela a puxa para a saída.

Ela se volta mais uma vez para ele, sorri, mas segue se afastando, acompanhada por outro jovem que a acompanha.

Aquilo foi algo inusitado, emocionalmente forte, inesperado, assustador e ao mesmo tempo gratificante. Ele nunca pensou que se perderia tanto emocionalmente com somente o toque da mão dela.

Na recepção, ao saírem, ele a vê novamente.

Para sua surpresa, ela olha para ele, sorri rapidamente e sai de perto quando uma amiga a chama.

— Catrina? Ela se chama Catrina?

Foi o que ele ouviu. Não sabia o nome dela até então.

Ao toque de Helena em seu braço, ele se assusta e volta um pouco à realidade.

A volta para casa o conduz ao marasmo de sempre, e Helena nota sua mudança repentina, depois do entusiasmo esfuziante.

— Gabriel, o que tem hoje? — pergunta ela.

— Ãh? — ele responde sem ao menos ter ouvido o que ela realmente disse.

— Gabriel, você ficou quieto, de repente, depois da animação na palestra.

— Ah! Não foi nada, não.

Gabriel não havia notado a variação tão evidente de seu comportamento, especialmente para Helena.

Ele percebe que tem que fazer alguma coisa. Ou apagar aquela obsessão, ou… tomar alguma atitude naquela direção.

Os dias passam, com a garota Catrina, a povoar seus dias. Parece viver num mundo à parte, num universo diferente. Incrível para Gabriel a descoberta de níveis emocionais nunca antes experimentados, nunca antes vividos.

Ao mesmo tempo que o encanta, o amedronta. Ele não sabe se, aproximando-se realmente dela, isso continuará, ou se extinguirá. Suas dúvidas crescem, gerando cada vez mais ansiedade, e cada vez mais isso é notado por Helena.

Ele sempre foi assim: diante da dúvida, ao ser desafiado, prefere não correr riscos.

Essa sua característica sempre o colocou em situações difíceis de reais perdas, uma vez que não se manifestava.

Agora, ao conhecer Catrina, se enche de ansiedade e acha que deve arriscar o que jamais arriscou antes: ouvir um não!

Tudo acaba acontecendo sem que ele pudesse prever.

Chegando em casa um dia, nota que deixou documentos no escritório. Entra em casa, planejando voltar.

Volta para o carro, já aborrecido com o esquecimento, quando, de dentro do carro, com os vidros fechados, percebe Catrina vindo em sua direção.

Sem pensar, deixando-se levar pelos batimentos descompassados do coração, coloca as mãos na maçaneta, mas não há tempo, ela já está perto.

Tem certeza de que vai, afinal, vê-la de perto e ela o verá também, tem certeza de que algo mais vai acontecer finalmente quando ela o vir.

Aguarda ansioso. Os passos dela parecem eternos, uma vida para atravessar a rua, o que de fato se passa em segundos.

Ela olha para o carro, não o vendo pelo vidro escuro, sobe na calçada, olha no vidro da janela dele.

Ansioso, ele começa a descer do carro para encontrá-la, mas ela repete os gestos de sempre diante do vidro que a reflete na janela. Só então ele percebe o engano que cometeu…

Era ela, olhando para ela! Nunca o havia percebido atrás do vidro!

Ao perceber o que ocorria durante esses dois anos, ele volta para o carro, senta-se na direção e entende que se enganou esse tempo todo.

Não era para ele que ela olhava, era para ela mesma. Ajeitando a roupa, ajeitando o cabelo, sorrindo satisfeita para si mesma, pelo encanto que entendia de sua figura.

Como ele pode ser tão tolo? Tão bobo, tão… tão… o choque da frustração foi demais! Ela nem sequer o conhecia e ele já tinha sonhado milhões de vezes com aquele corpo, aquele sorriso e até aquele toque, que não sabia como seria, mas imaginara vividamente.

Já tinha sonhado como seria um encontro de fato, como seria um passeio juntos, uma noite na dança, na cama.

De onde ela vinha? Para onde ela ia? Com quem se encontrava?

Não havia tempo para pensar em mais nada. Ela já estava indo embora.

Ele desce do carro rapidamente e, com o baque da porta, ela se volta.

— Doutor Gabriel! Que bom vê-lo aqui!

— Eu moro aqui, Catrina.

— E sabe meu nome! — ela diz genuinamente feliz.

— Sim, ouvi sua amiga chamá-la assim na recepção do hotel naquela palestra.

Ele começa a se sentir um bobo. Não sabe onde colocar as mãos, mas Catrina parece não notar.

— Ora, estou até com vergonha agora. Todo dia passo aqui e conto com sua janela para meus últimos retoques. Espero que não tenha visto isso ainda.

— Não tem importância. Pode continuar a usar.

— Estou sempre atrasada e sempre saio correndo de casa, então, sua janela acaba sendo minha salvação.

Apesar da decepção que aconteceu depois de entender que não era para ele que ela olhava, Gabriel viu naquele encontro a possibilidade de continuar com seu plano de conhecê-la, embora aquilo não tenha sido decidido por ele. Foi decidido pelo destino.

Ele não sabia o que era, mas estava sendo empurrado para manter a conversa. Ela se voltou para ele imediatamente. Ele se encantou com isso.

— Você se interessa pelo assunto de minhas palestras, Catrina? A vi lá outro dia!

— Ah, sim, meus estudos são nessa área também. Quando soube da sua palestra, inscrevi-me imediatamente, só não sabia que éramos vizinhos.

Vizinhos? Aquilo soa encantador para Gabriel. Então, ela sempre estivera por perto. Era ele que nunca havia visto de onde ela vinha.

— Vizinhos? — ele repete. — Onde você mora?

Ela se vira e aponta a casa do outro lado da rua. Então, ele sorri. Ela sempre estivera por ali. Ele sempre sentiu a presença dela.

Os pensamentos tomam conta dele e Catrina pergunta…

— Está bem, professor?

— Ah, sim. Eu me distraí, imaginando que, embora você estivesse tão perto, só nos conhecemos na sala da palestra e só ficamos cientes de nossa proximidade agora. Dois anos passados.

Catrina sorri.

— É mesmo, doutor Gabriel. Coisas estranhas essas, não é? Mas, agora que descobrimos isso, vamos nos ver mais vezes.

Gabriel levanta as sobrancelhas, dando a impressão de espanto para Catrina.

Ela imediatamente sorri percebendo a reação dele.

— Não se preocupe, doutor. Não virei importuná-lo, não! — diz Catrina, rindo muito.

— Não, imagina. Será um prazer receber você… e seus pais com certeza.

Ele não sabe de onde tirou a ideia dos pais, mas suas emoções já não o deixam pensar com lógica. A que ele sempre tentou manter.

Ela sorri, pesarosa, mas firme, olhando para as nuvens.

— Meus pais não estão mais no nosso plano. Moro com amigos ali… mas, deixa eu ir, estou retendo o senhor. Também tenho compromisso agora.

— Sinto muito, Catrina. Não quis lembrar você de memórias dolorosas.

— Não se culpe, professor. Já faz muito tempo… agora eles são memórias saudosas. Até logo.

Catrina se vira, deixando Gabriel sem saber se melhorou ou piorou a situação. Não tem como saber agora. Somente na próxima vez que a vir.

— Até logo, Catrina. — ele diz, pesaroso, incerto do que tenha causado.

Ela se volta, sorri, acena com a mão e continua seu caminho.

Gabriel entra, encontra Helena olhando para ele, como se interrogando algo.

— Sim, Helena. O que foi?

— Você estava conversando com aquela menina!

— Sim, e parece que você viu. O que quer comentar?

— Não acho que ela seja para você.

— Do que está falando, Helena?

— Acha que não notei que ela se parece muito com Annia?

— É? E daí? — Gabriel responde, já ficando irritado.

— Vai se envolver em problemas de novo!

— Não fale besteira, Helena, cuide de sua vida, não se meta na minha. Já estragou uma vez, não vai fazer de novo, começando com essas previsões do futuro para as quais você nem competência tem.

Helena se assusta com a reação de Gabriel. Ele nunca respondeu a ela tão rispidamente, mas ela tenta a todo custo retomar o controle.

— Vai remoer o passado de novo, Gabriel?

— Ah! Só rindo mesmo! Não inverta as coisas, Helena. Você começou a remoer o passado… não ponha palavras na minha boca.

Nem mesmo Gabriel acredita no que fez. Afrontar Helena sempre foi algo impensável, no entanto, estranhamente, aquilo tinha lhe feito muito bem. Sente-se leve, realizado, liberto!! e… feliz, como poucas vezes tinha sido.

Dizendo isso, Gabriel bate a porta da sala na qual já tinha entrado, deixando Helena de fora.

Espantada, Helena não reage naquele momento, afinal, Gabriel vai reconhecer o erro e pedir desculpas, como fez outras vezes. Foi o que aconteceu nas raras vezes em que ele reagiu contra ela…

Foi há muito tempo. No final das contas, Helena restou sozinha também. Brigou com ele por ciúme de uma garota que ele amou.

Irmã possessiva, Gabriel, mais novo e sentindo-se devedor, cedeu às vontades de Helena, que o havia aprisionado sob suas cobranças sutis, sob suas chantagens encobertas e sob a desculpa de tê-lo salvado de uma traição iminente.

Gabriel havia abandonado Annia, sob circunstâncias inimagináveis, por uma armadilha montada por Helena.

Sentindo-se devedor, por ela tê-lo criado quando seus pais morreram, ele se deixou levar pelo desespero e pela perda.

Catrina era sua possibilidade de resgate. Ele ia fazer de tudo para conquistá-la e assim afastar a maldição de Helena sobre ele.

No dia seguinte, ele está de novo, atrás da cortina, esperando Catrina passar. Ela não o decepciona, lá está ela num vestido colorido de flores.

Dessa vez, ela para, espreme os olhos, tentando enxergar mais do que normalmente faria. Ela o vê, sorri, acena.

Gabriel não resiste, acena de volta e faz sinal para ela esperar.

Helena, vendo todo aquele movimento, fica alerta para tentar controlar o que virá, mas não conta com a força do amor. A força do sentimento que dá combustível para ações coerentes e/ou incoerentes. A força para suplantar muros enormes, mesmo os plantados durante anos na vida das pessoas.

Gabriel sai. Vai encontrar-se com Catrina.

— Professor, sua janela me serviu muito para eu me arrumar, agora me serve para te ver.

Gabriel sente o coração acelerar. Ela está dizendo isso mesmo?

Sim, Catrina não tem dificuldade de dizer o que sente. É direta.

— Adorei sua palestra, saber o que temos em comum, adorei te conhecer, saber que moramos perto. — diz ela, efusiva.

— Mas… você é tão mais nova que eu… — diz ele, sem ao menos entender porque disse aquilo.

Ela faz cara de interrogação…

— De que fala, Gabriel? Acho que temos a mesma idade, ou no máximo, muito próxima. Você parece mais velho porque usa essas roupas idosas, conservadoras, e esse cabelo penteado de um jeito que te dá aparência mais… mais antiga, digamos — diz Catrina, rindo muito.

— Mas, acho que você pode ser minha aluna!

Catrina ri gostosamente.

— Não, Gabriel… obrigada pelo elogio, mas já sou formada, já tenho meu próprio consultório e já tenho algum tempo de experiência profissional.

Gabriel se admira, suspira esperançoso e feliz. Nunca imaginou que a teria tão perto como agora. Somente em sonhos.

— Você não vai acreditar, Catrina, mas isso me deixa muito feliz.

— Você não vai acreditar, Gabriel, mas acho que Helena está nos vigiando ou te chamando. Ela é sua…

— Minha irmã! — diz Gabriel de pronto.

Catrina mostra um sorriso adorável. Seguro e afável.

— Venha comigo, em algum momento até minha sala. Vou te levar para o outro lado da vida. — diz Catrina, rindo e se aproximando dele, assim que vê Helena abrir a porta vindo na direção deles.

Gabriel não resiste. Ela, o perfume dela, o som delicioso de sua voz, a vibração do corpo dela próximo ao seu, o envolve. Ele a envolve num abraço, segurando-a pela cintura, e beija o rosto dela, que se despede.

Ela olha para ele encantada, suas mãos no ombro dele, ela fica na ponta dos pés e corresponde, beijando-o também no rosto.

Assim que Helena os alcança, Catrina já se foi. Rindo, olhando para trás e acenando.

Helena chega perto e não aguenta ficar quieta.

— Ela vai te machucar!

— Mais do que você? — pergunta Gabriel, virando-se e entrando em casa, deixando Helena que percebe estar perdendo o controle.

Gabriel resolve não esperar mais. Olha longamente para a casa apontada por Catrina. No dia seguinte, ele a espera na porta.

Catrina o vê e sorri. Ainda se lembra dos braços dele em volta dela, e ele ainda se lembra das mãos dela em torno de seus ombros e o beijo suave, cheiroso no rosto.

Se beijam no rosto ao se aproximarem.

— Bom dia. — diz Gabriel.

— Bom dia. Adorei que veio me receber. — diz Catrina, encostando seu ombro no dele enquanto caminham juntos.

— Helena acha que você vai me machucar. — diz Gabriel de repente, sem pensar.

— Com certeza! E você a mim. — responde Catrina, sorrindo, mirando no rosto estupefato de Gabriel. — Mas tenho certeza de que somos fortes o bastante para resolvermos tudo juntos.

Ele nunca havia reparado em um olhar que responsabilizava ambos pelo bem ou pelo mal, que não o tornava vítima nem algoz, mas ambos responsáveis por suas ações e suas consequências. Totalmente diferente do que Helena sempre propunha.

Nunca Gabriel havia visto uma reação tão calma diante de uma das mais poderosas maledicências de Helena.

Isso sempre o amedrontava tanto que ele havia desistido de relacionamentos, atitude celebrada por Helena.

Gabriel começa a perceber que, embora seja culto e capaz, não conhecia o mundo de Catrina. Precisava participar mais dele.

Com o coração já a galope, abraça Catrina, a vira para si, puxa seu corpo junto ao seu, procura sua boca, num ímpeto apaixonado. Ela corresponde, ficando na ponta dos pés, cedendo ao beijo também desejado por ela.

Helena os vê. Desde a saída de Gabriel, o seguiu com os olhos e o viu se encontrando com Catrina.

Ela percebe agora que não o controla mais.

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