Sete Ondas e Um Erro de Cálculo

PRÓLOGO

“Sete Ondas e Um Erro de Cálculo”

Ela fez tudo certo: roupa branca impecável, flores para Iemanjá, sete ondas puladas com cuidado, sete desejos mentalizados.

O problema é que, na “sexta onda”, alguém segura a mão dela para não cair.

Um desconhecido. Bonito. Molhado. Sorriso inconveniente.

Eles pulam “a sétima onda juntos”.

Minutos depois, fogos explodem no céu, e eles continuam conversando, primeiro por educação, depois por curiosidade, depois porque nenhum dos dois quer ir embora.

Mais tarde, ela percebe: na confusão, “o último desejo foi pensado em voz alta”.

E agora, ele está olhando para ela como se tivesse ouvido exatamente o que ela pediu. E ele ouviu.

*VENHA CONOSCO PARA SABER MAIS DESSA HISTÓRIA, DEPOIS INSCREVA-SE NO CANAL, DEIXE UM LIKE, COMENTE E VOLTE SEMPRE.*

A HISTÓRIA

Ela acreditava em rituais. Embora os últimos praticados não tenham tido resultados muito benéficos, ela ainda tinha fé.

Não esperava que funcionassem sempre, mas davam a falsa e deliciosa sensação de controle. E convenhamos: na virada do ano, qualquer adulto funcional aceita um pouco de autoengano simbólico, esperança renovada. Buscam que sonhos se tornem realidade e, mesmo que tenham sido desejados já no ano passado, têm certeza de que nesse ano os ventos mudarão o rumo das coisas.

Ela vestia branco. Um branco não muito convicto, mas que dava chance para outras cores, mesmo que tênues, fazerem parte da vestimenta. Leve, colado onde devia, solto onde convinha. Um branco que dizia “estou em paz” enquanto cochichava “mas não desisti do prazer”.

Tinha, na mão esquerda, flores embrulhadas com cuidado.

Na direita, os sapatos, porque fé nenhuma sobrevive à areia molhada dentro do calçado.

O mar estava cheio de gente e intenções. Bem ou mal resolvidas, estavam lá.

Havia aqueles que já tinham começado a comemorar no dia anterior, com direito a espumante e drinks em geral, falavam mole e riam de tudo, casais brigando em silêncio, solteiros jurando que estavam ótimos assim, amigos abraçados por tradição e desconhecidos querendo fazer parte daquele ritual.

Ela chegou perto da água e respirou fundo.

Sete ondas. Sete desejos. Sem pressa. Sem trapaça. Aconteceu! A primeira onda, primeiro desejo.

O primeiro desejo foi educado. O segundo, prático. O terceiro, ambicioso. No quarto, ela já estava mais honesta. No quinto, perigosamente específica. No sexto, a onda veio mais forte. Ela escorregou. E foi nesse exato instante, quando a dignidade ameaçou entrar em colapso junto com o joelho esquerdo, que uma mão apareceu.

Firme. Forte. Segura demais para ser desprezada.

— Calma! — diz o dono da mão que a ampara. — Você está bem?

A palavra veio baixa, perto demais do ouvido dela para ser considerada neutra. Ele estava por perto e ela não tinha notado ainda.

Ela se estabilizou, sentiu a areia novamente sob os pés e só então virou o rosto.

E ela o viu — um ser molhado, cabelo escuro, molhado, grudado na testa. Sorriso maroto, aquele tipo específico que não pede licença antes de se tornar memorável.

— Obrigada, — ela disse, recuperando a postura e, com ela, a falsa ideia de que estava no controle da situação.

— De nada. A sexta onda costuma ser traiçoeira — ele respondeu, como se fosse um especialista em quedas alheias… ou em mulheres distraídas demais para fingir indiferença.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Você pula ondas com frequência ou só salva estranhas em perigo ritualístico?

Ele riu.

— Depende da estranha — disse. — E do pedido.

A sétima onda se aproximava. Ela deveria afastar a mão dele. Completar o ritual. Manter o roteiro. Mas o ano estava acabando. E havia algo deliciosamente errado naquela interferência.

— Você vai pular? — ela perguntou.

— Agora?

— Agora.

Eles se entreolharam por meio segundo. O suficiente para decisões impulsivas. O suficiente para culpar depois o destino, o mar ou Iemanjá.

Deram um passo juntos. A onda veio. E quando pularam, ela pensou o sétimo desejo… em voz alta.

Ela ouviu, ele também… e o mar também…

Ela percebeu o erro no exato segundo em que as palavras saíram da boca.

Foi de susto, de repente, sem previsão, sem controle. Ela arregala os olhos. Não tem conserto, só pode torcer para ter sido confundida com o barulho das ondas.

Ela reconhece que é difícil o mar ter feito tal som, pois o pior é que suas palavras foram claras, específicas, audíveis.

— …alguém que me queira agora.

A onda caiu. O mar seguiu sendo mar. O mundo, educadamente, não acabou. Mas o homem ao lado dela “não soltou a mão”.

Silêncio.

Aquele tipo de silêncio que não constrange → “provoca”.

Ela respirou fundo, fechou os olhos por meio segundo e decidiu: agir como se nada tivesse acontecido era a única atitude minimamente civilizada. Afinal, desejos são pensamentos íntimos, não contratos assinados em cartório espiritual.

— Pronto, — disse, forçando leveza. — Sete ondas. Ritual completo. Ano novo oficialmente autorizado.

Ele inclinou a cabeça, ainda observando o mar, como quem avalia uma entidade antiga com a qual já negociou antes.

— Interessante, — comentou.

— O quê?

— O pedido.

Ela virou o rosto rápido demais.

— Que pedido?

Agora ele sorriu daquele jeito perigoso. O sorriso de quem ouviu tudo “e escolheu não fingir surdez”.

— Esse. — fez um gesto vago com a mão, como se apontasse para o ar entre eles. — Direto. Honesto. Sem rodeios.

Ela cruzou os braços.

— Você costuma comentar desejos alheios ou hoje é uma exceção mística?

— Só quando sou citado involuntariamente.

Ah. Então era isso.

O mar avançou outra vez, molhando-lhes os pés, como se quisesse participar da conversa. Ela recuou um passo. Ele não.

— Olha, — disse ela, — se você acha que porque eu falei em voz alta…

— Eu não acho nada, — ele interrompeu, calmo demais. — Só achei bonito.

Bonito. Ela soltou uma risada curta, irônica, dessas que servem para esconder o desconforto e a súbita vontade de beijar um desconhecido molhado na virada do ano.

— Bonito é uma palavra generosa.

— Eu sou generoso — respondeu, sem pestanejar.

Os fogos começaram a estourar no céu.

Primeiro tímidos. Depois, exagerados, como tudo que envolve expectativa. As pessoas gritavam, se abraçavam, brindavam ao nada e a tudo ao mesmo tempo.

Ela olhou para cima. Depois para ele. Depois, para a mão dele ainda na sua.

— Você vai me dizer seu nome ou isso faz parte do pacote misterioso do desejo?

— Faço questão de não atrapalhar o destino com detalhes logísticos — ele disse. — Mas posso abrir uma exceção.

Ele se aproximou um pouco mais. Não o suficiente para invadir. O bastante para prometer…

— É o tipo de pedido que costuma dar trabalho, — continuou. — E eu prefiro saber se a pessoa está preparada para as consequências.

— Consequências de quê? — ela perguntou, já sabendo a resposta.

Ele olhou o relógio. Faltavam segundos.

— De ser ouvida.

O céu explodiu em luz. Meia-noite.

E, por um breve momento, ela teve a sensação clara, desconcertante, de que Iemanjá sorria.

Ela não lembrava exatamente quem se moveu primeiro. E isso, curiosamente, era o que tornava tudo mais honesto. Não houve contagem regressiva emocional. Nenhum acordo silencioso. Nenhuma frase espirituosa para justificar o óbvio.

Houve apenas o intervalo breve, quase imperceptível, entre o último estouro de fogos e o momento em que o silêncio voltou a existir entre eles. Um silêncio diferente. Cheio. Expectante. Vivo.

— Então… — ela começou, já tarde demais para recuar.

Ele inclinou a cabeça, observando-a como quem lê um texto entrelinhas.

— Então.

Foi isso, aconteceu.

Sem pedir licença, tendo sido esperado, não teve aquele cuidado excessivo de quem finge que não quer assustar.

Foi firme. Quente. Exato. Um beijo que sabia onde pousar e quanto ficar.

Ela pensou, vagamente, que talvez devesse se preocupar com o fato de estar beijando um homem cujo nome desconhecia, no meio da praia, sob a bênção informal de uma deusa do mar e a aprovação sonora de milhares de fogos de artifício. Mas o pensamento não durou. A boca dele tinha argumentos melhores.

Ele a puxou pela cintura com naturalidade, como se aquele gesto já tivesse sido ensaiado em outra vida. O corpo dele estava aconchegante apesar da água fria. O dela, perigosamente atento.

Quando se afastaram, pouco, porque exagero nunca foi o estilo deles, ela respirou fundo.

— Isso foi…

— Um erro? — ele sugeriu, com um sorriso que claramente torcia pela resposta errada.

— Não terminei, — ela corrigiu. — Ia dizer: um excesso de zelo do universo. (atendendo meu pedido — ela fala baixinho)

Ele riu baixo.

— Discordo. O universo é econômico. Só entrega o que foi pedido.

— Eu não pedi você.

— Pediu alguém que a quisesse agora.

— Detalhes. — diz ela tentando parecer indiferente.

Ele se aproximou novamente, a testa encostando de leve na dela.

— Detalhes costumam ser onde a coisa toda acontece.

O mar avançou mais uma vez, molhando-lhes as pernas até os joelhos. Ela não recuou. Nem ele. Ficaram ali, como se a água fosse apenas um cenário cúmplice.

— Você sempre beija estranhos na virada do ano? — ela perguntou.

— Só quando sou escolhido por forças místicas claramente organizadas.

— Modesto, não é? — diz ela tentando ser brincalhona.

— Pragmático.

Ela sorriu. Um sorriso que não pedia explicação nem futuro.

— E agora?

— Agora a gente caminha um pouco, — ele disse. — Finge que não aconteceu nada sério.

— E depois?

— Depois, se ainda quiser, a gente repete.

Ela olhou para o mar. Para as flores ainda intactas em sua mão. Para ele.

— Iemanjá gosta de ousadia, — disse, mais para si mesma do que para ele.

— Ótimo, — respondeu ele. — Porque eu não vim até aqui para ser educado.

Eles começaram a andar pela areia molhada, os passos fora de sincronia, os corpos não. A noite ainda jovem. O ano, recém-nascido.

E ela percebeu, com uma clareza quase assustadora, que talvez, só talvez, o erro não tivesse sido falar o desejo em voz alta.

Talvez o erro tivesse sido “pedir pouco”.

Eles caminharam sem pressa.

A praia começava a esvaziar daquele jeito melancólico de depois da festa, quando os fogos já foram embora, mas o desejo ainda não. A areia guardava marcas de passos, risadas esquecidas, brindes quebrados e expectativas largadas ali mesmo, como sapatos perdidos.

Ela tirou a flor do embrulho e olhou para o mar.

— Ainda não fiz a oferenda.

— Pode fazer, — ele disse. — Não vou atrapalhar seu acordo com o divino.

— Não é um acordo, — respondeu. — É mais um… bilhete.

Ela se aproximou da água, inclinou-se, deixou as flores escorregarem para o mar. Observou enquanto as ondas as recebiam com a indiferença majestosa de quem aceita tudo, mas não promete nada.

Quando voltou, ele estava mais perto.

— E agora? — ele perguntou.

Ela ergueu o olhar, tranquila demais para alguém que ainda sentia o gosto do beijo dele.

— Agora eu vejo se o pedido foi aceito.

Ele não respondeu.

Apenas a puxou de volta para perto.

Dessa vez, o beijo foi diferente. Menos surpresa, mais intenção.

A mão dele subiu pelas costas dela com calma, como quem sabe exatamente o que está fazendo — e faz questão de que ela saiba também.

— Você percebeu, — ele murmurou contra a boca dela, — que a gente ainda não combinou nada?

— Percebi, — ela respondeu, sem se afastar.

— E isso não incomoda?

— Incomoda se parar para pensar.

Ele riu baixo. Um riso que vibrava mais no corpo do que no som.

O beijo desceu. Lentamente. Maxilar. Pescoço. Aquela pausa estratégica logo abaixo da orelha que não é inocente em nenhuma cultura conhecida.

Ela fechou os olhos.

— Você é sempre assim? — perguntou, tentando manter a ironia viva.

— Só quando a outra pessoa deixa.

— Eu estou deixando?

— Desde a sexta onda.

O mar avançou novamente, agora sem delicadeza. A barra do vestido molhou, o tecido colou nas pernas dela. O frio da água contrastava com o calor do corpo dele, que parecia decidido a resolver qualquer dúvida remanescente.

Ela o empurrou de leve, só para recuperar espaço.

— Se a gente continuar assim, isso deixa de ser um erro de cálculo e vira uma decisão consciente.

Ele a olhou com atenção renovada.

— E isso seria ruim?

Ela pensou. Pensou no ano que passou. Pensou nas promessas que não fez. Pensou no desejo que falou alto demais.

— Seria perigoso — respondeu.

— Perfeito, — ele disse. — Ano novo costuma pedir isso.

Eles ficaram ali, frente a frente, o mar aos pés, o corpo ainda em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer, algo que, uma vez iniciado, não caberia em desculpas nem em justificativas místicas.

Ela sorriu devagar.

— Se isso for um presente de Iemanjá…

— Sim?

— Espero que não venha com manual de devolução.

Ele se inclinou, a boca perto da dela.

— Algumas oferendas não voltam.

E dessa vez, quando se beijaram, não foi o universo que empurrou. Foram eles.

O ano começou sem manual, mas com vontade

Eles não correram. Não precisaram.

Caminharam até um trecho mais quieto da praia, onde o barulho virava fundo musical e o mundo parecia respeitar a pausa. Sentaram-se na areia ainda morna do dia que tinha acabado há poucos minutos. Ela tirou os sapatos, ritual número oito, improvisado. Ele estendeu a mão sem pedir, e ela aceitou sem pensar.

— Então, — ele disse, observando o mar como quem observa uma testemunha antiga. — Você costuma cumprir promessas?

Ela sorriu de lado.

— Costumo reformulá-las.

— Isso é um sim ou um aviso?

— Os dois.

Ele riu, encostando o ombro no dela. O toque simples tinha peso de escolha. Nada urgente. Nada teatral. Apenas presente.

— Sabe o que eu gosto no ano novo? — ela continuou.

— A desculpa coletiva para recomeçar?

— A permissão social para desejar sem explicar.

Ele virou o rosto, perto demais para ser casual.

— E você deseja o quê agora?

Ela pensou na pergunta. Pensou no erro, na onda, na mão que apareceu no momento exato. Pensou em como algumas coisas só pedem coragem suficiente para não serem interrompidas.

— Quero ver onde isso vai, — disse. — Sem promessa grande. Sem drama antecipado.

— Só curiosidade aplicada, — ele concluiu.

— Exatamente.

Ele se aproximou, beijando-a com calma, confirmando o sentido e permitido até agora. O beijo tinha riso. Tinha pausa. Tinha a leve ousadia de quem não precisa provar nada.

Quando se afastaram, ela encostou a testa no peito dele, ouvindo o coração em ritmo normal. Nada épico. Nada exagerado. Perfeito.

— Acho que Iemanjá não se importa com detalhes — ela murmurou.

— Ainda bem, — ele respondeu. — Eu nunca fui bom com roteiros.

O mar avançou uma última vez, molhando-lhes os pés. Ela não se mexeu. Ele também não. Ficaram ali, deixando que a água decidisse o limite.

— Se alguém perguntar, — ele disse, — a gente se conheceu onde?

— Na sétima onda — ela respondeu. — Ou no erro. O que soar melhor.

Ele sorriu. Um sorriso tranquilo. De quem não foi pedido, mas ficou.

E, enquanto o primeiro dia do ano respirava devagar, ela soube: não tinha feito um pedido errado.

Só tinha sido ouvida.

DEIXE SUA SUGESTÃO, INSCREVA-SE, DEIXE SEU LIKE E SUGIRA OUTROS FINAIS. REESCREVO PARA VOCÊ. OBRIGADO POR NOS HONRAR COM SUA PARTICIPAÇÃO.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *