Sem Memória, afinal.

PRÓLOGO

Do ponto de vista da nossa personagem desmemoriada, eis o relato de uma transformação interessante. De uma submissão total, para um momento de controle quase que pleno sobre sua vida. De um amor fracassado para uma realidade verdadeira de respeito, amor e conciliação.

De uma personalidade taciturna e submissa para uma vida alegre, brincalhona e vibrante.

Fica conosco e descubra como um acidente com perda de memória pode ensinar a sorrir e a viver, assumir um amor verdadeiro.

A HISTÓRIA:

Como se ela voltasse do túmulo; da escuridão total à luz, do não existir ao burburinho de um lugar infernal, num frenesi de medo e angústia, Lucy abre os olhos. Onde? O quê? O quê é aquele lugar?

Ela ouve sirenes, correria, gritos de rancor e de dor, macas deslizando pelo corredor apinhado de gente e de sofrimento, seres de branco e de verde… como num pesadelo distópico iluminado com flashes cegantes e burburinhos ininteligíveis. Como o Inferno de Dante!! Sem informação sobre qual círculo do inferno ela se encontra.

Ela arregala os olhos, como se vindo de lá, do limbo…

O que é isso, afinal?

Ela tenta se levantar, mas é contida por uma mão que a detém.

Quem é essa chata? é seu pensamento imediato.

A irritação começa tomar conta dela, e ela se vê conduzida para um quarto particular.

Ela tenta levantar de novo, mas a mesma mão a contém, de novo.

Quem é aquela pessoa que a impede, o tempo todo de fazer o que ela quer, quem é aquela pessoa chata, que acha que decide o que ela precisa?

De repente, a pessoa se vira e quase chorando, pergunta…

— Como está, filha?

Filha? De quem ela é filha? Aliás, quê balbúrdia é aquela toda e o que ela está fazendo ali?

Mais uma estranha entra no quarto.

— Como está, Lucy? Estão vindo fazer os exames. Tenha um pouco de paciência.

— O quê… o quê está acontecendo?

— Lucy, não sabe o que faz aqui? Não lembra o que aconteceu?

— Não, nem lembrava que chamo Lucy. E quem é aquela senhora maluca que acabou de sair chorando, dizendo que vai ficar louca?

— Não acredito, Lucy. É sua mãe! Vai com calma!

— Você diz que ela é minha mãe! Sério?

— Mas quê pergunta! Sim, por quê?

— O que eu andei fazendo que poderia assustá-la tanto?

— Não é nada disso. É que ela é muito sensível!

— Sensível? Ela é maluca, isso sim! Completamente louca. Aliás, se ela precisa ser poupada, ela que deveria estar num hospital, não acha?

— Não fale assim. Não fica bem.

— Hum! E você, quem é? – rosna Lucy.

— Não se lembra de mim também?

— Não, né? Senão não perguntaria. Parem com isso, já torraram o suficiente, aliás, quem são vocês?

— Você está muito esquisita, Lucy. Sou a Anne e aquela ali, perto da janela, é Giulia. Sou sua prima e Giulia é amiga de infância. Sério que estou precisando me apresentar de novo depois desses anos todos juntas?

— Quê confusão! Não me lembro de nada. Se acordasse aqui sozinha, ficaria perdida para sempre. Talvez até fosse melhor, diante do furdúncio que vocês fazem. O que me aconteceu?

— Não se lembra? pergunta Anne.

— Ai, ai! Quantas vezes vou repetir que não me lembro?

— Você está muito esquisita, Lucy. Sem educação. Diferente do que é.

— Nossa! Vocês todas são muito mandonas, moralistas. Ficam determinando como devo falar, como se tivessem poder sobre o destino.

Lucy está irreconhecível, agressiva como nunca foi.

Não se sabe quais danos ocorreram, se ela vai se recuperar, se tem volta. Se um dia ela se lembrará de sua vida até então. Aos vinte anos, tudo depende dos médicos, do tempo e do destino.

Do tempo e destino porque, inclusive os médicos não botam muita fé nas teorias que postulam tais eventos. Como tudo, essa ciência ainda está nas mãos de Deus.

Giulia toma as rédeas da situação, ou pelo menos, tenta…

— Vamos lá, você tem razão. Sofreu um acidente e agora está aqui para se recuperar. Quando sua mãe voltar, falamos com ela.

— Sobre o quê vão falar com ela?

— Sobre esse acidente.

— O que vocês sabem que eu não sei, ou melhor, o que eu não lembro que ela precisa saber?

— Estávamos juntas na festa de comemoração de seu prêmio ontem. Jason te presenteou. De repente, do nada, você saiu, devolveu o presente dele e foi embora.

Anne olha com ar de reprovação para Giulia. Ela não contou tudo para Lucy.

— Por que fiz isso? — pergunta Lucy.

— É o que gostaríamos de saber. — responde Giulia, disfarçando.

Ela insiste em contar os fatos pela metade, não sem a desaprovação de Anne, que continua com a cara de poucos amigos para ela.

— E quem é Jason? Ele está aqui? — pergunta Lucy.

— Sim, está lá fora.

— Por quê não entrou? Se eu sai e o deixei, alguma coisa eu não gostei, não é?

Um sim constrangido soa da boca da prima.

— Ele te deu um presente incomum.

— O que significa isso? O que pode ser incomum?

— Muito exagerado… porque é o começo do relacionamento.

— Você está com cara de culpa. O que está escondendo? — insiste Lucy.

— Acho que você não gosta dele. Mas nós investimos muito no relacionamento. E, praticamente o impingimos a você.

Lucy tem alguns flashes esquisitos, mas os desconsidera, dada a confusão que sente. Não tem nem segurança, se eram lembranças dela ou algo que tinha sabido de outra pessoa, mas não tem tempo de continuar explorando tal fato, pois…

De repente, do nada, Jason entra, corre na direção dela.

— Que susto você nos deu, querida! Não entendemos nada.

— Espere aí… eu estou no hospital e até agora só recebi cobranças de coisas que fiz ou deveria ter feito. Quem são vocês, afinal? Não quero ver mais ninguém. Saiam!

Diante das faces assustadas, olhos arregalados com aquela agressividade, Lucy reitera…

— Saiam, por favor!

Nenhuma daquelas reações se assemelham à Lucy antiga, a que tinha memória. Ela nunca teria uma reação daquela com quem quer que seja. Especialmente alguém com quem não tinha muita intimidade.

Ela estava irreconhecível. Parecia que uma segunda personalidade havia se libertado e aparecido no meio daquele caos.

Ao ouvir o grito de Lucy a mãe, Viola, aproveita para mais um dramalhão…

— Eu vou morrer, vou enlouquecer. — diz ela aos que se dispuserem a ouvi-la.

E, dentro do quarto, Lucy ainda pondera sobre sua situação. Não entende nada do que se passa.

Na sua cabeça, somente brumas povoam seus lugares de lembranças. Somente brumas fazem parte de sua vida agora.

Ela percebe que nem tudo pode ser daquele jeito. Ela já tem vinte anos segundo disseram, então deve haver muito mais. Mas por quê ela não se lembra? Do que ela está tentando se livrar?

— Nossa! Quero paz, gente louca. Acho que é por isso que não me lembro de nada. Minha mente está me protegendo, tentando me salvar. Só pode ser isso. Se tudo continuar assim, nem quero me lembrar de nada. Aliás, qual país estou? Será Pasárgada, ou Nárnia?ou… entrei na Matrix?? Quem sabe?

Anne corre para o quarto para ver se entende o que acontece com Lucy.

— O que está dizendo, Lucy?

— Estou dizendo que acho que não sou daqui… sou de algum lugar… outro lugar. Não conheço nenhum de vocês, e não compreendo o modo de vocês se comportarem. Parece uma conspiração! Mas, quem perderia tempo me envolvendo em uma conspiração? Sou importante o suficiente? Me parecem todos malucos. Ninguém me fala nada coerente. Quero dormir, quem sabe não é um sonho? Estou dormindo e acho que estou acordada.

Enquanto fala, Lucy agita as mãos, os braços, inconformada da falta de compreensão dos acontecimentos.

— Pare com isso. Tenha um pouco de paciência que as coisas vão mudar. Você vai começar a se lembrar… — diz Anne, tentando confortá-la.

— Se vocês são amostras do que devo lembrar, não quero lembrar. Me deixa!

E enfermeira, percebendo a agitação de Lucy pede para saírem.

Anne reluta, mas sai. O médico já havia explicado que a recuperação da lembrança poderia ser meio dolorosa e difícil.

Alguém se lembra que é preciso avisar o local de trabalho dela.

— Anne, vamos. — diz Giulia. — Vamos avisar o chefe dela. Vamos avisar Mattia que ela está no hospital.

— Aliás, por que será que ele ainda não ligou?

— Sei lá, o telefone dela ficou na rua, parece que não acharam. A trouxeram rapidamente para cá. O pessoal do escritório não deve ter visto nada, foi do outro lado da avenida.

— Eles podem ter ligado e não ter havido resposta. Ainda não sabem o que aconteceu com ela, não é?

— É só o que posso imaginar, mas Mattia poderia ter ao menos ligado para mim, ele sabe que sou prima dela.

— Por que ele ligaria se não sabe o que aconteceu? Ah! Deixa quieto, vamos até o escritório dele.

— Vamos!

E, as duas dirigem-se para o escritório, onde Lucy trabalha.

— Mattia, Anne e Giulia estão aqui, querendo falar com você. – avisa a secretária.

— Mande-as entrar.

— Sentem-se. Qual é o assunto?

Mesmo sabendo que Mattia é esquisito, nunca viram esse lado grosseiro dele.

Giulia, a mais irritada se põe a falar.

— Não viemos aqui para pedir qualquer coisa. Viemos aqui para te dar notícias de Lucy.

— Vão me desculpar, mas não tenho mais vínculo nenhum com ela. O que podem estar querendo, vocês e ela?

Giulia range os dentes, olhando fixamente para Mattia.

— Não queremos nada, nem ela. Aliás, ela nem sabe que estamos aqui. Só uma informação educada de gente civilizada. Ela sofreu um acidente e está no hospital.

Giulia está tão irritada com a grosseria de Mattia que fala e se levanta para ir embora. Anne a acompanha.

Mattia se assusta. Pensou que elas iriam cobrar dele a atitude do dia anterior, mas não contava com aquela notícia. Lucy no hospital?

Antes que elas alcancem a porta, o coração de Mattia acelera, ele se assusta e grita…

— O que aconteceu com ela?

Giulia faz uma careta de desgosto, suspira fundo, morde os lábios, mas pára, se vira para ele…

— Também não sabemos… e ela também não se lembra de nada.

— Como ela está?

— Parece que, fisicamente está bem, mas não se lembra de nada. Não se lembra sequer quem ela é. Está agressiva, bocuda, coisa que ela nunca foi. Já destratou todo mundo, inclusive a mãe… se bem que a mãe dela é bem maluca mesmo.

— Mas ela não se lembra de nada mesmo?

— Nada, nem ninguém. Parece que ela terá que reconstruir tudo na vida. Ela sabe falar, isso ela lembra e como! Mas ainda hoje me perguntou até em que país estava… como se ela fosse uma viajante contumaz.

— Me desculpem, por favor, voltem sentem-se, me contem mais.

Apesar de a contra gosto, as duas voltam e se sentam de frente para ele.

— Não tem muito o que contar. Ontem fomos comemorar o prêmio de excelência que ela recebeu. Fizemos uma festa surpresa. Ela não gostou já de início, porque minha tia deu a Jason a organização da festa. diz Anne.

— É! Ela chegou achando que a Viola tinha organizado a festa e quando foi agradecer ficou sabendo que tinha organizado por Jason. Aí ela já começou a ficar brava. — continua Giulia.

— Para piorar, ele ainda ficou se exibindo, tentando se impor para ela, se exibindo, dizendo protegê-la, e outros rompantes mais que só causam vergonha quando alguém se põe nessa situação. Tudo isso apesar dela o rejeitar. Ela foi ficando cada vez mais brava conosco também, porque sabíamos que… ela já tinha nos dito que não gostava dele e assim mesmo nós estávamos lá e o ajudamos.

— Um minuto depois, ela pega a bolsa e caminha para a saída. Jason foi atrás dela. Aí a coisa ficou feia. Ela deu a maior bronca nele, acho que com razão, ele exagerou. Depois disso não soubemos mais nada dela.

— Ela ficou sumida por umas duas horas. Depois Anne soube que ela estava no hospital, porque Viola, — que diz que vai ficar louca, mas já é começou a ter chilique e Anne começou a ligar para todo lugar. Achamos ela no hospital. Desmemoriada.

— A bolsa e o celular sumiram. Não sabemos nem o que pode ter acontecido com tudo. Isso é tudo o que sabemos. — completa Giulia.

Mattia parece ter recebido um soco no estômago. A completa besteira que fez, a coisa mais idiota em que acreditou, parece ter colaborado para ele tomar uma atitude mais idiota ainda. Ele acreditou que ela o estava traindo e sem ao menos deixar que ela falasse a acusou.

— Pior de tudo é que a culpa é minha. Eu fui injusto. A acusei injustamente. Vamos, me digam qual hospital ela está. — agita-se Mattia levantando-se rapidamente.

— Do que está falando?

— Tínhamos planejado nos encontrar. Eu estraguei tudo.

Mattia não explica mais nada. Levanta-se e começa a sair, deixando-as sem entender.

— Acho então que foi por isso que ela atravessou a rua sem olhar, não é? — ironiza Anne.

— Nem se preocupa! Ela não lembra de ninguém. Acho que não vai lembrar de você também. — diz Giulia.

— Preciso encontrar com ela. Me dê o nome do hospital.

As duas cedem aos pedidos de Mattia. Ele segue para o hospital, pesaroso, sem jeito e culpado por ter feito o que fez, sem ao menos tentar ouvi-la.

Ele chega aflito no hospital, vai direto até a recepção, para saber o número do quarto.

Lucy expulsou todos do quarto, está sozinha, virada para a janela, olhando para o céu.

Ela já está se lembrando de algumas coisas que aconteceram, inclusive de sua nova personalidade que dava a ela o poder de decidir sua vida.

Suas duas personalidades antes separadas, agora parecem começar a se juntar. Elas começam a se unir, aos poucos em um conluio planejado.

Tem gostado do que falou, sente-se compensada, diferente de antes quando precisava prestar contas a todos sobre suas atitudes. Lembra-se das vezes que sentia vergonha de contar para as meninas o que sentia, pois sabia que elas não aprovariam.

Que raio de amizade era aquela, que não podia falar porque elas a criticariam e ela se importava com isso? Parece agora que as personalidades estavam se equilibrando, mas ainda precisava de tempo para elaborar melhor, qual das personalidades iria deixar prevalecer. Precisa se lembrar de tudo o que aconteceu…

Ela ouve a porta se abrir.

Fecha os olhos tentando ignorar quem entra. Ouve uma voz masculina chamá-la. Vira-se e o vê.

Um ser… bonito… não, lindo sim, Mattia. Ela não se lembra de ter visto antes um homem com tais combinações tão bem… bem feitas. Um par de olhos castanhos, penetrantes, um nariz clássico, uma boca… ah! E a barba então… os fios dourados no meio dela, era demais! Aqueles ombros largos, alto… enfim… um homem encantador, sedutor, maravilhoso, que a envolveu em uma relação deliciosa e de uma só vez, destruiu tudo, porque achou que estava sendo enganado, sem ao menos permitir que ela se explicasse, ou melhor, sem ao menos que ela entendesse do que ele a acusava..

Então, ela decide que nesse momento, a alegada falta de memória viria a calhar. Ela usaria isso como arma. Aquela personalidade era direta, clara e corajosa. Aquela personalidade não tinha medo da vida, não tinha medo de falar o que sentia e não tinha medo de viver intensamente.

Ela se pergunta até meio divertida, onde é que essa outra Lucy estivera escondida esse tempo todo.

Sente-se estranhamente bem optando por mantê-la. Olha longamente para Mattia, enquanto pensa.

— Quem é você? – resolve perguntar, ainda confusa sobre o que lembra, ou não lembra.

— Lucy, sou eu, Mattia!

— E? Já devem ter lhe dito que não me lembro de ninguém.

— Sim, mas eu não acreditei. Vim ver pessoalmente.

— Pode acreditar. Não sei quem é você, além do quê, gostaria de ficar sozinha. Já me perturbaram o suficiente hoje… minha mãe maluca, o marido tonto dela, minha prima sonsa, a amiga brava, mandona, etc. e tal. As únicas pessoas que estão agradáveis hoje, são as enfermeiras que, de fato, são realmente desconhecidas e não estão me cobrando nada.

— Você está aqui, por minha culpa.

— Ah! Você é o culpado! Não acredite nisso. Você não tem tanto poder. Se eu atravessei a rua sem olhar direito é porque eu não olhei direito, não foi você que me empurrou embaixo do carro… ou foi? — disse Lucy de forma jocosa, rindo em seguida!

— Não é isso, eu te disse palavras… que não devia ter dito.

— Ah! É? Ãh! Não se incomode. Não me lembro de nada e, se fui estúpida o suficiente para entrar embaixo de um carro por causa de suas palavras, sou mais estúpida do que pensava. Esquece. Vai fazer bem para todos nós.

Ela fala e se vira novamente para a janela. Nada parece convencê-la a conversar mais, a trocar mais ideias. Ela não se mostra disposta a mais nada.

Mattia não acredita no que ouve. Não é Lucy, a sua Lucy. Mas é intrigante. Essa nova personalidade. Será nova, ou sempre existiu, mas estava reprimida?

De repente, tirado à força de seus pensamentos, ele ouve Lucy novamente. A voz é a mesma, o corpo também, mas a atitude não, nunca.

— Vai embora!

Mattia ainda fica a olhar para ela, esperando que ela se vire novamente, mas ela não o faz.

Ela fica imóvel e o único movimento que ele nota é da respiração dela. Nada mais. Ele se levanta e sai.

Mattia passa a visitá-la diariamente, mas não consegue um diálogo muito amigável. Ela é sempre belicosa. Parece que o acidente a imbuiu de uma raiva do mundo, uma raiva de si mesma. Até o dia em que ela recebe alta do hospital.

Ela se culpa, estando consciente do que faz, mas a mágoa do que ele fez é mais forte e a mantém se desculpando nisso. Ela se lembrou do que ele fez, do que ele a acusou.

Lucy ainda tem vínculo com o escritório de Mattia, e precisa ir até lá para pegar seus documentos.

Mattia a recebe, mas Lucy se esforça e consegue não expressar nenhuma emoção ao vê-lo. A bem da verdade, mostra até algum enfado.

Ele se recorda de como ela o recebia antes. Era lindo. Ela é linda, mas continua a não movimentar um músculo facial sequer ao vê -lo.

A mãe de Mattia o visita e como sempre vai até o escritório tentar derrubar o ânimo de todos.

Ela vê Lucy. Ah! Quisera ela não ter visto depois da experiência que teve.

— Me pegue um café, menina. — Noemi fala, dirigindo-se a Lucy.

Lucy, que se encontra sentada na recepção, aguardando os documentos, não responde. Olha para ela e sorri. Lembra-se bem das insinuações maldosas dela, das sugestões que fazia sobre as supostas vantagens que Lucy poderia querer sendo namorada de Mattia. Uma mulher horrível, afinal, ignorante e arrogante.

— Não me ouviu, menina? Até agora você se aproveitou, sendo funcionária do meu filho e agora não se movimenta para me servir um café?

Lucy olha em volta, pois nessa altura, não acredita que aquela senhora rabugenta ainda esteja se dirigindo a ela.

Até tentou se fazer de desentendida para evitar um confronto pior, mas Noemi não arreda pé da arrogância.

Noemi percebe e vocifera:

— Estou falando com você mesmo, menina. Não tente disfarçar. Já sei que você trabalha aqui com meu filho e se aproveitou dele durante um bom tempo e agora está aqui para exigir indenização pelo acidente.

Lucy não responde e se conforma que realmente está num mundo louco e percebe ao mesmo tempo que sua antiga personalidade já está atuando lembrando-a que pessoas mais velhas devem ser respeitadas.

Ela se lembra que antes, já teria corrido para servir a senhora e se desculparia pela demora e ficaria explicando a ela sobre as puras intenções que tinha com Mattia.

Nem ela mesma acredita ter sido tão idiota. Quem era ela, e como se comportava antes para que uma senhora tivesse tal liberdade de ação?

Como ela recebia antes essa pessoa, tão pouco educada e tão virulenta, a ponto dela se sentir à vontade para tentar comandar sua vida?

No meio desses pensamentos todos, acaba ignorando Noemi, deixando-a mais brava ainda.

Por sorte, Mattia entra na sala e se dirige a Lucy, não sem antes perceber a mãe.

— Mãe, o que faz aqui? Por que veio de tão longe sem avisar?

— Por sorte vim sem avisar e pude pegar essa pessoa ainda na sua vida. Ela ainda está aqui? Por que você quer me desafiar? Me magoar?

— Mãe, fique quieta.

— Me dê os documentos, Mattia, me dê os documentos para eu ir embora, ou vou perder toda pouca educação que me resta e as coisas vão ficar pior do que já estão. — diz Lucy.

Ela corre para Mattia, agarra os documentos que estão em suas mãos e sai apressada da sala, deixando Noemi de boca aberta ao lado de Mattia.

Lucy volta para casa, ao lado da prima, toma um café e sentam-se na sala.

— Você não lembra de nada mesmo?

— Não se lembra de Mattia?

Lucy chacoalha a cabeça respondendo não à pergunta. Mesmo em casa, resolve manter a “falta de memória”.

— E Jason?

— Também não. Além de não lembrar, não gostei dele, desde a primeira vez que o vi nessa “atual consciência”.

Seu olhar, nesse caso já é mais irado, mais agressivo.

— É! Isso foi culpa nossa! Minha e de Giulia.

— Por que diz isso?

— Embora sabendo que você não gostava dele, e sim de Mattia, tentamos fazer com que você ficasse com Jason.

— Mas ele é chato, se acha, toma posse indevida… Não deixo de ser uma boba apesar disso. Era, ou sou, sei lá,… uma pessoa que precisa que outros digam o que devo fazer?

Essas dúvidas são legítimas para ela, mesmo agora. Lembrando-se de seu jeito anterior, questiona-se sobre também ser muito responsável pelo que as pessoas faziam com ela. Grande parte da confusão, foi concessão dela. Ela entende que, se tivesse dito não, muito daquilo não aconteceria. Mas ela não sabia fazer isso, não tinha aprendido aquilo. Precisava urgentemente praticar.

— Acho que preciso me mudar, ir para outro lugar. Falo inglês, não é? Continua ela na conversa com Anne.

— Você falava inglês. Quer tentar?

— Fluente?

— Nhé!! nem tanto, mas para a escrita você é ótima.

— Bem, vou tentar então. Preciso trabalhar. Preciso descobrir o que fazia no escritório de Mattia.

Lucy vê nisso a oportunidade de continuar a ver Mattia enquanto não revela que sua memória já está voltando. A maior parte das coisas passadas, ela já lembra.

Está perdida nos pensamentos, mas, de repente é novamente interrompida por Anne que não parou de falar.

— O escritório dele é de direito internacional, então você também administrava grande parte dos arquivos. Conhecia muito as leis dos países com os quais vocês se relacionavam.

— Ainda vou precisar falar com Mattia para verificar se ainda tenho lembrança da profissão. – continua Lucy.

— Ele vai adorar. Ele liga todo dia perguntando de você.

— É? Para mim ele não liga não.

Um leve aperto no coração, parece trazer de volta mais lembranças. Não lembranças de fatos ou acontecimentos, mas lembranças de emoções.

— Bem, do jeito que você o tratou, acho que ele ficou meio temeroso, não é?

Pela primeira vez, depois do acidente, Lucy sorri.

— Vou ligar para ele. Vou pedir para me esclarecer o que eu fazia. Espero que ele concorde.

— Acho que ele vai concordar. Liga logo.

Lucy opta por deixar uma mensagem.

Mattia, bom dia. Estou precisando encontrar trabalho. Gostaria de saber se pode me dar uns minutos de atenção e contar para mim o que eu fazia no seu escritório. Quem sabe eu me lembro de algo.

Lucy não quer continuar com a farsa, mas reluta em contar a verdade. Ainda se sente muito magoada pelo que ouviu de Mattia, quando ele nem ao menos a deixou falar.

Não sabe se é uma vingança ou uma vontade de sair de fato daquele relacionamento, pelo qual lutou e depois foi relegada às traças por Mattia.

— O som do telefone a tira de seus pensamentos. É Mattia.

— Oi Lucy. Não precisa procurar novo emprego. Ainda tem o seu aqui.

Quase inconsciente, começa a responder…

— Você me mandou… para de repente, pois percebe que ia terminar a frase se denunciando, mostrando que lembra que ele a mandou embora…

— Não quero, Mattia. Não quero. Gostaria só de ver o que eu fazia para, talvez, lembrar de algo.

— Você começou uma frase dizendo… “você me mandou”… lembrou algo? – Mattia pergunta.

— Não… só flashes… — nem Lucy acredita como consegue mentir sem titubear…

— Lucy, seria bom que viesse. Poderíamos conversar a respeito do trabalho sim.

Mattia resolve não entrar em detalhes, sabe que não devia ter feito aquilo, teria que achar uma forma de se desculpar e esperar que ela o perdoasse. E, se ela não se lembrasse, teria então que reconquistá-la, trazê-la novamente para si, para tão perto como já tinham estado antes de ele fazer o que fez.

A casa da montanha, as noites de lua cheia, com ela a seu lado, a alegria e a paz que ele sentia estando com ela, seus beijos e abraços, tudo estava agora despedaçado e destruído pela atitude ciumenta que ele teve, pela imaginação contaminada com a opinião de muitos para os quais ele deu crédito.

Aqueles dias deliciosos que passou com ela, ainda envolvem seus sentidos… e, de repente, é interrompido nos pensamentos pela voz de Lucy que inda está no telefone.

— Quando pode me receber?

— Hoje à tarde, você pode? Logo depois do almoço.

— Ótimo, estarei aí, tchau! Espero que sua mãe não esteja.

Lucy bate o telefone secamente. Após o almoço, ela vai para o escritório de Mattia.

Ele a recebe e, o olhar dele a envolve, como quando estavam juntos. Os dois sentam-se na sala que era de Lucy. Ao lado da sala de Mattia.

— Quer se sentar onde sentava antes?

— Não! Só quero que me conte no que eu trabalhava, por favor. – continua ela na sua atuação.

— Claro! – ele responde pesaroso, ensaiando uma tentativa de diálogo.

Mattia tira um notebook da gaveta e vira para Lucy. É um livro que ela está traduzindo.

— Se quiser, pode olhar os arquivos que você tem guardados aqui, verificar o tempo que quiser, quem sabe você lembra de algo.

— Obrigada. — diz Lucy, sorrindo para ele.

Mattia nem acredita. Será que ela está voltando a lembrar de algo? Aquele sorriso ele não via desde o acidente. Ele fica em volta dela, olhando-a.

— Se não der tempo de ver tudo, pode voltar aqui outras vezes. — comenta ele, aproximando-se dela o suficiente para ouvir sua respiração.

— Obrigada. — é ao que ela se limita naquele momento, sentindo o coração acelerar.

— Quer um café, uma água? — pergunta Mattia, falando muito perto de seu ouvido. A tensão cresce, os corações aceleram, os olhares os denunciam. Ela se lembra de momentos assim com ele e treme sutilmente, tentando disfarçar.

— Sim, sim, por favor. – ela olha para ele se afastando e tenta dominar a vontade que sente de abraçá-lo.

Mattia a olha com ternura, sai para buscar o café. Vai até a cozinha e pede para Nália dois cafés.

Está ensaiando para abordar o assunto que os separou, mas pela reação dela na primeira vez que tentou, no hospital, fica receoso.

Ao voltar com o café, ela não está mais lá. Não entende. Parece que estava tudo bem, mas ela sumiu. Saiu e não se despediu.

Liga para o celular dela, mas ela não responde. Começa ficar preocupado e liga para Anne.

— Ela está aqui, Mattia. Ela entrou e foi direto para o quarto.

— O que aconteceu, Anne? Ela saiu sem falar nada, sem se despedir?

— Não sei, Mattia. Ela tem feito umas coisas estranhas mesmo. Acho que algum apagão. Tenho até medo de deixar ela sair sozinha. Mas ela é teimosa, agora. Antes eu conseguia convencê-la, mas agora, você sabe… Dirigir nesse transito, pode ser algo perigoso nesse caso.

— Ela veio dirigindo? – ele pergunta.

— Sim, deve ter deixado o carro no estacionamento da frente do escritório.

— Bem, se puder, diga a ela que achei algo que talvez a ajude a se lembrar.

— Não sei se ela quer isso, Mattia.

— Diga a ela, por favor. Vou fazer o possível para me desculpar e tentar resolver tudo com ela.

— Está bem. – responde Anne.

E, no seu quarto, Lucy assume que já o perdoou. Até arranja desculpas para considerar elogioso que ele tenha ciúmes, mas não! Não pode perdoar a desconfiança, não pode perdoar que ele a considere vulgar.

Ela reconhece que teve um ímpeto muito forte de pular no pescoço de Mattia, o abraçar, o beijar muitas vezes. Foi embora para não se denunciar, mas não sabe quanto tempo vai aguentar sem falar nada.

Percebe que sua decisão de não revelar que já recuperou a memória, pode ser uma armadilha, contra ela mesma.

Precisa decidir rapidamente como continuar.

Já perdoou Mattia? O quer de volta? Mas como? Ele nem sequer tocou no assunto! Tocou sim, no hospital e ela não o deixou falar.

Mesmo nas visitas diárias que fez a ela, ele tentava. Ela nunca permitia que ele falasse.

Ela se lembra de como o tratou naquele dia e sabe que, se continuar com aquilo, as coisas só vão piorar… precisa sair disso, mas como? Revelando suas lembranças?

Ela tem que se decidir urgentemente sobre a verdade. Ainda está magoada, mas ainda o ama. Ele tentou se desculpar, ela não deixou. Precisa resolver isso.

E, o cosmo conspira a favor dos amantes. Nem bem acorda, Lucy ouve Anne atendendo a campainha. Corre lavar o rosto e, ouve a voz de Mattia na sala e depois batendo na porta do seu quarto.

Indecisa sobre o que fazer, hesita entre recebê-lo ou dispensá-lo, mas ele não lhe dá a chance de decidir… ele bate na porta e abre, não espera que ela responda.

Ela olha assustada para ele, mais parecendo agora a antiga Lucy, diferente da atual.

— Decidi que não vou deixar mais você me ignorar. — diz Mattia se aproximando rapidamente dela. — Queira ou não, você vai me ouvir…

Lucy fica sem ação diante dele. Ainda está em pé ao lado da cama, ainda de camisola, ainda no quarto mal iluminado.

Ele se aproxima e a segura pelo ombro, como quem quer evitar que ela fuja, como já fez antes. Lucy fica paralisada, com aquelas mãos a envolvendo, mas não foge, não o evita.

— Muito bem, agora que ficou muda, me deixou falar, eu continuo. — diz Mattia.

Lucy o olha espantada. Não consegue pronunciar uma palavra. Está travada entre os braços dele e se deixa ficar.

Ele continua:

— Você pode não lembrar de mim, de nossos momentos, de nossa vida juntos, mas eu me lembro muito bem e não quero perder isso por nada desse mundo. Vou fazer o que puder para você recordar, para você me amar de novo.

— Mattia… — tenta Lucy.

Mas ele não a deixa falar.

— Não! Agora é minha vez. Pode ser que eu não consiga nada com isso, mas não vou mais esperar você lembrar de nada. Vou recordar contigo nossas horas juntos, nossos momentos de amor e… até algumas desavenças, mas… junto contigo.

— Mattia, espere. — tenta ainda uma vez Lucy.

— Não! Nem tente. — interrompe Mattia novamente, tapando carinhosamente a boca de Lucy com suas grandes mãos. — Depois que eu falar, você fala, e aí… eu fico… ou vou embora.

O coração de Lucy se aperta, só de pensar em Mattia indo embora. Lembra-se muito bem da dor que sentiu quando ele a expulsou de sua vida injustamente.

Ao mesmo tempo, os olhos dele percorrem todo o rosto de Lucy, envolvendo-a em lembranças deliciosas.

— Eu vi ele ao seu lado, a puxando para dançar, botando aquelas mãos ridículas em você, eu perdi a noção de sensatez.

— Umm! – ela ainda tenta, sem sucesso.

— Não fale! Sei que fui idiota, mas só porque não achava que eu te merecia. Perdi noção de tudo e fiz a besteira que você já sabe.

Ela ainda se encontra travada entre as mãos fortes de Mattia. Ela começa a sentir que as mãos dele começam a relaxar assim que ela olha para ele e o deixa falar.

Enquanto fala as mãos dele começam a mexer com os cabelos dela, acariciar sua face, voltar para os ombros. Mãos que envolvem Lucy de tal forma que, no meio disso tudo ela aperta os olhos e grita:

— Eu me lembro! Eu me lembro.

Mattia fica momentaneamente paralisado. Olha para ela incrédulo, tentando confirmar o que ela disse, esperando que os olhos dela também lhe contem algo.

Ela repete:

— Eu me lembro, Mattia.

— Tudo? Tudo? — ele exclama agitado, agarrando-a, puxando-a para si e a mantendo apertada junto a ele.

Ela passa seus braços pela cintura dele, o mantém junto de si. Encosta sua cabeça em seu peito. Depois, estica os braços até alcançar seu pescoço e fica assim, envolvendo o cabelo dele com as mãos. Aqueles sentidos, aquela percepção aquele encantamento que ela esqueceu por um tempo, está novamente presente no seu contato com Mattia.

O beijo é inevitável, ele segura seu rosto, escorrega seus dedos pelos cabelos dela, e a puxa para si.

Ela se afasta um pouco ainda falando truncado, com a boca dele tapando a sua, e diz como consegue:

— Ain…ainda… vam…vamos falar… falar das pala…palavras bobas de que me… me acusou…

quando em cada pausa, um beijo estalava na boca dela.

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