O Apagão
PRÓLOGO
Por três dias, ficaram presos no Aeroporto Internacional!
Uma arquiteta perde o voo e fica presa no aeroporto durante um apagão geral. Ao lado dela, um músico em turnê que só queria dormir. Os dois são obrigados a conviver, dividir tomadas, comer a comida das máquinas do aeroporto e compartilhar histórias da vida. Quando a energia volta e cada um deve seguir seu caminho… o aeroporto inteiro torce para que eles embarquem juntos — no mesmo destino de um ou do outro.
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A HISTÓRIA
Tudo começou com um barulho seco, seguido por um silêncio que parecia engolir o mundo inteiro. No “modelito” Stephen King, diríamos que os Langoliers estavam chegando.
O Aeroporto Internacional Dom Moretti, lotado, luminoso, cheio de anúncios brilhando como vaga-lumes modernos, apagou. Caos geral. Escuridão total ganhando fôlego, antes dos olhos se adaptarem.
Trombadas involuntárias, encontrões sutis ou nem tanto, palavras de desculpas, ou palavrões dependendo do humor e educação dos que trombavam ou caíam. Malas rolando e pequenos furtos oportunistas acontecendo. Gritos denunciando alguns, protegendo outros, enfim… o caos!
Literalmente.
As luzes piscavam, sugando o restinho de força que ainda percorria seus corpos, tentavam resistir, e então desistiam de viver, mergulhando tudo numa penumbra azulada emergencial. Gritos abafados, celulares levantados, notificações falhando.
Um caos preguiçoso, porque ninguém sabia ainda se deveria entrar em pânico ou apenas reclamar no Twitter. Algumas risadas histéricas ainda eram ouvidas, lá e cá.
No meio disso, Liza, arquiteta, recém-saída de um projeto que consumiu sua sanidade, só queria embarcar para realizar um sonho juvenil: visitar o tal Teatro de Ópera que ela adorava desde a faculdade.
Uma viagem sozinha. Um presente para si mesma. Uma pausa. Mas a pausa virou susto quando a luzinha do avião programado apagou no painel eletrônico como se nunca tivesse existido.
— Ótimo. Eu devia saber! — ela resmungou, segurando a mochila como se fosse um amuleto.
Atrás dela, sentado no chão e com o capuz cobrindo metade do rosto, Levi, músico, parecia indiferente ao apocalipse energético. Tinha um violão apoiado ao lado e fones desligados. Só queria dormir, nada mais. Depois de três shows seguidos, seu corpo funcionava na base de café e irritação.
Liza procurava um funcionário. Levi procurava silêncio. E o destino, aquele brincalhão profissional, juntou os dois quando a arquiteta tentou desviar de um carrinho de malas desgovernado e tropeçou… exatamente no tênis dele.
— Você… caiu em cima de mim? — Levi ergueu o olhar, meio incrédulo, meio morto por dentro.
— Desculpa! Eu não vi o carrinho — disse ela, esfregando o joelho e tentando manter alguma dignidade.
— Tudo bem. Ninguém vê nada quando acaba a luz — respondeu, sem humor, mas mantendo a educação.
O apagão se espalhou como febre. Cancelaram mais voos. O sistema travou. Informaram que ninguém sairia dali até novo aviso. O caos continuou.
Liza suspirou. Levi também, cada um por razões completamente diferentes.
E foi assim, entre malas, lanternas improvisadas de celular e o cheiro de pão velho do saguão, que os dois ficaram oficialmente presos.
Foi só o começo.
Os primeiros minutos viraram horas. Passageiros se instalaram como náufragos urbanos. As tomadas viraram território, e Liza era uma diplomata treinada. Encontrou uma dupla disponível perto de uma coluna e colocou seu carregador. Logo ao lado, Levi tentava encaixar o dele sem esbarrar no braço dela.
— A gente vai ter que dividir isso? — ele perguntou.
— Não “a gente”. O mundo inteiro. Essas tomadas agora valem mais que Bitcoin — ela respondeu, com um sorriso até que divertido.
Ele riu pela primeira vez. Mais parecendo um assopro do fundo do diafragma. Um sussurro.
Liza olhou com mais atenção: barba por fazer, olheiras, mãos longas demais para alguém que não fosse músico ou ladrão de bancos charmoso.
Ela ouviu uma voz interna dizendo “não se mete com músico”, porque já tinha vivido o suficiente para saber que músicos são emocionalmente perigosos. Mas seu lado curioso, aquele que sempre escolhia a fileira do meio no ônibus só para ouvir conversas alheias, falou mais alto.
— Você é famoso? — ela perguntou, vendo fãs discretos tentando reconhecê-lo na sombra.
— Só o suficiente pra me impedir de dormir hoje — respondeu. — E você? Parece alguém que faz listas até pra respirar.
— Se eu pudesse, faria mesmo. Minha terapeuta chama isso de “previsibilidade emocional”.
— A minha diz que eu corro das coisas “porque confundo movimento com liberdade”.
— Nossa — Liza arregalou os olhos —, isso foi profundo.
— Eu pago caro pra ela ser profunda — Levi sorriu amarelo.
O aeroporto ofereceu kits emergenciais ridículos: água quente, bolacha que parecia gesso doce e um cup noodles sem o cup. Eles dividiram tudo e riram, comentando que aquilo parecia mais um desafio de reality show do que assistência ao passageiro.
Aos poucos, conversaram como se fossem velhos amigos: ela contando do prédio que reformou e odiou, ele falando da turnê insana que só parecia glamourosa nas fotos.
Liza descobriu que Levi compunha quando ninguém olhava. Levi descobriu que ela desenhava melhor quando estava triste.
O apagão persistia. A madrugada avançava.
E o que era para ser uma espera virou… companhia… e companhia agradável.
Não tinham saída, não havia o que fazer além de apreciar a companhia um do outro. E foi o que aconteceu.
O aeroporto estava inteiro adormecido, exceto por alguns passageiros inquietos e pela voz de Levi, que cantarolava baixinho enquanto afinava o violão.
Não havia energia, mas havia eco. Um eco bonito, até poético. Liza estava sentada no chão, desenhando o rosto dele no tablet, já com 11% de bateria. Ela não admitiria, mas estava fazendo aquilo desde que ele começou a cantar.
Ele notou.
— Isso aí é… eu? — ele perguntou, inclinando a cabeça.
— Não! — Ela escondeu o tablet como quem esconde chocolate. — Quer dizer… talvez. Só um estudo rápido. Não é grande coisa.
— Se não fosse grande coisa, você não esconderia.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
Levi se sentou ao lado, tão perto que Liza podia sentir o cheiro dele, uma mistura de chuva, café requentado e estrada.
— Você desenha o que sente? — ele perguntou.
— Quase sempre — respondeu. — E você? Canta o que vive?
— Não! Canto o que eu gostaria de ter vivido.
Aquilo deixou Liza quieta por segundos inteiros.
Eles trocaram histórias. Coisas que não se contam a estranhos, mas que, por algum motivo, pareciam seguras ali naquele limbo de aeroporto apagado.
Ela falou do ex-noivo que nunca entendia por que ela chorava quando via prédios antigos.
Ele falou da última música que escreveu, que ninguém do público conhecia ainda, sobre medo de perder algo antes mesmo de ter.
Quando Levi tocou a tal música, Liza quase esqueceu que existia um mundo fora dali.
Ele cantava com simplicidade, como quem não tem nada a provar. A voz dele parecia encontrar os buracos que ela escondia e iluminá-los.
Não era amor, ainda não, mas era o começo de algo que se parecia com carinho, admiração. Uma afeição brotando.
— Você deveria lançar essa — ela disse, com convicção.
— Talvez, mas acho que só faço música boa quando estou um pouco perdido.
— Então você vai fazer um álbum triplo aqui, se esse apagão continuar muito tempo — ela riu.
Ele sorriu de volta, olhando intensamente para ela. Tão intensamente quanto conseguia enxergar.
A madrugada virou manhã. E eles ainda estavam ali. Lado a lado. Como se fossem passageiros do mesmo destino, mesmo que não fossem.
Quando as luzes finalmente acenderam, ninguém comemorou imediatamente. Demorou alguns segundos até as pessoas entenderem que aquilo era real. O sistema voltou. Os painéis reiniciaram. O mundo retomou o ritmo acelerado de sempre.
E, com isso… o feitiço que envolvia Liza e Levi começou a rachar.
— Parece que vão reorganizar os voos — disse Liza, lendo o aviso no painel.
— É… parece — Levi respondeu, olhando para o chão.
Eles estavam lado a lado, mas pela primeira vez desde que se encontraram, havia um espaço estranho entre os dois. Como se a luz tivesse acendido não só no aeroporto, mas nas dúvidas que cada um escondia.
— Você vai pra onde mesmo? — ela perguntou.
— Montevidéu. Show amanhã. E você… Itália, certo?
— Sim.
A fala foi pequena, mas o silêncio que veio depois foi enorme.
A volta da normalidade trazia uma sensação amarga: o tempo deles tinha sido construído no improviso, na vulnerabilidade, na escuridão. E agora que tudo funcionava de novo… quem seriam eles?
Liza apertou a alça da mochila.
Levi guardou o violão devagar, como se estivesse adiando alguma coisa.
— Foi… bom — ele disse, sem saber concluir a frase.
— Foi — ela concordou.
Mas não era só “bom”. Era singular. Inexplicável. Dolorido de bonito.
Um anúncio chamou o voo de Levi. Ele levantou. Ela também.
A despedida foi rápida demais para o que os dois queriam.
— Cuida de você, arquiteta que desenha sentimentos — disse Levi.
— E você, músico que canta caminhos que não conhece — ela respondeu.
Eles sorriram. Um sorriso torto, doído, cheio de “e se”.
Eles se demoraram olhando-se e então cada um seguiu para seu portão.
Mas o destino não estava satisfeito.
Liza caminhava até o portão quando algo no seu coração apertou. Era leve, mas insistente. Como uma lembrança que se recusa a ser memória.
Ela parou, olhou para trás. Não viu Levi.
Continuou andando, mas o passo ficou mais lento. Algo a atraía de volta.
Ela tentava ser racional, prática, adulta. Mas tudo que viveu com ele não cabia em lógica nenhuma.
Chegou ao portão. Entregou o passaporte. Caminhou pelo corredor estreito até a porta do avião.
E parou de novo.
Porque tudo lá dentro parecia… frio. Incompleto.
Faltava música. Faltava riso. Faltava aquilo que só existiu no escuro.
— Senhora, tudo bem? — perguntou a comissária.
Liza sorriu. Um sorriso pequeno, mas firme. Um sorriso de compreensão, de decisão.
— Acho que embarquei no voo errado — ela disse.
Voltando pelo corredor, o coração dela batia depressa. Talvez fosse loucura. Talvez fosse só impulso. Mas, de repente, ela percebeu que algumas loucuras são só verdades disfarçadas.
Enquanto isso, em outro portão, Levi também tinha parado.
Também tinha sentido a mesma pressão no peito.
Também tinha percebido que estava indo embora de algo que não havia começado direito.
Ele deu meia-volta.
Quase tropeçou no próprio estojo de violão.
E correu. Literalmente correu.
Liza surgiu no saguão no mesmo instante.
Os dois se viram.
Um sorriso de satisfação se estampou no rosto de ambos.
Não teve discurso. Não teve música. Não teve aplauso de aeroporto.
Só teve um suspiro coletivo do universo, e os dois rindo, sem fôlego, como quem finalmente entendeu que histórias boas não acontecem por coincidência.
Levi caminhou até ela.
— Eu ia te procurar — ele disse.
— Eu ia te encontrar — ela respondeu.
E foi assim, não no escuro, mas na luz plena e barulhenta do aeroporto, que os dois decidiram… embarcar juntos.
Destino? A gente decide depois.
Por enquanto, bastava estar no mesmo voo.
Quando um avião decola, ele decola levando duas almas apaixonadas. Dois amores que prometem, duas vidas que se juntam para buscar um lugar especial no coração de cada um.
O que você achou? Gostou? Gostaria de um final diferente? Afinal, é possível isso, porque a vida é cheia de surpresas e, como tal, permite todo tipo de imaginação e sonho adaptado ao considerado “oficial”.
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