A Bibliotecária

PRÓLOGO

Uma bibliotecária organizada encontra um manuscrito misterioso esquecido na prateleira. A história é perfeita demais para ser real, até ela perceber que o autor frequenta a biblioteca diariamente, sempre devolvendo os livros atrasados. Ele escreve sobre ela sem saber que ela está lendo. Quando ela tenta devolver o manuscrito anonimamente… ele descobre a leitora beta do coração.

Helena, bibliotecária num mundo de AIs, eBooks e novelas digitais e caos medido pelo número de tokens.

Respire fundo, porque a linda bibliotecária e o charmoso autorzinho distraído vão te render um romance digno de corredores silenciosos e corações barulhentos.

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A HISTÓRIA — O MANUSCRITO QUE NÃO EXISTIA

Helena confiava na ordem das coisas.

Literalmente.

Como bibliotecária-chefe da Biblioteca Municipal Aurora de Almeida, tinha por missão garantir que cada volume estivesse em seu devido lugar.

Biografias com biografias, romances com romances, poesia com poesia, e pessoas… bom, pessoas eram muito mais difíceis de classificar, então ela evitava. Nem chegava muito perto.

Naquela terça-feira nublada, em que a chuva prometia mas não cumpria — só fazia graça —, Helena fazia sua ronda matinal com um carrinho rangente quando encontrou algo que não deveria existir ali: um caderno preto, de capa lisa, sem etiqueta, sem classificação, sem código, sem alma catalogada.

Ela hesitou, porque objetos anônimos eram piores que livros fora do lugar. Eles desafiavam o sistema. E o sistema era sua fortaleza emocional.

Abriu o caderno com a ponta dos dedos, pronta para encontrar rabiscos de adolescentes, listas de compras perdidas, bilhetes resignados… mas o que viu a fez piscar uma, duas, três vezes:

Era um romance.

Não resistiu, começou a ler!

Era um romance bom!

Página após página, uma escrita sensível, engraçada, romântica, porém estranhamente familiar. A protagonista parecia muito com… com ela. Não no sentido superficial, mas no jeito: a mania de ajustar a aba esquerda dos livros para alinhamento perfeito, o hábito de falar sozinha quando achava que ninguém escutava, o terror secreto de se apaixonar e bagunçar para sempre sua “classificação por ordem emocional”.

“Que absurdo”, murmurou, corando sozinha na estante de Literatura Estrangeira.

Continuou lendo. Ao final do primeiro capítulo, o autor descrevia “A Bibliotecária Que Achava Que Amor Era Ficção”. Era o título. Era a ideia dela. Era… ela.

Helena fechou o caderno com força. Precisava descobrir quem deixara aquilo ali. E por quê.

Ela só não imaginava que a resposta estava “no ser” a três corredores de distância, devolvendo mais um livro atrasado com um sorriso culpado.

O nome dele era Miguel, ou pelo menos era o que aparecia, religiosamente, em todos os avisos de atraso.

Ele devolvia livros como quem devolvia desculpas: devagar, com charme involuntário, e sempre prometendo que “desta vez não vai acontecer de novo”.

Helena catalogou mais atrasos dele do que capítulos do manuscrito.

Miguel frequentava a biblioteca todos os dias, ocupando sempre a mesma mesa perto da janela. Às vezes lia, às vezes escrevia, às vezes apenas ficava olhando o movimento dos leitores como se tivesse nascido para observar histórias alheias.

Ela decidiu investigá-lo discretamente. Ou pelo menos tentou.

— Oi, Helena — ele disse, sorrindo ao aparecer diante do balcão com um livro de capa azul. — Atrasado. De novo.

Ela pigarreou, tentando esconder o manuscrito atrás de si como quem esconde um coração roubado.

— Eu percebi — respondeu, anotando o atraso pela sétima vez no mês. — Você escreve, não é?

Miguel congelou por meio segundo, como se tivesse sido flagrado cometendo um pecado literário.

— Eu… rascunho umas coisas. Coisa boba. Por quê?

Helena engoliu a verdade. Ela queria dizer: “porque acabei de ler algo que parece ter sido escrito dentro da minha cabeça”. Mas optou por:

— Curiosidade. Só isso.

Miguel sorriu de um jeito que parecia guardar uma biblioteca inteira por trás.

De volta ao escritório, Helena abriu o caderno para reler um trecho… e percebeu algo novo. No final do capítulo três, havia uma linha escrita com pressa:

Se alguém encontrar isto… desculpa. É que eu não consigo escrever se não estiver perto dela.

Perto de quem? Estaria ele apaixonado por outra? Por alguma leitora? Por alguém que trabalhava ali?

Helena suspirou, dramática. Queria devolver o manuscrito anonimamente. Era o certo. Mas… e se devolvesse e ele nunca descobrisse que ela tinha lido? E se ela fosse apenas mais uma figurante no romance da vida dele?

O medo maior, porém, era outro: e se o “ela” do manuscrito… fosse de fato ela?

Helena passou os dias seguintes dividida entre o trabalho e o manuscrito — e, inevitavelmente, entre o manuscrito e Miguel.

Quanto mais lia, mais percebia que a protagonista, chamada apenas de “H.”, era construída com detalhes tão íntimos que chegavam a ser desconcertantes.

H. organizava os livros exatamente como Helena fazia.

H. odiava improvisos como Helena odiava.

H. acreditava que o amor era uma invenção literária, útil apenas para vender importância emocional para quem não sabia lidar com a própria solidão.

Exagero, claro, mas… não muito.

Helena começou a notar Miguel pela biblioteca com um olhar novo.

Ele observava tudo com aquela expressão de quem está constantemente traduzindo o mundo para palavras.

Às vezes, sem querer, seus olhos cruzavam os dela, e ele desviava rápido, como se tivesse sido pego lendo algo que não devia.

Ironias da vida.

Num fim de tarde especialmente silencioso, Helena tomou coragem. Colocou o manuscrito dentro de um envelope pardo, escreveu “Acho que isto é seu” e planejou deixá-lo na mesa de Miguel. Simples. Elegante. Distante. Sem riscos emocionais, ou assim ela esperava.

Ela se aproximou da mesa vazia, segurando o envelope como quem leva uma bomba romântica prestes a explodir.

Deixou sobre a madeira e recuou. Seu coração parecia um livro arremessado de uma prateleira alta: despencando e fazendo barulho demais.

Quando voltou ao balcão, fingindo naturalidade, viu Miguel entrar. Ele caminhou até a mesa, pegou o envelope… e congelou. Olhou em volta. Depois, abriu.

Helena observava tudo por cima do monitor, como uma espiã pouco prática.

Miguel leu algumas linhas do manuscrito. Franziu a testa. A expressão mudou para surpresa. Depois, para choque.

E então, o pior de todos os estágios: ele levantou os olhos procurando quem havia lido seu coração em forma de rascunho.

E encontrou Helena.

Os dois ficaram imóveis por alguns segundos. O tipo de silêncio que não existe em bibliotecas — o silêncio que grita.

Miguel aproximou-se devagar. Ela tentou manter postura, mas era difícil quando suas mãos suavam mais do que as páginas de um romance proibido.

— Você leu… tudo? — ele perguntou, voz baixa, quase reverente.

Helena engoliu seco.

— Sim. Achei na prateleira. Eu… achei que fosse importante devolver.

Miguel sorriu. Um sorriso pequeno, mas cheio de um tipo muito específico de esperança.

— Então… você é a minha leitora beta.

Helena piscou.

— Perdão?

— Leitora beta. Aquela pessoa que lê antes de todo mundo. Aquela para quem a gente escreve sem perceber. Aquela que faz tudo valer a pena.

Helena corou. Ela nunca corava.

E naquele instante, percebeu algo ainda mais assustador que amor: perceberem você antes de você perceber a si mesma.

Os dias seguintes foram… estranhos. No bom sentido. No terrível, também. Miguel passou a frequentar a biblioteca com mais cuidado — o que, para ele, significava apenas devolver os livros atrasados com justificativas literárias:

— O livro pediu mais um dia comigo.

— O capítulo final ficou triste sem companhia.

— A culpa é do clima.

Helena fingia reclamar, mas seu sorriso a traía. E Miguel anotava mentalmente cada reação, cada mudança de expressão, como um escritor obcecado por nuances.

Uma tarde, enquanto ela organizava a seção de Romance Contemporâneo, Miguel se aproximou com o manuscrito nas mãos.

— Posso te mostrar uma coisa? — perguntou.

Helena assentiu, com o estômago em guerra civil.

Ele abriu na última página… que até então estava em branco.

Agora, não estava mais.

Lá havia um capítulo novo, escrito à mão:

“Capítulo Final (Em Andamento)”

O que ele havia escrito:

“H. devolveu o manuscrito. Mas, ao contrário do que ela pensa, a história não termina aqui. Porque histórias reais continuam quando duas pessoas têm coragem de admitir que existe algo a mais que coincidência, rotinas ou atrasos crônicos.

Se H. permitir, o autor gostaria muito de convidá-la para um café. Um café real. Fora da biblioteca. Com açúcar, imprevisibilidade e talvez um pouco de bagunça. Mas só se ela quiser. Porque esta história só funciona se for escrita a quatro mãos.”

Helena sentiu o coração tropeçar em si mesmo.

Miguel observava seu rosto como quem espera um veredito de vida ou morte.

— Então…? — ele perguntou.

Helena respirou fundo.

— Miguel… você está mesmo… me convidando?

— Estou. Mas se for um “não”, prometo não transformar isso num drama de 400 páginas.

Helena riu — e Miguel fechou os olhos por um segundo, como quem guarda um som precioso.

— Eu… — ela começou, mas parou. A bibliotecária racional queria cautela. A mulher que descobriu ser protagonista de uma história alheia queria caos.

— Eu quero — ela disse, por fim.

Miguel sorriu tão grande que parecia iluminar a prateleira de Romance Histórico.

O café não foi perfeito. Miguel derrubou açúcar na mesa, perdeu uma caneta e contou três histórias de que não lembrava o final.

Helena riu de todas. Em troca, ela confessou que o amor sempre pareceu uma ficção confortável demais para ser real, até perceber que realidade e ficção não são opostos, mas versões diferentes da mesma bagunça.

Começaram a se encontrar quase todos os dias. Primeiro no café. Depois, na praça. Depois, na biblioteca, onde Miguel passou a devolver os livros… “no prazo”. Helena brincou que talvez o fim do mundo estivesse próximo. Ele respondeu que, se fosse o caso, faria questão de escrever o apocalipse ao lado dela.

O manuscrito ganhou novas páginas. Agora, escritas por ambos. Às vezes, Miguel narrava. Às vezes, Helena editava. Às vezes apenas viviam algo que depois virava capítulo.

Na biblioteca, os leitores começaram a notar que a bibliotecária sorria mais. Que o rapaz dos atrasos agora lia ao lado dela. Que dois mundos, antes organizados e caóticos, haviam decidido se misturar.

E o título do manuscrito mudou.

Tornou-se:

“A Bibliotecária Que Achou Que Amor Era Ficção — Até Que Virou Autora da Própria História.”

No último parágrafo escrito até agora, Miguel anotou:

“Romances são feitos de duas coisas: expectativas e realidade. A primeira dá o brilho. A segunda dá o susto. Mas quando duas pessoas se encontram no meio do caminho, nem a melhor biblioteca consegue catalogar o que nasce ali.”

Helena leu. Corrigiu duas vírgulas. Acrescentou:

“E, pela primeira vez… não quero catalogar nada.”

Ele releu. Sorriu. Beijou-a.

E, no coração silencioso da biblioteca, um novo livro começou.

Sem prazo para devolução.

Sem classificação.

Sem fim anunciado.

Apenas… “continuação”.

O que você achou? Gostou? Gostaria de um final diferente? Afinal, é possível isso, porque a vida é cheia de surpresas e, como tal, permite todo tipo de imaginação e sonho adaptado ao considerado “oficial”.

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