Depois da Saudade!

PRÓLOGO

E, não se sabe se, por acaso, de propósito, por coincidência, arte do destino, ou seja lá o que for, ele a encontra de novo.

Num hotel. Naquele hotel de novo, o mesmo que já estiveram quando trabalhavam juntos.

Tudo o que o justificava antes, não mais vale. Ela está lá, ele também, não há como negar, a turbulência, o atropelo de emoções, nunca mais experimentadas depois dela, voltam. E voltam com força de um furacão, com determinação, abrindo caminhos nunca antes pensados, ou… a bem da verdade, até pensados, só não ousados.

Dessa vez, ele se deixará ser levado por aquela paixão, ou vai, novamente, fazer de conta que aquilo é invenção de sua cabeça? Ou parte do trabalho? Seja lá como for, continue ouvindo e fique sabendo da resposta.

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A HISTÓRIA

Ele a vê antes de perceber que a está procurando.

É um daqueles instantes traiçoeiros nos quais o corpo reage antes da razão, o coração salta, o estômago aperta, a respiração perde o compasso, e só depois a mente, atrasada, tenta organizar o caos.

Ugo permanece imóvel por um segundo a mais do que seria socialmente aceitável, como se aquele atraso pudesse ser confundido com contemplação casual. Não pode.

É Amy. É ela inteira, tridimensional, real demais.

O cabelo ainda cai do mesmo jeito indisciplinado sobre o ombro esquerdo, como se recusasse obedecer às leis da gravidade ou do bom senso. O sorriso, esse ele reconheceria em qualquer multidão, não mudou.

Um atropelo de lembranças o assalta.

Ele se vê jovem demais, ousado demais, inseguro demais. Vê cenas que nunca existiram fora dos bastidores: pausas longas demais entre falas, mãos que se encontravam por acaso e demoravam a se soltar, olhares sustentados além do necessário. Primeiro amor. Primeiro e único. Ele nunca ousou nomear assim, mas sempre soube.

Nunca confessou. Sempre teve medo de quebrar a magia dos momentos vividos. Ele não tinha consciência disso, nem ousava pensar assim, mas, lá no fundo, era o que ele temia.

Preferiu acreditar na versão confortável: era trabalho, era roteiro, era química construída para convencer o público.

Funcionou bem demais. Convenceu a audiência. Convenceu os produtores. Convenceu… eles mesmos. A mentira mais eficaz é aquela que veste roupas de verdade. Conviver com o que considerava ilusão é o que restava.

E foi justamente por isso que doeu tanto.

Amy sempre esteve perto demais para ser inalcançável e longe demais para ser tocada. Um mundo construído com sonhos para satisfazer muitos sob os olhares das câmeras e holofotes, o iludiu também por muito tempo.

Uma tortura elegante, dessas que não fazem barulho, mas deixam marcas internas. Para sobreviver, Ugo fez o que sabia fazer melhor: deixou-se levar pelo sonho, pela magia do conto de fadas.

Mulheres, histórias, promessas sinceras no momento em que eram feitas. Ele acreditava em todas. Sempre acreditava que aquela seria a definitiva. Aquilo era sua esperança mal direcionada.

Nada disso importa agora. Amy se vira. O instante se parte em dois. Foi pego, foi envolvido, foi novamente seduzido, agora pela realidade.

Ele gela, recompõe o sorriso com a habilidade de quem treinou a vida inteira para parecer tranquilo sob luzes fortes, e caminha.

Como se uma corda invisível os estivesse ligando, ele vai na direção dela. Ele é sugado por algo mágico que o leva até ela.

Sente-se atraído, como se um ímã poderoso o guiasse para ela. Instinto. Esquece o motivo oficial da viagem, o discurso ensaiado, as pessoas ao redor. Tudo perde contorno.

Quanto mais se aproxima, mais o corpo o trai. O coração acelera, as mãos ficam inquietas, o desejo, esse velho conhecido, desperta sem pedir desculpas. Ele quer envolvê-la como nunca teve coragem se não houvesse roteiro. Quer desfazer anos de contenção em um único gesto simples e irreversível.

Um grito quase o tira daquele transe.

— Ugo! — reivindica Verônica.

O chamado o arranca do êxtase como um puxão brusco de volta à superfície. Amy também se assusta. Por um segundo, os dois parecem crianças flagradas em um segredo antigo.

Eles se encaram, entendem sem palavras.

Ele se volta novamente para Amy, retomando o êxtase: o abraço é inevitável.

Correm um para o outro.

O impacto é emocionado, envolvente, apaixonado, agora sem roteiros.

O tempo separado se incumbiu de quebrar barreiras, acanhamentos, constrangimentos.

Braços que se envolvem com naturalidade demais para simples cordialidade. O tempo se alonga. O mundo observa, mas nenhum dos dois parece perceber isso.

Há cheiro, calor, memória. Há um ajuste involuntário dos corpos, um reconhecimento que não deveria existir… mas existe.

Verônica não espera. Ela chega rápida, precisa, e o arranca daquele espaço suspenso entre passado e presente. Segura o braço de Ugo com firmeza excessiva, o sorriso afiado como lâmina polida.

— Quem é ela, querido? — Verônica pergunta entre os dentes.

A pergunta é impessoal demais. Desnecessária demais. Cruel demais.

Amy entende a exclusão de Verônica, praticada por eles, mesmo que involuntária, antes mesmo que a cena se organize por completo. Dá um passo à frente. Recupera a postura, o eixo, o controle que sempre foi sua armadura preferida.

— Verônica, sou Amy — diz, estendendo a mão. — Atuamos juntos muitas vezes. Éramos parceiros… e amigos. Protegíamo-nos dos excessos dos roteiristas.

Ugo respira. Sorri. O velho jogo retorna com naturalidade assustadora.

— Muito amigos — reforça. — Nossos improvisos salvaram cenas inteiras. Lembra daquela aposta?

Amy ri. Esquece, Verônica. Esquece o público. O riso nasce fácil, íntimo.

— Depois disso, ninguém mais ousou cortar nossas falas sem consultar os diretores.

Verônica percebe tarde demais.

O palco mudou de mãos. Ela ainda está ali, mas já não é centro, é cenário. Um “algo” imóvel, enquanto dois antigos protagonistas retomam, sem perceber, uma história que nunca terminou.

E, no fundo, ambos sabem: aquele reencontro não foi acaso.

Foi atraso.

O ambiente continua o mesmo, mas algo nele se desloca.

É sutil, uma alteração mínima no eixo do mundo, porém definitiva.

Ugo sente isso enquanto Verônica ainda fala, ainda gesticula, ainda ocupa espaço com palavras que agora soam distantes, ocas, como falas ensaiadas de um texto ruim.

Ele responde automaticamente, frases curtas, educadas, quase gentis demais. O corpo, no entanto, não está mais ali.

O corpo está com Amy. Verônica percebe que Ugo não está com ela.

Amy sempre teve esse talento incômodo de ler silêncios. Enquanto Verônica se esforça para retomar o controle da cena, comentários sobre a viagem, sobre compromissos, sobre pessoas que Ugo “precisa” rever, Amy observa. Observa com reconhecimento.

Aquele brilho específico nos olhos dele não é novidade. É memória viva.

— Ugo, precisamos ir — diz Verônica, apertando-lhe novamente o braço, como se o gesto pudesse trazê-lo à realidade que ela escolheu.

Ele concorda. Hesita ainda uma vez, sorri para Amy com uma educação cuidadosa demais, dessas que tentam disfarçar o que ainda pulsa sob a pele.

— Foi… bom te ver — diz.

A frase tenta a discrição, não revela a turbulência causada antes, e ainda agora.

Amy inclina a cabeça levemente, como fazia antes das cenas difíceis. Um gesto antigo, íntimo, quase um código.

— Também achei. — ela diz, sorrindo para ele.

Eles se afastam. Ou fingem.

O resto da tarde se arrasta para Ugo como uma sucessão de compromissos irrelevantes.

Conversas atravessadas, risos automáticos, fotos.

Ele escuta o próprio nome sendo chamado inúmeras vezes, mas cada vez que responde sente como se estivesse emprestando o corpo a alguém. Tudo nele continua preso àquele abraço, ao modo como Amy encaixou o rosto em seu pescoço, ao tempo indecente que durou, ao cuidado com que ela não se afastou primeiro.

Verônica percebe. Claro que percebe. Mas escolhe interpretar como orgulho ferido, vaidade ameaçada. Ainda não entende a dimensão do que se abriu ali… ou… não quer entender.

À noite, Ugo se refugia no quarto do hotel com a desculpa de cansaço. Fecha a porta, apoia as mãos nela por um segundo longo demais e respira como quem retorna de um mergulho profundo. O silêncio é pesado. A briga que travou consigo mesmo o desgastou.

Ele pensa nela.

Não na Amy idealizada, congelada no passado, mas na mulher que viu hoje. Mais segura. Mais inteira. Mais perigosa. Há algo nela que amadureceu, que começou a exigir mais urgência dele, e isso o desarma.

O telefone vibra. Uma mensagem.

É Amy: com uma mensagem no celular.

Achei estranho não termos conversado de verdade. Café amanhã? Sem plateia.”

Ele lê três vezes. O coração responde antes do orgulho, antes do medo, antes de qualquer estratégia emocional que ele tenha usado durante anos para se proteger.

E, na resposta de Ugo a ela — “Achei estranho termos esperado tanto tempo.”

A resposta dela vem rápida.

— “Então não vamos esperar mais.”

Ele sorri. Fecha os olhos por um instante. É um sorriso diferente daqueles que oferece ao mundo. É íntimo, quase juvenil.

Na manhã seguinte, o café é pequeno, discreto, longe das áreas movimentadas do hotel. Amy chega primeiro. Escolhe uma mesa no canto, de onde pode observar sem ser observada. Quando Ugo entra, ela o reconhece pelo andar antes mesmo de vê-lo. Isso a diverte.

— Você continua entrando nos lugares como se estivesse invadindo um território que não é seu — diz, assim que ele se aproxima.

— E você continua escolhendo mesas estratégicas — responde ele, sentando-se. — Nunca gostei de improvisar sem saber o cenário.

Eles riem. O riso é fácil, envolvente.

Por alguns minutos, falam de banalidades. Projetos. Mudanças. Pessoas em comum. É um cuidado mútuo, quase reverente, como quem toca um objeto frágil demais para ser quebrado por descuido.

Até que Amy apoia a xícara lentamente no pires.

— Por que você nunca falou? — pergunta, sem rodeios.

Ele foi pego de surpresa. Seu olhar é espanto e embaraço.

O mundo silencia. O chão se avoluma, como que para engoli-lo.

Ugo sente o impacto físico da pergunta. Há apenas curiosidade honesta, talvez a mais cruel de todas.

Ele respira fundo.

— Porque eu tinha medo de destruir o que funcionava — responde. — E medo maior ainda de descobrir que só funcionava para mim.

Amy o observa. Não o interrompe.

— E você? — ele devolve. — Por que nunca falou?

Ela sorri de leve, um sorriso enviesado, carregado de ironia contida.

— Porque eu sabia que, se falasse, não haveria volta. E eu precisava que aquilo durasse… nem que fosse pela metade.

Metáforas à parte, cada um com sua ilusão de adivinho da verdade. Por que então, agora duraria?

O silêncio que se segue é denso, carregado, cheio de tudo o que não viveram.

Ugo estende a mão sobre a mesa, hesita por um segundo e toca os dedos dela. O contato é bom, gostoso, amável.

Amy não afasta a mão.

— Isso é uma péssima ideia — murmura ela.

— E nós, continuamos falando por suposições. Ideias péssimas sempre foram as únicas que prestaram — ele responde.

Ela ri baixo. Um riso que concorda.

E, naquele instante, ambos entendem: o passado voltou não para ser revisto, mas para ser finalmente vivido.

Eles sabem. É isso que torna tudo mais encantador, envolvente e frágil ao mesmo tempo.

O café termina com uma naturalidade suspeita, dessas que tentam convencer o mundo, e a si mesmos, de que nada extraordinário aconteceu. Pagam a conta como se fosse apenas mais um encontro casual entre colegas antigos. Caminham lado a lado até a porta. O sol da manhã invade a calçada com uma luz exageradamente honesta, como se quisesse expor o que ainda não ousaram dizer.

— Então… — Ugo começa, interrompe a própria frase, sorri — a gente se vê por aí. — ele continua, se despedindo.

Amy concorda, mas o olhar permanece nele por um segundo a mais do que o necessário. Esse excesso sempre foi a assinatura dela.

— Por aí — ela repete.

Eles se afastam. Ou quase.

O dia conspira contra a distância. Eventos, reuniões, corredores estreitos demais para coincidências inocentes. Eles se cruzam mais de uma vez. Cada encontro é breve, carregado, envolvente. Trocam frases neutras diante de terceiros, mas os olhares fazem o trabalho sujo. Há uma conversa paralela acontecendo o tempo inteiro, silenciosa, intensa, sedutora.

Verônica percebe tudo.

Não de imediato. Primeiro como uma irritação difusa, depois como uma inquietação concreta. Ugo está diferente. Distraído demais. Gentil demais. E, sobretudo, ausente. O corpo dele responde quando Amy entra em qualquer ambiente. Não é algo que se possa apontar facilmente, mas é impossível não sentir.

No fim da tarde, Verônica o confronta.

— Você está estranho — diz, no quarto do hotel, enquanto ajeita a própria maquiagem no espelho. — Desde ontem.

Ugo se senta na poltrona. Observa-a pelo reflexo. Responde com a versão segura da verdade.

— Reencontros mexem com a gente.

Ela se vira rápido demais.

— Mexer não é o verbo que me preocupa.

Ele não responde. O silêncio denuncia mais do que qualquer explicação. Verônica fecha o estojo com força excessiva.

Ela entende que algo escapou do seu controle, e isso a enfurece.

Enquanto isso, Amy também luta contra si mesma.

No quarto silencioso, ela tenta trabalhar. Lê roteiros antigos. Ri sozinha ao encontrar falas improvisadas que reconhece. Lembra das mãos dele em suas costas durante cenas difíceis, do tom de voz mais baixo quando falava apenas para ela. Não era imaginação. Nunca foi.

O telefone vibra novamente.

Ugo na mensagem: — “Isso está ficando difícil.”

Ela sorri!

Amy respondendo à mensagem: “Difícil sempre foi. Agora só está explícito.”

Minutos depois:

“Ugo nova mensagem: “Você está sozinha?””

Amy fecha os olhos antes de responder.

“Amy em resposta à mensagem dele: “Estou.””

Ele não escreve de imediato. Ela imagina a hesitação. Gosta disso mais do que deveria.

“Ugo na mensagem: “Posso subir?””

O coração dela acelera. Há mil razões para dizer não. Compromissos. Orgulho. Autopreservação. Ela ignora todas.

“Amy respondendo a Ugo: “Quarto 614.””

O tempo entre a mensagem e a batida na porta é curto demais para que qualquer arrependimento se organize. Amy abre. Ugo está ali, mãos nos bolsos, postura controlada demais para alguém à beira do descontrole.

Eles se encaram.

Nenhum dos dois se move, de imediato.

— Ainda dá tempo de ir embora — diz ela, quase num sussurro.

— Eu sei — responde ele. — Mas não quero.

Ela se afasta, abrindo espaço. Ele entra. A porta se fecha com um som resolvido demais.

Só o que respira, o que importa ali dentro, são eles dois. O quarto sem alma não faz parte do que acontece com eles. É só figurativo.

O cenário não importa, eles dois se bastam. O que sempre foi deles está lá, junto, presente nos olhos na respiração nos corações acelerados.

Eles permanecem a alguns passos de distância, como se ainda houvesse motivo para embaraço.

— Isso não é justo — diz Amy. — Para ninguém.

— Nunca foi — Ugo responde. — A diferença é que agora eu sei o que estou arriscando.

Ele se aproxima devagar. A olha como nunca, ou… como sempre, só que agora, realmente, sem roteiro, sem câmera. A proximidade é quase insuportável. O perfume dela o envolve, familiar, desarmante.

— Você sempre foi cruel com pausas — ela murmura.

— E você sempre gostou delas.

— Nem tanto, hoje em dia. — diz Amy, sorrindo.

Ele ergue a mão, para no meio do caminho, esperando permissão. Amy não fala. Apenas encurta a distância. O gesto é mínimo, mas decisivo.

Ele a segura pela cintura, ela o envolve com os braços no pescoço dele, se aproximam olhando intensamente um para o outro até não haver mais espaço entre os lábios dos dois.

O beijo é suave e intenso ao mesmo tempo. Os corpos se aproximam cada vez mais e se encaixam com graciosidade.

O beijo carrega anos de contenção, de ensaios interrompidos, de cenas cortadas antes do final. Quando se afastam, as testas ainda se tocam, as respirações descompassadas denunciam a comunhão que há entre eles.

— Isso muda tudo — Amy sussurra, ainda de olhos fechados.

Ugo sorri de leve, irônico, sincero.

— Sempre mudou. Só nós é que não percebemos antes, mas agora…

Eles não avançam além disso. Não ainda.

O quase é mais intenso do que qualquer entrega precipitada. E ambos sabem: aquela contenção é a última barreira antes do inevitável.

Do lado de fora, a cidade segue indiferente.

Dentro daquele quarto, dois protagonistas finalmente admitem que a história nunca foi coadjuvante.

Ugo se afasta primeiro, ainda hesitando em soltá-la. Ele passa a mão pelos cabelos, respira fundo, como quem tenta se convencer de que ainda é capaz de escolhas racionais.

— Eu devia ir — diz, com uma honestidade quase dolorosa.

Amy concorda, mas o corpo dela permanece onde está. É um acordo silencioso.

— Devia — responde. — Antes que eu mude de ideia.

Ele sorri, aquele sorriso torto que sempre foi o prenúncio de decisões erradas muito bem justificadas. Aproxima-se novamente, não para beijá-la, mas para encostar a testa na dela. Suas mãos percorrem o rosto e o pescoço de Amy.

— Eu esperei anos para te tocar assim — confessa. — Não vou estragar isso fingindo que é só impulso.

— Então vá — diz ela. — Agora.

Ele a solta, caminha até a porta, volta-se novamente, olha para ela desejando outra alternativa, mas vai.

A porta se fecha. Amy permanece imóvel por alguns segundos, tentando decifrar o que sente. Sente expectativa, essa sensação perigosa que só retorna quando algo importante demais ameaça acontecer.

A noite chega com promessas que ninguém pediu.

O evento é luxuoso, cheio de sorrisos calculados e taças sempre cheias. Amy comparece sozinha. Escolhe um vestido que não pede atenção, mas recebe mesmo assim. Ela está linda!

Ugo chega com Verônica.

Ela segura o braço dele com a firmeza de quem parece sentir a iminência da perda. Sorri para fotógrafos, cumprimenta conhecidos, ocupa espaço.

Ele faz o papel esperado. Aplaudido, admirado, distante de si mesmo. Ele a procura, até que os olhares se encontram.

Amy está do outro lado do salão, conversando com alguém que Ugo mal reconhece. Ela ri. Inclina levemente a cabeça. O gesto é casual, mas atinge Ugo como um golpe baixo.

Ele percebe, tarde demais, que nunca pensou nela como alguém que pudesse seguir sem ele. E isso o assusta.

Verônica nota a distração.

— Você a procura o tempo todo — diz, baixo, sem perder o sorriso social.

Ele não nega, ao contrário, confirma.

— Sim, eu a reencontrei.

— E isso basta para me perder? — ela pergunta, finalmente permitindo que seu vício por ele apareça.

Ugo a encara. Não há crueldade em seu olhar. Apenas clareza.

— Não. Mas basta para eu me encontrar.

Ela solta o braço dele. Apenas se afasta, digna demais para implorar, orgulhosa demais para fingir. É o fim, silencioso, inevitável.

Ugo atravessa o salão.

Amy o vê se aproximar e o mundo ao redor parece desacelerar. Ele para diante dela, ignora cumprimentos, ignora expectativas.

— Precisamos conversar — diz.

— Sim, mas aqui não — responde ela.

— Agora.

Ele coloca as mãos no ombro dela e indica o caminho.

Eles se afastam para um terraço lateral. O ar noturno é fresco, quase cúmplice. Por um momento, nenhum dos dois fala.

— Eu terminei — Ugo diz, por fim.

Amy o observa, cautelosa.

— Não fiz isso por você — ele acrescenta. — Fiz porque estava em débito comigo mesmo.

Ela sorri, suave, emocionada, irônica.

— Você sempre teve talento para frases finais.

— E você para não acreditar nelas. Que tal começar a acreditar agora? — ele pergunta, sorrindo, olhando para ela.

Ele se aproxima. A olha com ternura, toca seus lábios com os dedos e depois com seus lábios. Intenso e decidido a traz para junto dele. Ela concorda e corresponde.

Quando se afastam, Amy encosta a testa no peito dele.

— Isso vai ser complicado — diz.

— Sim, as melhores histórias são. Resolvemos juntos as complicações.

Eles permanecem ali por alguns segundos, abraçados, enquanto a cidade brilha indiferente. Não há necessidade de palavras.

Como um acordo tácito, sem palavras, os dois entendem o que deve acontecer agora.

Dormir juntos naquela noite seria fácil demais. Sedutor demais. Um atalho perigoso.

Eles se despedem no saguão do hotel, mãos ainda entrelaçadas, como se nenhuma das duas quisesse admitir que o gesto já é íntimo o suficiente.

— Amanhã? — Ugo pergunta.

— Amanhã — Amy confirma.

O dia seguinte nasce comum demais para algo que promete ser extraordinário. Café da manhã silencioso, compromissos finais, malas sendo fechadas. O mundo insiste em seguir seu ritmo indiferente.

Eles se encontram novamente, agora sem testemunhas, sem câmeras, sem urgência. Caminham pela cidade como duas pessoas que se conhecem há tempo demais para precisar impressionar. Falam do que viveram — e, sobretudo, do que não viveram.

— Eu achava que era forte por ter seguido — Amy confessa. — Mas talvez eu só estivesse com medo de parar.

— Eu achei que era maduro por ter deixado você ir. No fundo, era covardia disfarçada de generosidade.

Amy sorri, olhando para ele.

Sentam-se num banco de praça. O vento brinca com o cabelo dela. Ele a observa com a atenção tranquila de quem não quer mais perder detalhes.

— O que fazemos agora? — ela pergunta.

Ugo pensa antes de responder. Aprendeu, enfim, a respeitar o peso das palavras.

— Agora, a gente faz do jeito certo — diz. — Sem roteiro. Sem plateia. Sem fingir que não importa.

— E se não funcionar?

Ele sorri, irônico, suave.

— Tentamos de novo, o que acha? Já é mais do que tivemos antes.

Amy se inclina e o beija. Um beijo sereno, inteiro.

Ali, naquele gesto simples, algo se reorganiza.

Quando se despedem, agora de verdade, não há dramaticidade, não há câmeras, nem holofotes. Apenas a certeza tranquila de que o reencontro não foi um acidente narrativo, mas um ajuste de tempo.

Anos atrás, eles foram convincentes demais ao fingir um amor para o público.

Agora, longe dos holofotes, aprendem algo novo e radical: amar sem ensaio, sem contrato, sem medo de errar.

E talvez seja isso, afinal, o final mais elegante possível, não o que fecha uma história, mas o que finalmente permite que ela comece.

O que você achou? Gostou? Gostaria de um final diferente? Afinal, é possível isso, porque a vida é cheia de surpresas e, como tal, permite todo tipo de imaginação e sonho adaptado ao considerado “oficial”.

Deixe sua sugestão, inscreva-se, deixe seu like e sugira outros finais. Obrigado por nos honrar com sua participação.

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