Volta pra Mim Capítulo III

Estou dispondo aqui os primeiros capítulos do livro de minha autoria chamado “Volta para Mim”, que está publicado e disponível no Google Play Livros.

Gostaria de sua opinião sobre o conteúdo, o começo da história, os personagens, a trama, etc. Deixe nos comentários sua participação.

O link do livro publicado está na descrição do vídeo.

Vamos então ao terceiro capítulo.

Do livro “Volta Pra Mim” — Capítulo III

EPÍGRAFE

O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.”

Friedrich Nietzsche

O escritório onde Anton domina é fantástico.

Na frente, o restaurante, um dos mais chiques e sofisticados da cidade. Anton já tem uma estrela Michelin.

O escritório ao fundo, uma sala toda decorada com tapetes, carpetes, madeira, muitas cortinas, nem parece um escritório de restaurante.

Parece mais uma sala para receber grandes autoridades.

O escritório está vazio e Antonella, encaminhada pela secretária, senta-se em uma das poltronas à frente da mesa que ela supõe, seja de ocupação de Anton.

Por quinze minutos, ela espera.

Parece que ele faz de propósito. Só porque ela se atrasou um pouco… Pronto, ele já está vingado pelo atraso dela. É o que passa pela cabeça de Antonella enquanto o espera.

A essa altura, ela já passeou várias vezes pela imensa sala, já fez inúmeros gestos de impaciência, já se sentou em todas as cadeiras que encontrou, e é numa dessas cadeiras que ela está quando Anton entra na sala.

É aquela, realmente, a cadeira de Anton. Tôni se vira para as cortinas semicerradas.

O carpete, os tapetes, as cortinas semicerradas, impedem o som do andar de Anton.

Ele se aproxima dela, esperando que ela o note.

Não é o caso.

Na sala pouco iluminada, Tôni já está quase dormindo quando vê um controle remoto no braço da cadeira. Aperta botões, por curiosidade mesmo, não entendendo todos os símbolos estampados no aparato, por estar num país estrangeiro e, de repente, as cortinas começam a se abrir.

Ao perceber isso, ela mantém acionado o controle e a luminosidade penetra na sala, mostrando mais beleza ainda, mais contornos graciosos, peças de arte, quadros lindos e o estonteante jardim…

Quando vê a paisagem, Toni fica extasiada! Dá um suspiro de admiração.

— Aahh!

Antonella está realmente distraída com a magnífica paisagem da janela que as cortinas abertas agora deixam ver, com grandes árvores, um jardim imenso, lindo, flores e pequenos nichos de água correndo.

— Nunca vi isso — ela diz para si mesma. — Como nunca percebi esse lado do prédio?

Anton abre a boca para responder, mas ela, ainda na frente dele, caminha em direção ao vidro da janela agora escancarada, cheia de luz.

Tôni se encosta no vidro, abre os braços, querendo abraçar aquela beleza toda que vê, querendo segurar aquilo tudo em seu abraço.

Anton a observa. O corpo dela fica destacado pela claridade do sol, contra o tecido. As formas de Antonella ficam contornadas contra o vidro.

Anton fica mudo, observando os movimentos dela. Tem o impulso de chamá-la, mas hesita, tentando apreciar ao máximo aquela visão bonita e totalmente inesperada junto à janela.

Estava tão carente assim de formas humanas? Formas femininas?

Não havia notado ainda essa falta que sentia. Havia tido muito pouco tempo até então para prestar atenção em si mesmo.

Ele notava uma diferença enorme de emoções desde a morte do pai. Agora ele cuidava de tudo pessoalmente, sem a interferência do pai.

Ele notava que prestava mais atenção em determinadas coisas, sentia falta de outras e ligava menos ou mais para outras…

Perdera o pai há algum tempo e, com muita dificuldade, ainda tentava consolar a mãe. Tentava por todos os meios lidar com ela e com os seus caprichos.

Ele era bem jovem, ela era ainda jovem.

Não havia tido ainda muito sucesso nesse caso. Ela continuava caprichosa e cobrando dele atitudes que Anton achava que deveriam ter sido cobradas de seu pai… ele era filho, afinal.

E mesmo com esses pensamentos todos, ele continua olhando Antonella, ainda grudada na grande porta de vidro e ainda distraída da presença dele.

Grudada na grande porta de vidro, ainda encantada com a beleza do jardim.

Anton chega ao lado dela.

O coração de Tôni salta ao perceber uma sombra toldar de repente seus olhos, um pulo, “o coração na boca”, como diz o dito popular.

Ainda com a visão ofuscada pela claridade do jardim, contra a sala escura, ela leva um grande susto.

— Já é a segunda vez em um curto espaço de tempo que o Sr. faz isso! Não pode fazer um pouco mais de barulho antes para não assustar as pessoas? Meu coração já está na boca!

Antonella não percebe, mas está gritando com o chefe dos chefes e, pior, falando em seu idioma nativo.

Anton não entende o significado das palavras, mas entende o tom. Ele fica atônito, observando o furor com que a menina o aborda.

— Sente-se, por favor. — diz ele para Antonella, apontando a poltrona atrás da mesa, tentando se controlar.

Antonella senta-se, amuada. Braços cruzados sobre o peito, uma perfeita criança birrenta.

Ela não está acostumada a seguir ordens, mesmo porque, no almoxarifado, onde ela aprende e aprendeu muito, ela praticamente se tornou a chefe… organizando tudo, orientando todos que estavam lá. E todos perceberam que suas orientações tornavam o trabalho mais fácil e dinâmico.

— O que trouxe para mim? — continua Anton.

— Está tudo errado lá no almoxarifado, se é isso que está perguntando.

Tôni se percebe grosseira, agressiva de forma desnecessária, mas a resposta de Anton impede que ela se acalme.

— É óbvio que é isso que pergunto. — responde rispidamente Anton. — Pode ser mais específica quando se refere a tudo?

— Tudo, é tudo, meu senhor. Não entende o significado da palavra?

Saiu sem querer, estava no automático, o modo belicoso já estava ligado e disparado em seguida.

Agora até Antonella acha que exagerou. Mas não podia ficar sem responder à grosseria de Anton, que a olhava como se ela estivesse sob um microscópio.

Ela morde os lábios, faz uma careta de arrependimento, mas agora já tinha falado o que não precisava.

O olhar de Anton era incisivo, penetrante e meio assustador. Ele não sorria e não mudava muito de expressão. Não se sabia se ele estava bravo, ou se era de sua natureza olhar daquele jeito, como se estivesse o tempo todo reprovando qualquer coisa que fosse falada.

Antonella, acostumada com as amenidades dos colegas, a camaradagem entre eles, estava visivelmente desconfortável e começando a ficar irritada.

Coisa que já fazia tempo que ela não sentia. Vontade de sair, ir embora, deixar ele falando sozinho.

Estava se sentindo atacada, vigiada, investigada o tempo todo. Estava concluindo que, se não aprendesse a se comportar como funcionária, ali ela não sobreviveria muito tempo.

Ela precisava retomar o controle da situação.

Não podia deixar aquele sujeito a intimidar. Era uma das coisas que seu pai sempre dissera ser preciso no trabalho: não se deixar intimidar…

Diante da mudez de Anton, depois da última frase de Antonella, ela resolve ser mais social, tentar mudar o rumo da reunião…

— Bem, Sr., me desculpe. Não estou acostumada com determinadas observações. Fiz aqui um relato do que acho que precisa e pode ser mudado no almoxarifado para um funcionamento mais eficiente.

Tôni se aproxima de Anton, que agora está sentado em sua cadeira. Ele a observa enquanto ela coloca a pasta sobre a mesa, na sua frente.

Antonella abre a pasta e entrega umas folhas escritas em papel para Anton.

O perfume de Tôni chega até ele.

— Conheço esse aroma. Ganhou de alguém?

Tôni olha para ele, mas não responde, limita-se a continuar esparramando as folhas sobre a mesa de forma aleatória.

— Você não tem um computador?

— Tenho, por que pergunta? Estou mais interessada no conteúdo do que nas regras da ABNT para se escrever uma tese…

Pronto, Antonella perdeu de novo a paciência e, em vez de simplesmente responder à pergunta, já se exaltou e se colocou na defensiva. A pergunta sobre seu aroma a perturbou.

Com movimentos agitados de mão e de corpo, mostra toda a vontade que tem de sumir dali em um curto tempo.

Ele continua a olhar para ela. Parece que não ouviu sua última ofensa, parece que está pensando em outra coisa, ou tentando lembrar algo. Não parece estar presente ali, naquele momento.

De repente, parece que alguma coisa muda. Anton agora parece diferente, mais ameno, parece até que seu lábio estica para um sorriso. Uma covinha no rosto se forma…

Depois de encará-la de forma estranha, Anton agora muda de expressão. Parece que sorri, pelo menos é o que Tôni pensa ter visto.

De forma estranha, ele parece agora tratar com uma pessoa mais próxima dele. Ele parece lembrar de alguém que já viu antes, que conheceu, que se relacionou e que gostou.

Ele fica alguns segundos ainda apertando os lábios, franzindo os olhos, parece até que está tentando recordar algo.

Antonella não entende a mudança, mas não comenta nada.

De fato, o próximo comentário de Anton parece confirmar sua impressão.

— Sim, senhorita, concordo. Perguntei sobre o computador por duas razões… estou vendo que faz um ótimo controle, então eu ia sugerir um programa, e também a facilidade dessa informação ser passada para todos os setores de interesse.

— Desculpe, o Sr. me deixa nervosa. Fui grosseira sem necessidade.

— Acho que começamos mal nosso contato. — diz Anton. — Aliás, ainda não sei o seu nome.

— Ah! Tá bom. — pensa Antonella. — Eu acredito. Com toda essa gana de controle, vou acreditar que não sabe o meu nome… — mas Antonella fica somente com o pensamento e resolve cooperar com o aparente desapego de Anton.

— Antonella! Antonella, meu nome, Sr. Os amigos me chamam de Tôni.

— Prazer, Antonella. Não sabia que tinha tal talento na minha lista de funcionários.

Agora, ele realmente parecia sorrir. Elogios?

Antonella desacreditou.

Ficou olhando incrédula para ele, esperando alguma reação sarcástica, mas ela não veio. De repente, parece que ele se tornou civilizado e educado!

— Bem, Sr., se quiser, podemos falar agora das mudanças que já fiz, as que acho úteis ainda serem feitas no almoxarifado, as possíveis mudanças que talvez tenham que ser feitas nos outros setores decorrentes desses novos procedimentos, ou podemos marcar outra reunião… como preferir.

Ele não parece registrar sua última proposta.

— Você tem um sotaque… não sei bem de onde. — diz Anton, olhando-a fixamente.

Antonella fica sem graça e desvia o olhar.

— É! Não sou daqui mesmo… o Sr. tem razão.

Mas Antonella não tem tempo de completar sequer mais uma palavra…

De repente, alguém muito espalhafatoso irrompe na sala. Uma senhora, muito divertida e sem papas na língua, escancara a porta.

— Meu menino! Quanto tempo não te vejo…

Anton parece agora assustado e embaraçado. Perde toda a postura de prepotência e encara a pessoa que acabou de entrar com certos receios.

— Mãe, não nos vemos desde ontem, estou numa reunião. Não podemos conversar depois?

— Claro que não… a menina aí nos dá licença. Preciso falar com você com urgência.

Antonella levanta-se rapidamente, pega seu material e foge na direção da porta, depois do susto que leva com aquela senhora entrando daquela forma na sala.

Depois de passada a sensação de urgência, Tôni começa a rir, mas tenta se conter.

Anton ainda tenta detê-la, pedindo a ela que fique, mas não consegue, Antonella foge.

— Não! Não! Eu volto outra hora, Sr. Anton.

A mãe o monopoliza de imediato. Ela toma conta dele e do ambiente.

Antonella ainda consegue ver, na corrida até a porta, a expressão austera daquele homem transformar-se na expressão de um menino diante da mãe.

Antonella sorri novamente. Descobriu um ponto fraco do chefe… a mãe!

— Anton! — diz a mãe… — Meu filho, aquele carro que você me comprou não chega nunca e o que está comigo só está indo para a oficina.

— Mãe, já te disse que, se quiser, use o meu motorista. Me ligue e combine um horário, que ele vai te buscar. Não há por que fazer uma tempestade num copo de água, nem interromper minhas reuniões por causa disso.

— Aliás, que menina linda, essa que estava aqui…

— Mãe, ela é funcionária nossa…

— E daí? Ela é linda… Notou os olhos grandes, o cabelo, o corpo lindo? Não é possível que você, que é homem, não tenha visto isso.

— Eu vi, mãe! Só não fico comentando aos quatro ventos. Tem muitas outras meninas bonitas trabalhando conosco.

— Ah! Como essa eu não vi nenhuma… mas, voltando ao meu carro…

Anton desiste… ela não vai parar até que o carro novo dela chegue. E parece que a agência ainda espera demorar mais um mês para entregar o novo modelo que Adele escolheu.

Adele está viúva há três anos. Ama o filho e o monopoliza sempre que pode. Adele tem, sim, suas atividades. É animada, ativa. Parece que, ultimamente, está ativa até demais.

Ela oferece assistência na empresa aos funcionários, orienta como pode a todos. Oferece uma espécie de apoio emocional, promovendo campanhas para os restaurantes do filho, propondo negócios promocionais, trazendo pessoas conhecidas sempre que pode, para conhecer os restaurantes do filho… uma espécie de relações-públicas informal.

E, nesse mês, Adele propõe dar um prêmio para os três melhores funcionários. Só precisa saber quais critérios vai exigir para que esses funcionários sejam premiados.

A quem ela perguntaria sobre os critérios?

— Anton, filho, preciso definir critérios para premiar alguns funcionários, incentivar o trabalho, melhor… a qualidade do trabalho. Quem você acha que saberia me ajudar a definir alguns critérios importantes para essa premiação?

Anton senta-se conformado em sua cadeira. Sabe que não controla a mãe quando ela resolve fazer algo. E, de repente, ele tem a brilhante ideia:

— Fale com Antonella, mãe, a moça linda que estava aqui… que você gostou. Ela tem um ótimo desempenho e ótima noção de distribuição de trabalho. Ela pode te ajudar.

— Ah, filhote! Boa ideia. Gosto de gente bonita e inteligente. Amanhã vou procurá-la.

— Aliás! — continua Adele. — Deixe sempre essas cortinas abertas. Tem muito mais vida no seu escritório agora com essa maravilhosa luminosidade de fora. Aquela penumbra usual é muito feia. — Eca!

E, com essa exclamação ostentosa, Adele vira-se, sai da sala e deixa Anton sozinho, sem ter, na verdade, resolvido nada.

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Logo vamos dispor o próximo capítulo, nesse portal de emoções que está sempre aberto e pronto para “plot twists”, (viradas) e para novas aventuras e acontecimentos.

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