A Vida Emprestada – Annia &Vito

PRÓLOGO

Fugir de um amor e encontrar outro? É possível isso?

Não era intenção de Annia. Ela queria esquecer, reconstruir o que havia sido destruído e reformular seus objetivos de vida que tinham sido estabelecidos durante aquele relacionamento que se mostrou danoso.

Na sua fuga, encontra Vito, um homem sério, contido e fechado em seus sentimentos. Encontra também o comandante Sieg, que dá o ar bem-humorado para a trama.

Veja como é a nossa história.

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A HISTÓRIA

O mar tem uma virtude rara: ele não faz perguntas.

Ele apenas se abre, infinito, azul ou prateado conforme o humor do céu, e recebe quem chega como se dissesse:

— “Venha! Pense, ou simplesmente respire, sinta, viva!”

Foi exatamente isso que Annia buscou quando embarcou naquele cruzeiro.

Um pouco de silêncio. O caos que a envolvia em terra tinha acabado com quase todas as suas forças. Seus desejos e sonhos. Precisava buscar um pouco de compreensão, um pouco de esquecimento.

Um pouco de esquecimento!

E talvez, se o universo estivesse particularmente generoso, um novo começo, sem os estragos do passado, sem as dores que ficaram.

Durante anos ela seguiu um roteiro que parecia muito convincente na teoria: carreira organizada, relacionamentos adequados, escolhas sensatas. Tudo muito correto. Muito plausível. Muito… esperado.

Agora, olhando o horizonte que parecia nunca terminar, ela se perguntava:

Será que aqueles sonhos eram realmente dela? Por que não conseguia se desvencilhar de verdades impostas?

O que ela chamara até então de “seus sonhos” não eram, por acaso, aqueles que ela se vira constrangida a aceitar?

Aqueles não eram sonhos bem apresentados por outras pessoas? Ela queria descobrir e por isso entrou de cabeça num navio. Num ambiente diferente, nunca antes frequentado.

Essas dúvidas tinham embarcado com ela.

E, pelo visto, ocupavam uma cabine confortável. A de seu coração e de suas emoções.

Desde que o navio partira, o sono de Annia tornara-se um visitante breve. Ela dormia rápido, como quem desmaia de cansaço, e acordava poucas horas depois com a mente cheia de perguntas novas — cada uma mais filosófica que a anterior.

Era curioso. Ela tinha ido procurar sossego. Encontrou silêncio, mas também encontrou a própria consciência fazendo assembleias noturnas.

Apesar disso, havia algo delicioso naquela nova vida.

Graças à indicação de um conhecido, Annia havia conseguido um cargo no navio que parecia ter sido inventado especialmente para ela: “chefe do departamento de lazer e entretenimento”.

Em outras palavras: ela organizava a diversão de todos.

Festas temáticas.

Noites culturais.

Eventos inspirados nos países costeiros que o navio cruzava.

E, quando estavam em alto-mar, inventava programas capazes de convencer centenas de pessoas a dançar, beber e rir enquanto o oceano respirava em volta.

Era um trabalho intenso, era também maravilhosamente vivo.

Do alto da ponte de comando, alguém observava tudo isso com interesse.

O comandante Sieg a via com bons olhos desde que a vira pela primeira vez.

Naquela tarde, Vito estava desfrutando um raro momento de descanso em sua cabine ou, pelo menos, tentando.

Ele estava sentado, olhando pela escotilha, quando alguém bateu à porta.

Três batidas educadas. Vito suspirou.

— Quem será agora…?

Levantou-se com a resignação de quem sabe que a tranquilidade raramente dura muito num navio cheio de gente.

Abriu a porta e esqueceu completamente qualquer reclamação. O que ele menos esperava.

Uma linda mulher estava ali. Sorridente, com um jeito afável.

Alta, olhos curiosos, sorriso fácil e uma expressão que misturava simpatia e travessura. Ela percorre rapidamente a face de Vito e, em seguida, espia ligeiramente o interior da cabine.

Ela segurava uma caixa embrulhada.

— Você é Vito? — perguntou.

Ele demorou um segundo para responder. Estava ainda surpreso por aquela presença, que, embora já estivessem há alguns dias no mar, ainda não a tinha visto.

— Sou… sim. E você?

— Annia. Vim a pedido do seu pai.

Isso explicou muita coisa. Ele tentava se livrar do pai e o pai estava sempre o querendo por perto.

Talvez aquilo fosse mais complicado… sua relação com o pai era um jogo complicado. Não havia ganhadores ainda… nem perdedores. Havia empate, por enquanto.

Enquanto Vito, ainda sem entender nada e ainda com a boca aberta, tentava compreender o que o pai fazia mandando aquela moça, ela volta a falar.

— Ele poderia ter mandado qualquer funcionário — continuou ela com naturalidade —, mas eu gosto muito dele e estava livre, então resolvi trazer pessoalmente.

Vito ainda processava aquela avalanche de espontaneidade quando ela completou:

— Posso entrar?

— Claro. — ele responde — dando conta da distração que ela provocou.

Ele apontou para uma poltrona.

Ela sentou-se como quem chega à casa de um velho amigo.

— Seu pai pediu que eu esperasse você abrir — disse ela, entregando a caixa.

— Isso já está me preocupando.

— Pois é! Não entendi também, mas…

Vito rasgou o papel. Abriu a tampa.

E imediatamente foi atacado por um “palhacinho sanfonado” que saltou da caixa acompanhado por uma explosão de confetes e brilhos coloridos.

O susto foi tão grande que ele deu um passo para trás. Perdeu o equilíbrio e caiu sentado na poltrona ao lado dela. Ficou imóvel por alguns instantes.

Annia congelou por um segundo. Coração acelerado.

Depois começou a rir.

E não conseguiu parar. Confetes estavam espalhados pela cabine.

O palhacinho balançava alegremente no colo de Vito que ainda não tinha conseguido recuperar-se.

Vito permanecia parado, olhando para tudo aquilo com a dignidade ofendida de um homem que percebeu que havia sido vítima do próprio pai.

Annia tentou se recompor. Falhou completamente.

— Desculpa — disse entre risadas.

— Ele sempre faz isso — respondeu Vito, sério.

— Faz o quê?

— Essas… demonstrações de maturidade.

Annia voltou a rir.

— Pelo menos ele tem bom humor.

— Ele acha que estou deprimido.

— Deprimido? Você parece mais… mal-humorado.

Ela percebeu tarde demais que talvez aquela observação não fosse diplomática.

Mas Vito apenas suspirou.

— Ele acredita que, por ser meu pai, também é meu psiquiatra.

Annia decidiu que era melhor não participar daquela discussão familiar.

Levantou-se.

— Então… devo levar alguma resposta?

— Não. Vou falar com ele depois.

Ele hesitou um instante. E sorriu.

— Mas acho que o objetivo da missão era outro.

— Qual?

— Que eu conhecesse você.

Annia sorriu.

— Missão cumprida, então — diz ela, ainda não conseguindo evitar o riso.

Ela se levanta e sai da cabine. Sorri uma última vez antes de ela mesma fechar a porta.

Sem perceber que, ao fechar a porta, havia deixado alguém pensando nela.

Muito mais do que pretendia.

No final da tarde, o mar estava calmo como um lago.

Annia entrou na ponte de observação carregando um bloco de anotações. Buscava Sieg para definir as mesas do jantar.

— Olá, queria saber da definição das mesas para o jantar. Alguns passageiros pedem a sua companhia. É algo antigo, mas ainda funciona assim. Alguma tradição — diz Annia de atropelo.

Vito olha por cima de um mapa náutico quando percebeu a presença dela. Annia o vê.

— Oops! Pensei que falava com o comandante Sieg. Está no comando agora?

— Veio fiscalizar o entretenimento do oceano? — diz Vito, olhando agora diretamente para ela.

— Na verdade, estou atendendo reivindicações de passageiros que querem o status de jantarem com o comandante para se exibirem com seus amigos depois.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Será que minha companhia serve? — pergunta ele.

— Acredito que sim, a maior reivindicação vem das moças, então acho que vão gostar da troca.

— Não! Não me ponha perto delas. Fale com o meu pai.

Annia ri, divertida.

— Ok, onde ele está?

— Acho que foi para a casa de máquinas. Havia um problema lá…

— Sério? Deve ser complicado. — comenta Annia.

— Você organiza festas para quatrocentas pessoas e acha que conduzir um navio é complicado?

— Festas não afundam. — ela comenta, ainda rindo.

— Sei não. Aí já depende da música.

Ela riu. Vito fez um gesto para que ela se aproximasse.

Annia encostou ao lado dele diante da grande janela da ponte. O oceano estava dourado pelo pôr do sol.

— Está vendo aquela linha no horizonte? — disse ele.

Ela inclinou o corpo um pouco mais para frente. Vito aproximou-se atrás dela para apontar no mapa. A respiração dele, fez esvoaçar alguns fios de cabelo dela.

O braço dele passou ao lado do corpo dela para alcançar a régua de navegação. O perfume de Annia chegou até ele com uma delicadeza inesperada. Ela sentiu o calor dele atrás de si.

Nenhum dos dois comentou.

— Então — disse ela, com voz calma demais para ser totalmente natural — se o navio virar para aquele lado…

— Vamos para a Itália.

— E se virar para o outro?

— Caribe.

Ela virou o rosto para olhar para ele.

— Difícil escolher.

Vito sorriu.

— Navegar sempre envolve escolhas perigosas.

De repente, ela se dá conta de que não marcou os assentos para o jantar, mas não quis sair dali. Ficou. O jantar que se organizasse sozinho.

O navio prossegue no mar que permite tudo. Almas viajando, curtindo, amando ou se amargurando.

Enquanto cai a tarde, o céu começa a mostrar seu lado negro, mas logo a lua, participando da abóbada celeste, começa a mandar sua tênue luz que atinge as águas, refletindo uma luz branca.

O céu escurece cada vez mais e cada vez mais a luz da lua se destaca, ficando evidente, como um caminho a ser trilhado. Convidativo e perigoso.

O mar mudou de cor lentamente, como se alguém estivesse trocando o filtro de uma fotografia gigante.

Depois do jantar, o maior espetáculo oferecido é na amurada, quando a luz da lua começa a imperar.

Annia apoiou os braços na amurada. Ao longe, a lua cada vez mais intensa e em destaque.

Seu reflexo no oceano formava aquele famoso caminho prateado que sempre parece convidar alguém a caminhar sobre ele.

Ela pensou na própria vida. Na fuga.

Sim. Fuga era uma palavra justa.

Meses antes, tudo tinha saído do controle.

Um relacionamento. Uma decisão errada. Culpa demais para um único coração. Ela tinha embarcado no primeiro navio que encontrou.

Aceitou o primeiro trabalho disponível. E partiu.

Talvez estivesse fugindo de alguém.

Talvez estivesse correndo de si mesma.

Estava tão envolvida em seus pensamentos que não percebe passos atrás de si.

— Também tem vontade de andar por esse caminho? — comenta Vito.

A voz atrás dela interrompeu seus pensamentos.

Ela se virou. Era ele. Agora vestido com uniforme.

E havia algo injustamente atraente em um homem alto usando uniforme naval.

O corte do tecido realçava os ombros largos. O quepe dava ao rosto dele uma autoridade elegante.

Annia percebeu — com um certo aborrecimento interno — que ele estava ainda mais interessante do que antes.

Ele se aproximou devagar.

O vento mexia levemente no cabelo dela.

— Bonito, não é? — disse ele, olhando para o mar.

— Muito.

— Sempre pensei que a lua cria caminhos falsos. Vito comenta, apoiando-se na amurada, ao lado dela.

— Falsos?

— Ninguém pode realmente caminhar sobre eles.

Annia sorriu.

— Talvez o segredo seja caminhar em outra direção.

Ele olhou para ela. E, pela primeira vez naquele dia, Vito riu de verdade.

Os encontros entre eles tornaram-se cada vez mais frequentes. Um já conhecia parte da rotina do outro e, conscientes ou não, provocavam encontros todos os dias.

Dias calmos mantinham os dois lado a lado, dias agitados os uniam e os aproximavam. Uma pequena tempestade foi a mão da natureza para os juntar mais.

Nada demais, mas o suficiente para mantê-los próximos sem culpa quando um chacoalhão no deque joga Annia nos braços de Vito, promovendo um abraço, justificado pelo tempo.

Nenhum teria dado o primeiro passo; ambos foram jogados nos braços um do outro pela providência. O mar conspirava para unir os indecisos. Eles gostaram e demoraram para se separarem.

A partir de então, para não decepcionarem o mar, encontravam-se todo final de expediente para cumprirem o destino determinado pela natureza.

Era o suficiente para transformar o oceano em um espetáculo dramático.

Annia estava na ponte auxiliar verificando os preparativos de uma festa temática quando Vito apareceu.

— A festa vai sobreviver à tempestade?

— Ah! — Sim, vai ficar ainda melhor — respondeu ela.

— Como?

— Pessoas dançam mais quando o chão balança.

Ele riu.

O navio inclinou levemente.

Annia perdeu o equilíbrio por um segundo.

Vito a segurou nos braços, instintivamente.

O contato durou poucos segundos.

Mas foi suficiente para que ambos percebessem algo curioso:

A proximidade entre eles tinha uma eletricidade agradável.

Nada dramático.

Nada avassalador.

Mas extremamente interessante.

Ela se afastou um pouco.

— Obrigada.

— Disponha. Faz parte do serviço de bordo.

Ela ri gostosamente, mas pergunta:

— Faz parte do serviço de bordo segurar mulheres durante tempestades?

— Sim, especialidade marítima.

Eles riram.

E, pela primeira vez desde que embarcara, Annia percebeu algo surpreendente:

Ela estava se sentindo leve, estava se divertindo.

A última noite do cruzeiro chegou.

Annia organizara a maior festa da viagem.

Luzes.

Música.

Dança.

O mar completamente calmo.

O comandante Sieg observava tudo satisfeito.

Vito aproximou-se de Annia no convés.

— Missão concluída — disse ele.

— Qual missão?

— Tirar você da fuga.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Eu estava fugindo?

— Estava.

— E agora?

Ele deu de ombros.

— Agora você está vivendo.

Ela olhou o oceano.

Depois olhou para ele.

— E você?

— Eu só estava mal-humorado.

— Diagnóstico errado do comandante?

— Completamente.

Ela riu.

A música começou.

Vito estendeu a mão.

— Dança comigo?

— Sim. — diz Annia, deixando-se envolver pelos braços de Vito.

Enquanto giravam lentamente sob a lua, o mar respirava ao redor do navio. E o comandante Sieg, observando de longe, murmurou satisfeito:

— Funciona sempre.

Ao lado dele, um marinheiro perguntou:

— O quê, comandante?

Ele sorriu.

— Caixas com palhaços.

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