O Contrato

PRÓLOGO

Essa é uma história de Anne, com Arturo e umas pitadas de Selena, a secretária. O que aconteceu com Anne?
Que lembranças ela carrega tão fundo que até o amor mais sincero parece uma ameaça? Desde então, ela se protege como quem foge de um incêndio que só existe dentro da própria cabeça.
É trauma real ou só o medo disfarçado de prudência?Ninguém sabe ao certo o quê — só que, desde então, ela evita o amor como quem foge de ligação de telemarketing. Não prometo respostas, mas te convido a caminhar comigo por entre as ruínas. VAMOS LÁ! Vamos tentar entender o que restou depois do silêncio. Quem sabe encontremos algo que ainda pulsa!

A HISTÓRIA

O burburinho que começa no shopping num sábado de manhã, passa despercebido para Arturo. Sua consciência, sua concentração, suas emoções estão totalmente tomadas pelo movimento impulsivo feito por Anne na noite anterior. Ela se foi de repente.

O ambiente do shopping começa a se animar. As pessoas começam a circular pelas lojas ainda recém abertas, com os vendedores ainda adormecidos pela chuva que molha tudo e todos.

O movimento parece o reviver de um mundo totalmente tomado pela ausência de vida e, de repente, invadido pela explosão de vida, pela presença de muitos.

Um monte de sons, todos concentrados num mesmo lugar. Seu carro no estacionamento, muitas lojas à disposição. Variedade de produtos.

Liberdade! Distrações, compras, mesmo que não haja dinheiro, há o cartão de crédito, ou simplesmente o passeio por um mundo colorido cheio de promessas e truques. Refeição diferente e outros mimos mais atraem as pessoas para aquele ambiente.

Ainda alheio a tudo o que se passa à sua volta, Arturo senta-se na área de alimentação, esperando ansioso por ela.

Ela poderia ter conversado quando ainda estavam juntos, mas não. Ela saiu apressada, sem avisar, quase fugindo depois daquela noite, deixando-o apreensivo.

Ela insistiu em encontrar-se com ele em um ambiente “neutro”, conforme dito ao telefone. Ele não entendeu a razão disso, especialmente depois do que tiveram juntos. Por que a sua casa, a casa em que estiveram não era um ambiente neutro?

Só resta a ele esperar que ela chegue e, ao conversarem, que ele comece a entender algo.

Na mesa em que a espera, Arturo tenta imaginar respostas a essas dúvidas e, ficando o mais afastado possível da maioria, sente-se mais confortável. A área de alimentação ainda está vazia. Há poucas pessoas circulando por lá.

Sua ansiedade já o desespera e, a cada minuto, seus pensamentos pessimistas tomam conta, cada vez mais impiedosos, em sua cabeça.

Talvez ele esteja exagerando, talvez ela só queira uns momentos em lugar diferente daquele em que se conheceram, se atraíram, se amaram…

Aqueles momentos que ele eternizaria com prazer, lhe causam agora preocupação. Remói a memória procurando algo que possa ter provocado a fuga inesperada dela. Não encontra.

Seus olhos ansiosos percorrem o tempo todo as entradas da área de alimentação, imaginando a imagem de Anne no dia anterior, na noite anterior.

Suspira fundo e aliviado ao vê-la.

A vê caminhando em sua direção e abre um gostoso sorriso permitindo a luz do domo sobre sua cabeça, por onde o sol passa, expor sua barba escura com fios castanhos e vermelhos. Levanta-se para recebê-la.

Linda, elegante, lindo rosto, lindas pernas ela caminha até ele.

Ele está realmente apaixonado. A olha longamente, enquanto ela caminha em direção à ele. Cada detalhe das ações dela ele sorve deliciado e, sem dúvida, começa a se sentir um bobo, mas um bobo feliz.

Sabe que esteve lá, naquele corpo, na noite passada. Talvez por isso ele se sinta já bastante ansioso.

Ela, no entanto, se mantém séria. Somente ao se aproximar é que ela se permite um leve movimentar da boca, simulando um sorriso meio forçado.

Ela se senta na cadeira à sua frente, e o aroma dela o alcança.

Ele sorve aquilo, disparando as lembranças já vividas. Vê-se envolvido em mundos sonhados e com grande ansiedade para mantê-lo se repetindo de novo e de novo…

Parece, no entanto, que ela não veio para continuar com aquilo. Ele tem a sensação de que ela veio para acabar com tudo.

E, sem dúvida, ele tem razão.

— Já pedi minha demissão. O que o senhor quer de mim ainda?

— Justamente isso. Pedir que não se demita. Pedir desculpas.

Ela sorri, embaraçada.

— Veja! Não vou ser hipócrita. Sei muito bem o que aconteceu e sei que eu também permiti que acontecesse. Se eu realmente tivesse me dedicado a evitar, eu poderia ter feito isso. — diz ela de modo enfático.

— Mas eu não devia ter feito o que fiz. — contesta Arturo, tentando assumir a sua responsabilidade.

— Sim, e eu não deveria ter consentido e até participado. — continua Anne, tentando ainda mais uma vez.

— Assim você me deixa sem argumentos. Por que então quer ir embora? — protesta Arturo, gesticulando sem entender.

— Talvez seja estranho para o senhor, mas vou tentar me explicar… já vivi isso antes. Já amei alguém antes. Gostei de estar junto, de ficar junto, de dormir junto e acabei, com o tempo, me frustrando muito.

— Mas porque você acha que tudo vai se repetir?

— Porque eu procuro sempre pessoas, homens, com as mesmas características. Me apaixono por eles. Eles fazem, a princípio, como sempre. Eu gosto e me envolvo cada vez mais. Mas chega um momento em que começo a me sentir sufocada. Quero ir embora. E geralmente esse pedaço é muito difícil.

— Então você está dizendo que sou igual a outros relacionamentos que você já teve?

— Não diria igual, mas muito parecido… arrogante, mandão, dono da verdade,… devo continuar?

Arturo não responde. Não pensava que poderia, um dia, ouvir tal observação de uma funcionária sua.

O silêncio dele dá a ela a confirmação do que já pensava.

— Foi o que pensei, senhor. Não quero mais isso na minha vida.

— Bem, acho que posso ter te ofendido, mas não acho que seja somente por isso que está indo embora. — diz ele, tentando entender.

— É, o senhor está certo. Não foi pela arrogância, grosseria… foi pelo fato de eu, mais uma vez na minha vida, sucumbir ao seu tipo de personalidade. Sei que a responsabilidade é toda minha. Eu aceitei o que você estava me propondo porque, no fundo, eu também queria. E, devo confessar. Gostei, amei. E, independente do que foi ofensivo em sua fala, o que aconteceu entre nós superou tudo.

— Então, eu não te entendo. Por que ir embora?

— Já disse. Por experiências anteriores, o tempo destrói tudo. Eu passo a me odiar… e a odiar você.

— Mas como você pode dizer que será igual?

— Só posso supor, mas todas as vezes que supus isso, aconteceu! Todas as vezes, abandonei projetos de minha carreira, mudei o rumo da minha vida, fiz escolhas não muito boas para fugir daquela situação. Não quero que aconteça tudo de novo.

— Mas por que nosso relacionamento implica em você necessariamente abandonar seus objetivos, sua carreira? Você muda sim o rumo da sua vida, mas eu também mudaria. Não te entendo. O que você quer? Que, mesmo a dois, somente um se movimente para se adaptar? Não penso assim.

Anne olha para ele admirada e respira fundo.

— Então, você aceitaria que eu continue com minha carreira, com meus objetivos?

— Sim, por que não? — Você não aceitaria que eu continue com minha carreira e meus objetivos?

— Sim, claro! — responde ela, já bastante confusa.

— Então, o que realmente a impede de ficar comigo? Não está me contando tudo!

Anne já não age mais com tanta segurança como no início. Não contava com essa colocação de Arturo. Já percebeu que, afinal, não é dona da verdade e suas certezas precisam ser revistas.

Ela se levanta, como quem não quer perder uma oportunidade nem ceder a uma contradição. Não costuma aceitar perder com tanta facilidade e, nesse caso, percebe que já perdeu. Toma a única atitude que pensa que poderá preservar sua posição.

Levanta-se!

— Não quero mais discutir, não quero mais argumentar, chega. — diz Anne, exaltada, agitada.

Arturo não sabe mais o que pensar, como argumentar. Tudo o que ele tinha em mente cai por terra. Toda responsabilidade do ocorrido, ela assume.

Tudo o que ele achava que poderia argumentar de mudança, não está mais em suas mãos. Ela controla. Ela se responsabiliza.

Ele respira fundo, enquanto ela começa a argumentar novamente em defesa própria.

— Não posso ficar sozinha com você. Eu não vou resistir a você. Vou sucumbir. E aí tudo vai começar… de novo.

Anne é muito estranha. O que uma mulher nunca confessaria, ela o faz sem cerimônia. Ela fala com todas as letras o que acha que acontece com ela.

Ao mesmo tempo, parece que as últimas palavras de Arturo a desconcertaram, movimentaram emoções escondidas, não reveladas.

— Você é muito teimosa. Mesmo diante de um argumento válido, você inventa e não arreda pé de sua posição. Já pensou que pode ser por isso que não dá continuidade a nenhum relacionamento? Nem ao nosso?

Arturo recusa-se a entender e aceitar que aquilo possa ser um fator negativo na vida dele, ou na vida dela.

Ele tem que pensar rápido. Ela já se levanta para ir embora, pois parece que, pela falta de argumento, a solução que ela tem é a fuga.

Ele a detém. Ainda precisa pensar e não quer desistir.

— Espere! Já que está resolvida, vamos conversar mais um pouco.

— Não, não posso ficar. Tenho outro compromisso. — ela dá um passo em direção à saída.

Arturo não deixa que ela continue.

— Amanhã é domingo, então você não vai para o escritório, nem para cumprir o aviso prévio. Fique mais um pouco, por favor. Ainda tenho o que falar.

— Está bem! — concorda Anne, sentindo-se afinal derrotada com suas desculpas mal formuladas.

Nem todo o esforço que ela faz para não sucumbir ao pedido dele resolve.

Parece que o corpo dela está no comando, não a mente.

Mesmo a contragosto, mas nem tanto, ela se senta de novo.

— Vou lhe fazer uma proposta, que me ocorreu agora. – diz ele. — Ainda podemos modificar, mas nesse tempo do aviso prévio, você pode pensar a respeito.

— Ok, de que se trata? — ela pergunta, sentindo-se aliviada por parecer que Arturo muda o foco da conversa.

— Vou propor: você continua trabalhando para mim. Eu me comprometo contigo a sair antes de você chegar e só voltar depois que você sair do seu trabalho. Ou, eu posso me estabelecer no escritório do andar superior, assim ficamos separados sem problema. Qualquer comunicação necessária fazemos por e-mail ou pela secretária da entrada.

— Ora, mas esse era o contrato inicial que começou a ser modificado. E não foi cumprido à risca. Nem por você,… nem por mim.

— Ok, mas minha proposta é que ele seja cumprido. Assim você continua e não mais nos envolvemos. O que acha?

Anne hesita, não consegue mais argumentar sobre isso. E, ainda mais com aquele homem na sua frente, toda a lembrança da noite vivida, que embora tenha sido seu melhor argumento para a desistência do trabalho, ela consente.

— Bem, vou pensar. Teremos esse tempo pela frente para nos testar. Para saber se cumprimos o combinado. Caso não dê certo, o final do prazo será o último.

— Ok, a começar de segunda-feira então, pode ser?

— Vou pensar. Te dou resposta no término do contrato, então.

Anne se levanta e sai praticamente correndo. Parece que tem medo de sucumbir a qualquer sugestão que ele dê. E, de fato. Nesse momento, qualquer sugestão que Arturo desse, ela aceitaria. Então, ela corre o mais que pode para nem sequer ouvir a voz dele, mas ouve…

— Não vá, Anne, fica comigo…

Ela para, no meio do caminho, ainda a tempo de voltar, mas retoma o passo, não sem antes olhar novamente para trás. Ao vê-lo novamente, seu coração aperta.

Ela sabe que não vai resistir, mas concordou e vai então cumprir o combinado.

O final do sábado é difícil, o domingo pior ainda. As lembranças daquela noite com Arturo não a abandonam e agora, a conversa que tiveram também começa a martelar na sua cabeça e no seu coração.

Por que ela nunca tentou pensar, ou nunca admitiu pensar que aquele argumento não valia de nada?

Qual a razão de sempre buscar um defeito na relação e acabar com tudo, mesmo antes de tentar algo mais, tentar uma mudança, uma adaptação? Nunca pensou que essa mudança, essa adaptação, podia ser algo bom, algo que trouxesse benefício para ambos?

Arturo tem tido muita significação e importância em sua vida, e pela primeira vez, resolve investir em entender o que exatamente ele quis dizer. Só que ela sabe que não basta entender, tem que aprender a sentir.

Agora, o domingo demora séculos para terminar. Vinte e quatro horas, vinte e quatro séculos. Desde que ela decidiu tentar mudar, o tempo parou. Como ditam sábios pensamentos: o tempo é algoz dos ansiosos, e isso entre aspas.

E agora nada a distrai, nada faz com que o tempo passe mais rápido e a vontade de encontrá-lo novamente a desconcerta, a agita, a aborrece. Não consegue acalmar suas emoções.

Pega o celular várias vezes, pensando em conversar com ele, mas ainda é muito orgulhosa para se permitir concordar e, ao mesmo tempo, também não entende a razão dessa resistência.

Precisa de uma análise completa desse novo modo que Arturo lhe propôs quando sugeriu que ambos poderiam continuar com seus objetivos, sonhos e carreiras, e ainda assim manterem um relacionamento.

Qual foi o trauma da sua vida em que ela cancelou essa possibilidade e usou isso como desculpa para um rompimento? Não! Ela não sabe!

Não pode esquecer que o combinado foi não se encontrarem. Ela já tem dúvidas se vai conseguir.

A segurança que a levou a desistir de relacionamentos anteriores não a ampara mais. É diferente desta vez.

Arturo também luta contra sua natureza. Tranquiliza-se um pouco ao pensar que, pelo menos conseguiu que ela voltasse para o escritório. Isso daria tempo para ele pensar numa alternativa. Não queria perdê-la. Se ao menos soubesse pelo que ela estava passando, talvez conseguisse dormir melhor.

Mas não! Ambos estavam teimosamente se mantendo na sua teimosia e no seu orgulho.

Mas o tempo conserta muitos dos nossos erros e a falta do outro nos ensina paciência, perseverança e humildade. Nada que um dia de sofrimento não nos ponha a questionar nosso orgulho e soberba.

Finalmente, segunda-feira chega. Mais cedo do que de costume ela levanta. Olha-se diante do espelho mais tempo do que de costume. Distribui o guarda-roupa sobre a cama e demora a escolher algo que lhe agrade…

De repente, ela percebe… tudo o que ela disse a ele no sábado no shopping foi inútil. Estava de novo se preparando para vê-lo, mas também se lembra do combinado. Chegar depois dele ou, no mínimo, não subir na sala dele.

­— Ah! Preciso me arrumar de qualquer forma. Enfim, nunca fui desarrumada para o trabalho. — é o pensamento dela, enquanto escolhe cuidadosamente os sapatos para vestir.

Olha-se no espelho. Fica relativamente satisfeita com o que vê.

— O que estou fazendo? Estou esperando que ocasionalmente ele me veja ou venha me procurar? E se ele fizer isso? Eu disse que não poderia encontrá-lo mais, mas antes mesmo disso, já estou ansiosa!

Ela está começando a descobrir que seu coração está no comando. Sua mente não controla e ela segue o coração. Ela o ama de verdade. Ainda acha que vai se machucar, ainda acha que não deve, mas descobre que aquele sentimento que nunca quis admitir, agora toma conta dela.

E, em seguida, começa o boicote.

— E se ele não me quiser mais? Afinal, no sábado eu estava tão certa da minha vontade… hoje nem sei mais quem sou eu… sou Anne ou mudei de personalidade sem ao menos ter percebido?

E ela segue assim, criando confusões e mais confusões de pensamento, quando se vê na sua sala. Nem percebeu o caminho percorrido.

Olha em volta e percebe que Arturo já providenciou a mudança de sala. Ficava antes em frente da dela, onde tudo começou.

Ele a olhava pelo vidro, assim como ela também o fazia. E assim, sorrindo um para o outro, começaram a se encontrar depois do trabalho e naquela semana anterior finalmente ficaram juntos.

As sensações e emoções daquele dia voltaram a tomar conta dela. Seu trabalho não colabora, pois a cada segmento há uma imagem de Arturo ligada a ela. Ali mesmo.

Não parece que tenha havido alguma valia em ele ter mudado para o andar de cima. A presença dele está impregnada nas paredes, nas cores, nos aromas e lembranças dela junto com os momentos que viveram.

No meio do dia, Selena, secretária de Arturo, passa em frente a ela e entra na sala que era dele.

Anne se levanta, lentamente, e vai em direção a ela.

— Selena, o que está acontecendo?

— Ah! Olá, Anne. O Sr. Arturo não conseguiu levar tudo logo de manhã e está precisando agora das pastas que deixou aqui. Ele achou que só precisaria amanhã, mas o cliente dele chegou de repente e foi necessário que eu viesse buscar.

— Mas, por que ele mesmo não veio?

Selena ri, não acreditando nela.

— Qual foi sua condição, Anne?

Envergonhada, Anne concorda. Como pode ser tão falsa, com ela mesma? Estava ansiosa por ver Arturo, esperava que ele quebrasse o combinado e agora que ele não o faz, finge decepção?

— Está certo, Selena. Acho que preciso revisar um monte de coisas da minha vida. Não sei se consigo, mas vou tentar.

Embora Selena não entenda tudo o que se passa, fica quieta, pega a pasta e parte para o andar superior. Anne a segue com os olhos, morrendo de vontade de subir junto e terminar com aquele sofrimento autoimposto. Mas não, não o faz.

Arturo, por sua vez, está determinado a cumprir sua parte do combinado. Deseja demais que Anne desista de ir embora. Seu coração aperta cada vez que a imagina indo.

Toda noite, suporta sua ausência lembrando-se das vezes que ficaram juntos, se abraçaram, riram juntos, ou ficaram em silêncio lado a lado, se envolveram, permitiram que os sentidos os comandassem.

Por várias noites, essas lembranças conseguiram mantê-lo dentro do combinado com Anne, mas estava ficando cada vez mais difícil. Queria vê-la, tocá-la e envolvê-la como o fez antes, mas ao vivo… de fato.

De vez em quando, mandava Selena no andar de baixo buscar alguma informação. Selena fazia isso por ele, com a desculpa de algo esquecido, mas começava a achar os dois muito infantis para tal combinado, sabendo da idade que tinham.

— Coisas de crianças, adolescentes! — pensava ela e brigava consigo para não falar isso publicamente. Mas, na maioria das vezes, conseguiu manter-se quieta.

O coração de Anne também a atropelava na hora de ir embora. Sonhava em encontrá-lo no elevador e, por pelo menos uns trinta segundos enquanto desciam os trinta andares, vê-lo, sentir seu calor e seu perfume, admirar aquele corpo escultural que já tinha presenciado ao vivo e sentir a intensidade daqueles olhos castanhos que, quando a olhavam, ardiam de desejo.

Os dois se envolveram nesse jogo de orgulho por uma semana inteira e começaram a se estressar quando perceberam a tolice que estavam fazendo.

De onde tiraram tais restrições, tais verdades, tais absurdos? Duas almas amantes, se colocando num vazio da existência de propósito? Eles nem conseguiam mais se lembrar do que os levou a isso tudo.

Somente Selena apostava consigo mesma quanto tempo aquilo ia durar. Quando os dois se dariam conta daquela infantilidade que só os prejudicava. Só os alienava dos sentimentos, emoções, paixões.

A primeira semana separados foi horrível.

O fim de semana iria ser pior ainda. Eles sabiam! Não tinham nem Selena para amenizar um pouquinho suas dores. A Selena de cupido funcionou lindamente durante a semana, no entanto, no final de semana, os dois teimosos sentiram o peso das suas decisões equivocadas.

Anne, então, que havia iniciado essa sanha de separação, resolve que tem que terminar. De uma forma ou de outra, ela tem que dar um fim naquilo.

Ainda não sabe o que fazer, mas tem que fazer algo.

Se ela encontrar Arturo e ele já tiver desistido dela, o que fará? Bem, vai ter que assumir a consequência de sua própria bobeira. Que atitude foi aquela de querer se separar dele depois de um envolvimento tão louco, tão delicioso, tão, tão…

Não sabe mais o que fazer ou, ao contrário, sabe: engolir o orgulho, que agora se mostra inútil, se mostra ineficiente, equivocado e sem razão de ser, e ir ao encontro de Arturo.

É sábado de novo. Ela se apronta, escolhe sua melhor roupa, seu melhor perfume e, cheia de coragem adquirida pela falta imensa que sente dele, vai ao seu encontro.

Durante o percurso, pensa nas inúmeras possibilidades. Ele pode estar sozinho, ou com amigos, ou com… com… amigas? Oh! Não, isso não!

Bem, se isso acontecer, é o preço que vai pagar pela besteira que fez.

Ela chega na casa dele, entra na guarita e é atendida pelo segurança. Ela pede para ele não avisar Arturo, ela quer fazer uma surpresa…

Quando percebe o segurança hesitante, o medo de ele estar com alguém toma conta dela, mas assim mesmo, resolve entrar e enfrentar o que vier pela frente.

Afinal, foi ela mesma que provocou toda a confusão.

Ela entra na garagem, estaciona o carro e desce… caminha devagar e fica cada vez mais ansiosa para ver Arturo, onde ele está, o que está fazendo….

A sala está como antes, o silêncio domina o ambiente. Ela sobe as escadas e vai em direção ao quarto dele.

Abre a porta sem bater e lá está ele. Deitado na cama, abraçado na almofada na qual ela dormiu na última vez que estiveram juntos, antes do fatídico sábado.

O barulho da porta se abrindo chama a atenção dele. Ele se vira e se põe em pé ao vê-la.

Agora, ela tem certeza da tolice que fez ao querer se separar dele. Aquele homem alto, com corpo escultural e com um aroma delicioso, que a abraçou antes, que se juntou à ela, está lá ainda e de novo!

Nenhuma palavra acontece entre os dois. Não é necessário. Somente a aproximação de ambos é o suficiente para seus corações baterem acelerados no mesmo ritmo.

— Não consegui cumprir nosso acordo. — diz ela, sussurrando perto do ouvido dele, já envolvida pelos seus braços.

— Ainda bem. Eu já não estava mais conseguindo ficar sem você, ia procurá-la. — diz ele, com uma das mãos enterradas nos cabelos dela e arrastando-a pela cintura para mais perto dele, com a outra.

Nem mais uma palavra era necessária para aquele momento. O encontro dos corpos, as carícias trocadas, os sons dos beijos e as confissões de amor pronunciadas foram o início de uma nova jornada, iniciada pelos dois naquele momento.

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