O Cúmulo Do Engano
PRÓLOGO
O que acha de ser pega numa armadilha mentirosa, insidiosa e capaz de despedaçar seu coração?
Ela foi vítima dessa campanha de difamação.
Fique conosco até o fim e ouça como ela se saiu numa situação dessa, depois me diga o que achou.
A HISTÓRIA:
Depois que ele contou a ela, Mia, sua irmã, a traição do seu grande amor, aquele que ele achou que seria para sempre, ela reserva uma mesa no Pericos… o restaurante mexicano, que eles gostavam muito.
Mia poderia imaginar tudo, mas não contava com o que de fato aconteceu naquele lugar. Fato que virou de cabeça para baixo tudo o que Anton viveu até então. Tudo o que está solidamente fincado sobre certezas, razões firmes e exatas para decisões tomadas, vão por água abaixo. Tudo, exatamente tudo, precisaria ser revisto a partir daquele fatídico jantar.
Anton ficou tão abalado com aquele rompimento que, apesar de seu belo porte, sua altura acima da média, seus ombros largos e seu rosto bonito, sua postura é desanimadora. Mia chama a atenção dele o tempo todo.
Sua decepção com Virna foi demais. Era nela que ele depositava toda a confiança. O romance que viviam era especial. Todos os planos dele eram traçados com ela junto, até aquele dia.
E, com esse peso ainda presente em sua vida, em suas lembranças, Anton e Mia entram no restaurante.
Aquele restaurante era frequentado pelas almas mais privilegiadas.
As mesas, vestidas com toalhas de linho, talheres de prata e pratos de porcelana, exalam bom gosto e é onde tomam refeição os mais abastados, ou os que mais buscam status.
Nossa história começa a ser contada aí.
Esse nem é o principal ponto desse nosso diário de romance. O principal ponto é o cúmulo da coincidência, o cúmulo do engano.
Explico melhor:
Embora haja muito espaço entre os comensais e as mesas, algumas falas exaltadas se sobressaem.
Alimentadas pelo teor impróprio do álcool, ou pela falta de compostura, tais falas ecoam e penetram nos ouvidos das mesas próximas.
Mesmo a música erudita, invadindo o espaço amplo do local, não abafa o som da mesa dos ébrios.
Um misto de ironia, misturada à autodepreciação, e intenção de diminuir o outro, como única alternativa de sobrevivência nesse mundo, começa a ser escutado pela mesa contígua, que, embora não muito próxima, não consegue evitar o sentido amargo e irônico do relato ao lado.
Da mesa de Anton e Mia, ouve-se o seguinte colóquio:
— Não, ela nem ao menos ficou comigo. Ela foi… embora.
— Mas, porque ela deveria ficar com você? — pergunta o outro amigo ébrio, a outra voz mole, ao lado.
— É! Ela devia, mas não… não ficou… afastei o outro, mas mesmo assim não consegui.
— Será que afastou mesmo o outro? Pode ter se enganado.
— Não! Ela foi embora, o deixou também.
— Como sabe? — continua o outro amigo ébrio.
— Só sei… ãh? Sei porque sei, oras… replica o bebum. — ele fala e apoia o queixo com as mãos, olhos quase fechando e titubeando com as palavras.
— É! — continua ele. — Dei uma vantagem enorme a ela no contrato do livro que ela iria publicar. Isso… isso, não se dá… como dono da editora eu ainda corria o risco de prejuízo, mas por ela… por ela…
— Não estou entendendo… conta melhor — insiste o amigo ébrio, olhando para ele e piscando mole.
Anton começa a identificar aquela voz, apesar de movida a álcool, soa familiar. Ele hesita em olhar para trás, uma vez que aquela voz vem claramente de trás. Anton ouve aquilo e empalidece.
Ele olha para Mia…
— Mia, essa voz…
Mia olha para a outra mesa rapidamente, inclina um pouco a cabeça. Estica as sobrancelhas assustada e chacoalha a cabeça com um sim.
— Sim, Anton, é ele. Não tinha nem ideia de que ele poderia estar aqui. Vamos embora.
— Não! Nesse momento, quero saber até onde ele foi e até onde ela foi também, me enganando.
Mas, o que Anton mal sabia, iria ser contado a seguir, e ele se arrependeria de sua precipitação, de sua desconfiança e ira incontida por Virna.
Ele viu, ele estava na tarde de autógrafos. Virna o convidou, ele se atrasou e foi por isso que conseguiu descobrir a verdadeira face dela, daquela que ele amou, daquela que ele quis ao lado dele o tempo todo e depois foi descoberta. São os pensamentos de Anton que o justificam para a explosão que teve com Virna.
Ainda precisa ouvir mais. Sabe que aquilo o machuca, mas ainda sente um certo prazer na dor. Sabe que não a deixou se explicar e, talvez por isso, ainda busque confirmação das suas certezas.
Ele reagiu de forma impetuosa, mas ela mereceu. Ele não precisava de confirmação, já tinha entendido tudo.
— Mas ela me deixou!! Foi embora. — é o que ele ouve ainda, do ébrio ao lado, aquele som se intrometendo em seus ouvidos.
— Vamos embora! — diz Mia, pegando sua mão e se levantando.
— Não! Quero ouvir tudo. Quero entender quanto tempo eles estavam juntos, quanto tempo ela me enganou! Quero a confirmação para meu sofrimento.
Anton fala e seu coração aperta, seu rosto se contorce e ele maldiz o dia que se apaixonou por Virna, o dia que entendeu que a amava, o dia que achou que finalmente tinha encontrado o amor de sua vida.
Mia senta-se de novo, conformada com o que a espera. Ela acha que sabe. Apoiou o irmão incondicionalmente quando ele contou a versão dele do ocorrido.
E a confabulação continua na mesa ao lado…
Antes disso, acontece uma risada amarga, quando o álcool já perdeu seu efeito para histeria, alegria incontida e começa o efeito para depreciação, a autocomiseração.
— Haha! Eu nunca levei um tapa tão forte na minha vida. — diz Oliver. — Apesar de pequena, acho que a raiva que ela ficou deu força sobrenatural a ela.
— Como assim? — pergunta o amigo ébrio.
— Eu a beijei. A agarrei pela cintura e a beijei, beijei com força e tive uma reação na mesma proporção.
— Como assim? Por que fez isso? — pergunta o amigo ébrio.
— Por duas razões: uma, porque achei que ela se sentiria agradecida por aquele contrato, praticamente vitalício, que eu oferecia, e duas, porque eu vi Anton entrando. Achei que ele faria exatamente o que fez. Acertei, palmas para mim — saúda-se Oliver com um sorriso amargo.
— Mas não adiantou nada. Ela não aceitou seu beijo e nem seu contrato.
— É! E ainda levei um tapa desonroso, na frente de todo mundo, exceto na frente dele, que, quando a viu agarrada por mim, virou-se imediatamente e foi embora.
— Ah! Sacanagem! Você fez de propósito.
— Sim, e depois a procurei. Ela não falou mais comigo, não assinou o contrato e não me responde mais. Não entendo muito disso, mas parece que ela me bloqueou no telefone. Não consigo resposta quando ligo.
— Mas ela foi embora daqui?
— Não sei, parece que sim. Havia outro editor interessado no trabalho dela, em um país vizinho. Desconfio que ela foi para lá, mas não tenho certeza.
— Parece que você ficou sóbrio de repente!
— É! Acho que sim, ainda sofro pela recusa dela ficar comigo, isso me tirou do modo ébrio.
Sem sombra de dúvida, Mia e Anton ouviram tudo o que foi falado. Anton fica perdido nas suas certezas. Perdeu Virna por burrice, orgulho demais, pretensão de saber tudo mesmo antes de dar chance a ela de se explicar e contar sua versão?
Por que ela o convidaria se pretendesse traí-lo? Por que ela não o procurou mais para explicar?
Que pergunta estúpida! Se ele fosse tratado por alguém como ele a tratou, achando que tinha descoberto uma traição, e não dando chance de explicação, é provável que ele agisse também como ela.
Ela havia ido embora, assustada, com o coração partido, sem dizer nada.
Anton se levanta, indo para a mesa ao lado. Mia corre ao lado dele para tentar evitar qualquer problema maior.
— Oliver, quão baixo você consegue ir? — pergunta Anton, já com as mãos nos colarinhos de Oliver.
O agora não tão ébrio, Oliver, olha para seu antagonista, a princípio assustado, em seguida debochado, quando vê quem é.
— Ah! Você está aí? O que quer, Sr. Anton? Veio saber mais da sua ex-namorada? Minha atual namorada?
— Você continua mentindo, como naquele dia, não é? Ela nunca foi sua namorada, isso só aconteceu em seus sonhos.
— É você que quer assim. Eu a encontro sempre! — diz Oliver com aquela voz mole.
— Oliver, não seja ridículo. Estou ouvindo sua história desde o começo.
— Ah, é? Só que eu sei onde ela está. — diz ele, ainda tentando se sobressair na pretensa disputa de poder com Anton.
— É? Me diga onde ela está, então.
— Acha mesmo que vou entregar meu ouro a você, Anton?
— Seu ouro? Não seja idiota! Não esqueça, ouvi toda a conversa. Você não tem ideia de para onde ela foi. — completa Anton, o empurrando sentado na cadeira, ainda pelos colarinhos.
Anton começa a sair do restaurante, mas ainda ouve de Oliver…
— Eu não sei onde ela está, mas você também não, otário!
É verdade, Anton também não sabe e não sabe também se o que ele fez terá conserto se a encontrar.
— Mia, preciso achá-la.
— Sim, Anton, no mínimo para se desculpar.
— Acha que ela não voltará para mim, Mia?
— Não sei, meu querido. Vamos torcer para que ela volte, mas não sei, não sei.
A primeira coisa que Anton faz é tentar ligar.
Ela não o bloqueou, mas também não o atende. Ele até imagina a cena. Ela, olhando para o telefone, ao ver que é ele, desliga.
Ele acha que merece, mas insiste, sem retorno.
Começa a deixar mensagens do tipo “preciso conversar contigo, me diga onde está”. Sem retorno. Ela não se comunica mais com ele, embora não o tenha bloqueado.
Virna chora cada vez que vê um recado de Anton, mas ainda está muito magoada e muito brava com o que ele fez. Decepcionada. A imagem dele foi destruída em cinco minutos, com aquela reação. Não vai mais acreditar em nada, nem em ninguém.
Resolveu se dedicar inteiramente à sua carreira, nada mais.
Desde que a sua carreira depende unicamente da internet e de um trabalho home office, ela se mudou imediatamente após a confusão promovida por Anton e Oliver.
É Anton que ela ama, mas não vai aceitar a insanidade dele por uma interpretação errônea de uma ocorrência. Ciúmes pode ser interessante até certo ponto, mas quando ultrapassa os limites do bom senso, é insano, é doentio.
Foi o que Anton fez quando a viu com Oliver na biblioteca, no lançamento de seu livro mais badalado, mais esperado. Aliás, o livro existe e existiu pelo apoio de Anton, que esteve ao seu lado durante todo o processo de pesquisa e escrita.
Ele chegou atrasado, quando Oliver oferecia a ela um contrato quase que vitalício, sendo que Anton já tinha arranjado a ela outro contrato, mas Oliver deu a entender que ela tinha aceito a oferta dele e em seguida a pegou pela cintura, na frente de todos, e a beijou.
Ela viu Anton virando-se depois de uma careta horrorizada de desaprovação e foi embora, sem ao menos esperar por ela.
O tapa que ela deu em Oliver e a recusa dita a ele em alto e bom som, também diante de todos, ele não viu.
A indignação de Anton, o amor-próprio ferido, a ideia de traição, imediatamente, sem ao menos saber do contexto todo, falaram mais alto e provocaram sua explosão quando ela finalmente o alcançou.
— Anton, me escute, espere.
— Não quero saber de nada, Virna, não se aproxime. Sabia que você iria fazer isso comigo.
— Como assim? Você nem sabe o que realmente aconteceu!
— Como não? Ainda tem coragem de querer negar? Eu vi tudo!
— Você não viu nada. Só viu o que quis ver. Mas precisa saber o acontecido todo.
— Não vai me fazer de bobo, Virna. Vai embora, me deixe em paz. Tudo tem um limite e o que vi foi o suficiente para mim.
— Você não vai me ouvir? Não vai tentar entender tudo o que aconteceu?
— Eu entendi tudo o que aconteceu, Virna. O que eu temia e o que já tinham me dito que você faria, você fez. Eu não quis acreditar no que me disseram e por isso estou nessa situação. Vai embora. Não me procure mais.
Nessa hora, Virna, com a garganta travada, o coração partido, a alma despedaçada, se vira. Suas pernas, quase não a sustentam mais, mas ela segue adiante, mesmo trôpega e despedaçada.
Desde então, Anton não mais a viu e acreditou, apesar de sofrer, que tinha tomado a melhor atitude. Foi saudado por aqueles que os queriam separados… e ele optou por acreditar neles e não nela.
Depois de uma semana chorando e sofrendo, Virna dá um basta naquilo. Vende seus pertences na cidade e parte para outro país. Aliás, era algo que ela planejava fazer com Anton, mas agora fazia sozinha.
Agora, depois do fatídico jantar, Anton tenta achá-la, contrata um investigador particular, mas mesmo assim, não a localiza. Ele tenta pelo GPS do celular dela, mas nessa altura, ela já o bloqueou, já mudou de telefone.
Ela sente saudade e curiosidade sobre a razão dele querer falar com ela, mas não quer dar o braço a torcer. Não vai permitir, de novo, encher-se de esperança, magoada como está. Se ele errou, que assuma as consequências de seus erros. Congelou seu coração, colocou uma corrente e o trancou dentro de uma caixa de ferro.
No momento, não se permite sentir nada. Trabalha muito em seus vários livros, escreve como nunca, pesquisa como nunca.
Depois de um mês, Virna tem seu livro principal publicado. Uma editora de outro país interessou-se pela tradução e publicação dele. Ela não tem mais como se esconder de Oliver e de Anton.
O marketing de seu livro dá pistas a serem seguidas por ambos. E ambos começam novas buscas.
E, é lendo um jornal que Anton fica sabendo que uma escritora de seu país publica seu livro em outro país. Na língua nativa e traduzida.
Ei-la. Virna está na primeira página do jornal digital, linda ao lado do editor, sendo abraçada por ele, rodeada de muitas pessoas que gostam dela.
Anton sente que a está perdendo de fato, embora saiba de sua culpa por aquilo ter acontecido. Mas agora tem como localizá-la e, se ela não fala com ele por telefone, ele irá pessoalmente encontrá-la.
— Mia, vou amanhã até a editora do livro de Virna. Vou tentar achá-la.
— Bem, irmão, depois do que me contou, nem sei se ela o aceita de volta. A princípio, fiquei do seu lado porque comprei sua versão, mas depois que ouvimos aquele “verme” no restaurante, tenho minhas dúvidas.
— Animadora você, mas sim, tem razão. Tenho mandado mensagens em todo telefone que acho que pode ser dela. Parece que ela congelou o coração.
— Vai ter que conquistá-la de novo, Anton. Só assim acho que pode ter, digamos… a médio prazo, algum resultado benéfico.
— Sim, não posso deixar a empresa, mas vou deixar em suas mãos por uma semana mais ou menos. Vou tentar achá-la. Espero que o editor dela me dê, pelo menos, uma pista.
— Se eles acharem que é um fã, não vão dar. Precisa achar uma forma confiável de se apresentar.
— É! De qualquer forma, vou amanhã. Já esperei muito.
Na manhã seguinte, Anton pega o avião para encontrar Virna. Pretende ir até a editora, tentar localizá-la.
Melhor que jogo de aposta, quando ele chega, vê entrando pela porta principal no prédio da editora. Não achou que seria tão fácil… e de fato, não foi.
Ao entrar, o elevador em que ela se encontra está fechando. Ela o vê, mas não move um músculo sequer na direção dele. Ela age como se ele fosse um desconhecido ou invisível. A porta se fecha e ele não consegue entrar a tempo.
Ela ainda está no modo congelado, como se propôs a ser se um dia o reencontrasse.
Ele fica esperando o elevador voltar, pois quer ver até qual andar ela foi.
O coração de Virna está disparado. O gelo que ela achou que tinha se instalado no peito descongelou. Derreteu-se ao ver Anton. Mas nada a demove da ideia inicial que planejou há tempos. Logo que decidiu que não iria mais sofrer por ninguém.
Ela sabe que ele vai alcançá-la e se arma de toda indiferença que possa carregar. Não vai mais permitir que ele a destrate, que ele a humilhe, que ele destrua novamente seu coração, que ela teve que juntar os pedacinhos nesse último mês.
Ele se apressa quando o elevador volta. Ela pode tentar escapar, esconder-se dele, mas não. Quando ele chega, ela está lá, conversando com outros, como se nada houvesse.
Ele vai até ela. Ele o olha com desdém e…
— Virna, posso falar contigo?
— Pois não? O que deseja? — ela fala com a maior imparcialidade que possa manifestar.
Anton fica até em dúvida se ela o reconheceu, o que não é possível depois do romance tempestuoso que mantiveram. Com certeza, ela o reconheceu, mas a atitude dela é fria e distante, como se não o conhecesse.
— Sou eu, Virna, Anton!
Ela olha para ele sem mover um músculo sequer da face.
— Sim, eu sei quem você é! — Virna fala, olhando diretamente para ele, não sorri, não muda nada. — O que quer?
— Virna, quero conversar contigo, sabe disso.
Ela ignora o “sabe disso”
— Se for a respeito de algum livro, alguma parceria ou compra para sua própria editora, fale com o departamento de compras. É com eles esse negócio.
— Virna, nada disso. Sabe muito bem que é com você.
— Se for pessoal, não estou disponível.
Ela fala e se vira, continuando a conversa com a pessoa ao lado.
Anton perde a paciência. A puxa pelo braço para perto de si.
— É com você que quero falar. Pare com essa atitude indiferente, sei que percebe o que faz.
— Vai repetir suas verdades, Sr. Anton? Continuo dizendo que fale com o departamento de compr… — ele não a deixa terminar. A agarra, para perto de si, e a beija.
— Quero que me perdoe, Virna, quero você de volta…
Mas, Anton não consegue terminar!
O coração de Virna esteve tão trancado e tão gelado que a reação dela é um sonoro tapa no rosto de Anton. O mesmo tapa que ela havia reservado para Oliver no dia de autógrafos e que Anton só ficou sabendo quando ouviu de Oliver no restaurante. O que houve entre eles não parece significar mais nada para ela. Anton se assusta.
— Não repita isso, ou chamo o segurança. — diz Virna de forma seca e distante. — E tem mais, não quero conversar com você.
Dizendo isso, Virna segue pelo corredor entre os escritórios e some por uma das portas.
Anton a segue, mas ela trancou a porta e, mesmo que ele não acredite, ela chamou o segurança. Ele vê um cara grande, como ele, de uniforme vindo em sua direção.
O segurança chega perto, percebe a agitação de Anton e tenta apaziguar a situação.
— Eu te entendo, meu amigo! — diz ele, chegando perto de Anton. — Aceite meu conselho — continua ele — daqui meia hora, o expediente acaba, todos saem pela porta principal do prédio. Já estive em sua situação, me acredite. Esse é o melhor caminho.
Anton concorda, consente.
— Certo! Você tem razão!
Desce no saguão do prédio e senta-se numa poltrona que enxerga toda a extensão de saída dos elevadores.
Afinal, o conselho do segurança foi bom. Ele tem todo o tempo do mundo. Só não esperava aquela reação dela. Mas foi para lá para falar com ela e não vai embora sem fazê-lo.
A espera é excruciante. As fugas que ela empreendeu sem ele esperar foram exasperantes. Não pode reclamar. Ele é quem provocou toda essa situação e dificuldade.
Meia hora depois, ele começa a vigiar os elevadores. Aquele pelo qual ela subiu a princípio é o seu principal alvo.
Logo ele a vê saindo do elevador. Mas ela não está sozinha. É acompanhada por outro homem. Quando ela o vê, ele já está perto, indo em sua direção. Ela cochicha algo para o acompanhante, que o olha e se distancia.
Anton respira aliviado. Pelo menos poderá se aproximar sem a resistência de mais uma pessoa. Somente a resistência dela já é o suficiente.
— Virna, quero falar com você!
Surpreendentemente, ela concorda.
— Tem uma cafeteria na esquina seguinte. Vamos até lá.
— Ok, obrigado por concordar. — diz Anton a ela.
Virna não responde, começa a caminhar na direção proposta.
Entra e senta-se numa mesa próxima da entrada.
Até então, ela sequer o olhou. Sentam-se frente a frente. Ela pede um café, ignorando o que ele possa querer. Ele chama novamente o garçom e pede também um café.
Ela está muda e fica bebericando o café e olhando para ele. Séria, sem expressão! Toda essa performance está custando muito, mas ela se mantém firme.
— Virna, eu quero me desculpar com você. Sei que não fiz certo, sei que usei palavras ásperas, fiz acusações infundadas, porque estava muito inseguro. Estava sob forte pressão e, independentemente de tudo, isso não justifica o que fiz. Eu só quero que me perdoe.
Virna olha para ele, toma mais um gole de café e, em seguida, responde.
— Está bem! Eu te desculpo. — levanta-se e se movimenta em direção à saída.
— Espere! — diz Anton. — Como assim? Só o que tem a dizer?
— Sim, aceitei sua sugestão de que não significo mais nada para você, então resolvi que você não iria significar mais nada para mim, e é o quanto basta para o que você falou. Adeus.
— É! Eu falei isso também, não é? Espere! Tenho mais a falar. Volte, por favor.
Respirando fundo e fazendo cara de enfado, ela volta e senta-se novamente na mesa. Pede outro café.
— Não quer me dizer nada? Não vai comentar?
— Anton, você pediu desculpas, deu justificativas para sua reação, depois as desvalorizou, dizendo que foi por sentir-se pressionado. Eu aceitei e pronto. Já conversamos. Agora você segue sua vida, eu sigo a minha. Não sei se notou, mas já reconstruí minha vida aqui.
— Sim, notei, e parece que já tem alguém ao seu lado.
— Isso não é da sua conta. No momento em que nos desligamos, não te devo satisfação. Aliás, foi o que você me impediu de fazer quando eu quis me explicar.
— Sim, foi o mesmo que Oliver disse.
Virna arregala os olhos.
— Oliver de novo? Nem me fale. Não quero saber dele nem de você. Para mim, chega!
— É, eu ouvi ele contar o que fez, quando estava bêbado numa mesa de restaurante.
— Ah! Estou imaginando o que aconteceu. Foi preciso o mentiroso ficar bêbado, confessar para alguém a besteira que tramou e coincidentemente você ouvir, para então pensar que eu podia ser inocente de suas acusações. Irônico, não?
— Sim, Virna, é do que mais me arrependo. Depois de ver a cena que vi, deveria ter conversado com você, mas não o fiz.
— Sim, Anton, e por isso tudo, chega. Vamos terminar aqui a conversa e seguir nossas vidas.
— Não vai me perdoar, Virna?
— Já te disse que sim, Anton. Vamos repetir tudo de novo? Por que?
— Entendi, além de te pedir perdão, você ainda quer que eu sofra!
— Anton, para mim tanto faz. Você é crescidinho, vai superar. Eu superei, você também pode! — ainda tenta Virna, agora com a voz já embargada.
E, novamente, ela se levanta, pronta para ir embora, mas mais uma vez é detida por Anton que, dessa vez, se levanta e a segura pelo ombro.
— Espere, Virna. Quero mais uma coisa.
Ela olha para ele, cansada. Não é nada fácil fingir indiferença. O coração aos pulos já a desgasta desde que o encontrou novamente. Todas as travas que prendiam o amor dela por ele foram arrebentadas. Está arrasada, cansada, exausta, mas ainda assim tenta resistir.
— Diga, Anton. — ela responde, abaixando a cabeça, deixando seus ombros sucumbirem. E se rendendo às mãos dele.
Ele a puxa para si num abraço apertado.
— Quero que volte para mim!
Virna sorri. Se afasta, delicadamente.
— Vai ter que se esforçar um pouco mais. — diz ela. — As consequências de sua desconfiança sobre mim foram complicadas. Ao mesmo tempo que despedaçaram meu coração, me mostraram caminhos que nunca imaginei que conseguiria caminhar sozinha. Mas consegui, então, meu querido, ainda tenho que avaliar o que vale mais a pena. E fique tranquilo, que se quiser desistir, já percebeu que, apesar de sofrer, eu sobrevivo. Nunca mais vou me colocar abaixo de quem quer que seja.
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