Volta Pra Mim – CapítuloI

Estou dispondo aqui os primeiros capítulos do livro de minha autoria chamado “Volta para Mim”, que está publicado e disponível no Google Play Livros.

Gostaria de sua opinião sobre o conteúdo, o começo da história, os personagens, a trama, etc. Deixe nos comentários sua participação.

Eis o link do livro no Google Play Livros: https://play.google.com/store/books/details?id=SXj-EAAAQBAJ

PREFÁCIO DO CAPÍTULO I

“Toni concordava com as exigências do pai e almejava satisfazê-lo. Enquanto isso, Anton, cujo pai já não estava mais presente, buscava provar a si mesmo sua capacidade, mesmo sabendo que o pai nunca o aprovaria.

Quando os dois se conhecem e se apaixonam, uma série de situações engraçadas, tolas, prazerosas e até mesmo conflituosas surgem, movimentando o relacionamento do casal. A trama se desenrola com a participação dos pais, que acabam se conhecendo.

A narrativa oferece uma visão divertida das aspirações dos jovens em agradar aos pais, respeitando seus valores, contrastando com aqueles que desafiam e contradizem as expectativas parentais. Os pais, por sua vez, abrem espaço para apoiar as ousadias dos filhos, independentemente das consequências, positivas ou não.

Essa história, repleta de humor, compreensão e incompreensão dos personagens, que se amam mas buscam afirmar suas identidades, evolui até a compreensão da empatia, da partilha de aprendizados e da transformação de vidas e valores diante das diversas perspectivas de encarar a vida.”

Vamos então ao primeiro capítulo.

Capítulo I — O encontro

Epígrafe:

A objeção, o desvio, a desconfiança alegre,

a vontade de troçar são sinais de saúde;

tudo o que é absoluto pertence à patologia”

Friedrich Nietzsche.

E tudo começa em um dos restaurantes mais elegantes e concorridos da região. Uma agitação incomum na cozinha.

— Corre, chef, estão chegando de novo. — exclama agitado um dos garçons, na entrada da cozinha.

— Quem está chegando de novo? — pergunta Zack, o mais velho funcionário da cozinha e exímio conhecedor de todos os cantos e labirintos do lugar.

Zack é aquele que caminha entre os balcões, fogões, geladeiras e panelas dessa cozinha desde moleque. Já tem lá seus 70 anos e vive com o esfregão na mão, correndo de canto em canto, limpando tudo. Recusa-se a usar as ferramentas mais modernas. Segundo ele, não são tão eficientes quanto as antigas.

Zack é mascote do restaurante, o símbolo mor da turma, o escolhido. Ninguém mexe com Zack, ele é único.

Estrelas Michelin são a ambição de grandes chefs e de restaurantes famosos. Avaliações feitas por seus “gourmets” — teoricamente inspetores que não são anunciados — atribuem ou não estrelas aos restaurantes.

Hoje, há informação vazada de que algum deles está entre os “costumers”.

O staff da cozinha corre para todos os lados, olhando para Anton, também bastante agitado na expectativa da visita do inspetor, para serem avaliados se receberão ou não a segunda estrela Michelin.

É o que mais deseja Anton.

Receber a estrela Michelin prova para ele que seu pai não tinha razão quando o criticava e falava sobre sua incompetência para gerir negócios.

Essa estrela Michelin, para seu segundo restaurante, prova que o pai estava errado sobre ele. Afinal, é a segunda vez que ele ganharia depois de começar a administrar pessoalmente a rede de restaurantes que agora se espalhava por meia Europa.

— Ok, Anton, vai dar tudo certo. Trabalhamos bastante nisso.

— Certo, mas quantas vezes mais eles virão?

— Não se preocupe, meu querido! A qualidade aqui é sempre a melhor. — diz Adele para o filho.

Anton sorri para ela.

— Eh, mamãe, te amo! Se dependesse só de você, ganharíamos todas as estrelas Michelin, não é?

— Sim, filho, claro que ganharíamos. Temos uma ótima qualidade, finesse e elegância!! Com certeza. — diz Adele, botando as mãos na cintura e empinando o queixo com um sorriso maroto.

Anton administra agora a rede de restaurantes deixados de herança por seu pai. Adele participa com ele, como mãe e também aspirando ares de empresária, agora sem o companheiro oficial, elege o filho para participar de tudo o que pode.

Adele mudou muito. Quando se tornou uma viúva, resolveu gerenciar sua vida de forma diferente de antes.

Depois que o pai morreu, Anton ousou fazer todas as mudanças que o pai sempre o proibira em vida. Teve sucesso e conseguiu provar para si mesmo um valor, nunca antes reconhecido pelo pai.

Não longe dali, sentada no bar, uma garota observa tudo com olhos muito atentos, curiosos, olhos de quem quer aprender, entender…

Antonella, ou Tôni, para os amigos, participa da agitação. Olha de longe toda a movimentação.

Está ali, aguardando uma resposta do RH, que funciona no mesmo prédio, para saber se foi aceita como funcionária do restaurante.

Não havia visto ainda como tudo acontecia na cozinha, no dia em que os “comensais disfarçados da Michelin” iam fazer refeição, pois na época em que seu pai, Gerard, dono de outra rede de restaurantes, em outros países, também ganhou uma estrela Michelin, ela estava fora, na faculdade, e não pôde ir. Perdeu a agitação, o burburinho, a corrida da cozinha e o atendimento aos gourmets que fariam a avaliação.

Logo ela vê um funcionário que parece diferenciado e se dirige a ele.

— Fui chamada hoje para uma entrevista. Pode me indicar para onde devo ir? Gostaria de conversar com alguém do RH. — diz Tôni para Jean, mais um dos funcionários do restaurante de Anton.

— Sugiro que volte amanhã, pois hoje estamos esperando alguns inspetores da Michelin, talvez consigamos mais uma estrela.

— Vocês já têm uma estrela?

— Ah! Não… melhor, sim, mas de outro restaurante do Sr. Anton.

— É o dono?

E, diante do olhar interrogativo de Jean, Tôni completa…

— O Sr. Anton é o dono do restaurante?

— Ah! Sim, não só desse, mas de todos os outros da rede.

Jean procura em volta, para ver se Anton está por perto para apontá-lo para a garota, mas ele já se foi. Sumiu da vista.

— Hum! Ele tem uma rede de restaurantes? Muito chique.

— Preciso entrar na cozinha agora, já estão me chamando lá dentro. — diz Jean. — Mas não deixe de voltar amanhã. Gostei de você!

Jean encanta-se com Tôni. Não pode mesmo atendê-la, senão a receberia. Uma mulher linda no restaurante, com porte elegante, procurando emprego? Não é sempre que acontece.

Tôni volta a sentar-se no bar do restaurante. Não perderia aquela movimentação por nada. Já não viu quando aconteceu com um dos restaurantes de seu pai, e agora não vai perder essa oportunidade.

Outro país, outra cultura, mas, mesmo assim, ainda é a estrela Michelin.

Estava na faculdade, em outra cidade, e Gerard, seu pai, ainda não a considerava pronta para entrar no mundo dos negócios. Só depois de formada, Gerard a encaminhou para um país estrangeiro para ela aprender mais.

Mas Gerard não facilitou as coisas para Tôni. Acha que ela tem que aprender primeiro sendo empregada, sem privilégios de filha de dono de restaurante famoso. Portanto, a encaminha para um país distante, com a mínima chance de ela ser reconhecida.

Depois de entender toda a hierarquia do negócio, das empresas, das relações humanas nesse meio, é que ela vai começar a tomar conta, junto com ele, da cadeia de restaurantes que eles possuem.

A agitação no restaurante é grande, por isso Tôni entra na cozinha sem ser notada. Observa o movimento de todos. Olhos atentos para ver como é a dança dos chefs, dos cozinheiros e dos auxiliares.

Quem faz o prato principal, quem o decora? O cuidado com o sabor, com o aroma, com as cores, enfim, com tudo na montagem dos pratos e como o chef supervisiona todos os acontecimentos. São curiosidades de Tôni.

O salão com as mesas postas está magnífico. Em cada mesa, um vaso solitário com uma Calla Lily — ou copo de leite, toalha de linho, pratos de porcelana com suaves desenhos dourados e guardanapos também de linho, envoltos em anel de metal dourado sobre a mesa.

Talheres finamente trabalhados e colocados, organizados ao lado dos pratos de entrada. O prato principal e de sobremesa, assim como os copos de vinho em harmoniosa linha, fiéis em tamanho e com a qualidade do cristal a cada tipo de vinho ou qualquer outra bebida que componha os pratos.

Cadeiras acolchoadas trabalhadas com capitonê em formato moldado para acomodar cada comensal.

Tudo por um final feliz com uma estrela Michelin.

Grandes janelas em arco favorecem a iluminação durante o dia, o teto alto agrada os olhares e eleva o calor, sendo expulso por potentes, mas silenciosos ventiladores que sugam o ar quente, poupando os comensais.

Música de bom gosto inunda o ambiente.

Pendentes muito bem-feitos e trabalhados no teto enfeitam e emitem uma luz suave amarela à noite.

Tôni observa tudo aquilo com admiração. Realmente, o organizador daquilo é alguém entendido, de bom gosto.

Enquanto observa o salão, chama sua atenção uma movimentação estranha na bancada de saída dos pratos com destino às mesas.

Alguém, vestido de auxiliar, fala avidamente ao telefone.

Ao desligar, saca de um conta-gotas dentro de seu avental e pinga umas gotas em um dos pratos que estão prontos para serem levados para as mesas dos clientes.

Pula outros dois pratos e pinga novamente algumas gotas em outro prato.

Tôni se aproxima do sujeito e ele, quando a vê, sai correndo. Ela corre atrás dele, mas é derrubada por ele, entre as panelas da cozinha, por onde fugiu.

Ela fica entre continuar a persegui-lo ou voltar para tentar impedir que os pratos sejam distribuídos aos clientes.

Ela volta e começa a fazer barulho incompreensível na cozinha, uma vez que ainda não fala bem a língua e, com a agitação e o nervosismo, confunde as palavras.

Tôni chama o rapaz que antes falara com ela, Jean. Ele demora a atender e, enquanto isso, Tôni tenta impedir o garçom de levar os pratos até as mesas do salão.

Quando Jean chega, Tôni já havia criado uma confusão e estava literalmente pendurada no braço do garçom, fazendo com que ele derrubasse o conteúdo dos pratos.

Jean acode aflito, devido à expectativa de um dos pratos ser de algum inspetor das estrelas Michelin.

A cozinha, aberta aos clientes, agora chama a atenção de alguns próximos a ela.

Toni tem um sotaque engraçado, mas doce. Explica para Jean o que viu, carregando ainda mais o sotaque, agora que ficara nervosa.

Algumas palavras não lhe vinham à mente.

Os garçons, ainda tentando entregar os pratos já prontos, acabaram por misturar todos e já não sabiam mais o que entregar a quem, pois inclusive Tôni, para impedir a entrega, já havia derrubado no chão uma boa quantia deles.

Ela foi, a princípio, tomada como maluca.

Parecia mesmo maluca, não sabendo direito falar aquele idioma e, aos olhos de todos, destruindo os pratos já prontos e com o staff na iminência de receber os inspetores, todos ficaram mais irados e amalucados ainda com ela.

As coisas ficaram piores quando ela começou a falar “veneno” em todas as línguas que ela conhecia.

Com a insistência dos garçons de ainda levarem os pratos restantes para os comensais, mesmo tendo sido detida por duas pessoas, ela, com um tranco, soltou-se e jogou os pratos restantes no chão.

Ela é pequena, mas esguia e estava escorregadia, já melecada com comida.

Nenhuma imagem bonita se forma aqui, inclusive acabando com Tôni envolvida com mais comida, caída no chão.

— Parem, parem! — grita Jean aos garçons desolados, sem ação. — Vão às mesas, digam que vão atrasar um pouco, peçam desculpas, ofereçam um bônus, por exemplo, uma sobremesa extra, voltem à cozinha e peçam aos cozinheiros para refazerem os pratos.

Toni é levada para uma sala de detenção e logo alguém vem conversar com ela. Era Jean.

— Achei que você queria trabalhar aqui, e não destruir o restaurante.

Ela respira fundo. Meio misturada ainda com molhos e recheios na roupa, ela tenta a comunicação. Ainda não conseguia falar a língua estrangeira com coerência. Mas tentou…

— Não destruir! Salvar! — Tôni fala com gestos grandes, tentando se fazer entender.

— Salvar como? Tivemos sorte de que foi alarme falso que viria alguém da Michelin hoje, porque senão estaríamos fora do negócio e todas as refeições anteriores que só nos deram pontos positivos teriam ido por terra.

— Pare de falar um pouco e me escute, mas antes me deixe procurar as palavras. Ainda não sou muito fluente na sua língua. — ela gesticula, fazendo círculos em torno de sua orelha, tentando sinalizar a confusão de idiomas que ainda acontecia em sua cabeça.

— Ok, fale, mas acho difícil você se defender da confusão feita.

Tôni já está irritada, mas sabe que se não se controlar, só vai piorar as coisas… então, respira novamente e… fecha os olhos, tenta soltar vagarosamente o ar.

— A comida… daqueles pratos… foi envenenada…

— O quê?

— É! Então, antes que a criatura da limpeza destrua todas as provas, vá lá, mande ele juntar tudo o que está no chão e mandar para um laboratório de análise. Depois chame a polícia para investigar, ou faça do jeito que a lei manda fazer aqui… não conheço a sua legislação.

Ela aponta a porta, ordena o que fazer e Jean olha atrapalhado para ela.

A essa altura, Tôni já parece querer levantar voo, tal a agitação que toma conta dela. Seus braços vibram no ar, buscando atribuir significação às suas palavras.

Jean sai correndo, e a limpeza já tinha começado a ser feita. Jean pede para tirarem o que foi jogado no lixo e guardarem.

Nenhum funcionário entende, mas nenhum contesta as ordens de Jean. Todo o lixo é recolhido e colocado em sacos para posterior averiguação.

Jean volta para a sala e Tôni não está mais lá.

— Fui enganado? Ela me contou uma lorota? — mas já a perdeu de vista.

Os que estão à sua volta, olham para ele com ares de deboche, nunca desejando estar em seu lugar, pelo menos naquele momento.

Jean olha pelo restaurante todo, pelo salão, cozinha, banheiros, bastidores, e não… ela sumiu.

Só restaram alguns resquícios de sua presença, quando Jean olha para as mãos e lembra que limpou o rosto de Tôni com os dedos.

Anton estava no escritório, no mesmo prédio do restaurante, mas em outro andar e não presenciou o ocorrido, mas depois ficou sabendo por Jean da bagunça toda e a possibilidade de ele ter sido enganado por uma desconhecida.

No dia seguinte, Tôni procura o RH da empresa e é aceita. Seu currículo é muito bom e ela é imediatamente conduzida ao almoxarifado.

Jean fica sabendo que ela voltou, afinal. Corre para encontrá-la, pois ainda não entendeu direito tudo o que se passou. Não sabe se foi enganado, ou…

… mas, por que ela voltou?

Entra no salão e a vê no canto, ao lado dos produtos, geladeiras e frigoríficos, com caderno e caneta nas mãos.

— Achei que você tinha me enganado, mas hoje você voltou.

— Por que eu o enganaria?

— Não sei… ainda não sei se aquela denúncia que você fez é verdadeira.

— Não houve ainda resultado de análise dos pratos? Ou você nem mandou fazer? — Tôni, o interroga já com as mãos na cintura.

— Mandei sim e não, não ficaram prontos, vão ficar prontos só amanhã.

— Bem, e o que diz seu chefe? O Sr. Anton?

— Ele ficou muito furioso quando soube que você foi embora. Também achou que eu tinha sido enganado. Me deu uma bronca, mas como não houve outro prejuízo a não ser material, ele sugeriu que aguardássemos os resultados do laboratório.

— Achei muito suspeito aquele fulano pingar algo nos pratos. Afinal, vocês o acharam?

— Não, né? Ninguém botou fé na sua história até ser tarde demais. Ainda temos dúvida se sua história é verdadeira!

— Ah! É! Eu sou muito esperta mesmo. Conto uma mentira ontem e volto hoje para ser pega. Ah! Convenhamos, né? — diz Tôni, muito irônica!

Jean ri, meio embaraçado, meio desconfiado.

— Talvez porque você ainda não conseguiu completar sua missão??

Tôni ri, ri muito. Grande imaginação tem aquele rapaz.

— Ora! Até gosto de teorias conspiratórias, mas a sua é muito… muito maluca.

Enquanto isso, Anton passa pelo corredor e encara Jean pela parede de vidro que os separa de salas. Olha muito demoradamente para Tôni, que está de costas e faz um gesto de interrogação para Jean.

Aponta Tôni e articula, sem som, palavras para Jean, como:

— Essa é a maluca?

Tôni não o vê e Jean acena de forma positiva para Anton, que confirma, com essa resposta de Jean, que ela é a garota que fez a bagunça no dia anterior no salão do restaurante.

Gostou?

Volte sempre. Postamos todas as 3ªs e 6ªs.

Logo vamos dispor o 2º capítulo, quando começa haver um possível relacionamento entre Toni e Anton, sem serem poupados, é lógico de complicações.

Obrigada, comente, dê um like e volte sempre.

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