Foi Por Engano… O Voo Errado

PRÓLOGO –

O que você faria se ao entrar no avião do seu chefe para uma missão, acordasse em um país estranho, com um idioma desconhecido, e um diplomata escultural a te olhar como uma estranha?

Siga conosco para realizar seus sonhos ou entender Irina, como ela se saiu nessa confusão diplomática provocada por ela mesma.

A HISTÓRIA

E, finalmente ela sente que o avião levanta voo. Recosta sua cabeça no suporte do assento e sabe então que pode cochilar. Finalmente descansar por, pelo menos três horas. É o tempo estimado de voo que ouviu Gregório falar.

Com toda a pressão que sente pelas noites mal dormidas, sente até sua alma abandonar seu corpo eventualmente para um descanso extra.

Muitas imagens também sobrevoam sua imaginação, quando começa a sentir o movimento do avião.

Ela não consegue relaxar. Seus pensamentos não a desligam do trabalho, mas aos poucos, o zumbido mágico do avião, começa a transportá-la para voos profundos.

São os voos dos sonhos e ela pousa, nesse sonho, em uma linda praia com seu amor, que ainda não tem rosto, mas tem encanto, gentileza e paixão. Tudo se pode num sonho.

O relaxamento fica cada vez mais profundo, mais agradável e apaziguador. Sente o corpo relaxar cada vez mais e a alma agradecer.

De repente, ela volta à vida, arrancada de seu descanso, pelo ranger dos pneus do trem de pouso e o desligamento da turbina.

Sente o chacoalho com o pouso e freio do avião.

Antes mesmo de conseguir acordar direito, sente seu corpo revigorado, descansado, mas estranhamente gelado.

O destino definido por seu chefe, a conduziria para um ambiente mais quente, não mais frio.

Desde o pouso e já tendo sido abertas as portas de saída, o ar que invadia aquele compartimento era frio, gelado até.

Olha em torno, mas as cortinas ainda estão fechadas e ainda se tem uma impressão de noite que era exatamente o esperado.

Corre para a janela e puxa a cortina. A luz do sol castiga seu rosto e a cega momentaneamente. Difícil entender o que se passa. Deveria ser ainda noite no destino combinado. Até sua visão voltar, ela tateia em volta à procura de sua bolsa, do celular. Ele está sem sinal, mas marca as horas.

Oito horas da manhã? Como assim? O que estava realmente acontecendo? Sendo assim, dez horas se passaram, não três.

Está esparramada na poltrona vip daquele jato diferente. Não havia notado ainda tanta variação. Será que o chefe trocou de avião?

Começa fazer considerações, percebendo agora que deveria ter sido mais criteriosa antes de entrar no avião.

Entrou, com certeza, no avião indicado por Gregório e, embora ele ainda não tivesse embarcado, era seu costume, chegar sempre em cima da hora, atrasado.

Seu cansaço era tanto que desmaiou assim que se sentou naquela cadeira deliciosa e repousou sua cabeça no couro macio. O dia anterior fora realmente pesado, além de estar acordada há mais de 24hs. A atividade de seu chefe demandara toda essa dedicação.

Seus olhos começam a se acostumar com a claridade, e ela volta a olhar pela janela. Como assim? Onde é que ela está?

De repente, ela é arrancada de seus pensamentos e começa a ouvir outros sons, na cabine ao lado.

Ela já tinha notado o avião diferente, mas cansada como estava, optou por achar que seu chefe teria trocado o avião ou a decoração.

Ouve vozes, palavras estrangeiras, sotaques diferentes. Sim, sabe que seu chefe esperava visitantes de outros países, mas não daquele idioma.

Ela fora recrutada justamente por ter fluência em outro idioma, mas não aquele.

Aí, então, ela começa a notar a outra possibilidade: ela entrou em um avião errado? Pode ser?

– Estou sonhando? Será que fiz essa besteira?

De repente, a porta flex é aberta e ela o vê…

Naquele idioma diferente o homem alto, cujo rosto é difícil ver, pois ela ainda está no escuro da cabine, reclama:

– Droga! Essa porta continua rangendo?

É o piloto? Não, no mínimo ele usaria uma roupa mais parecida com um uniforme e não aquela roupa… digamos… linda… naquele corpo escultural!!

Ela olha para aquele ser entre ainda dormindo e quase acordada. Rosto de interrogação, ela fica muda enquanto o outro também a olha com espanto, sem saber se prossegue na cabine ou volta-se para outro lugar.

– Acho que não acordei ainda. Estava muito cansada e devo estar dormindo.

Parece que o outro também está no seu sonho, pois faz menção de responder, mas é visível que ele não entende o que ela diz.

– Quem é você? – pergunta ele em seu idioma.

Ao mesmo tempo em que estranha, ele mostra um sorriso familiar, como se ela lhe fosse familiar à medida que parece enxergar mais acostumando-se com o escuro da cabine. Um sorriso que ele mesmo contém ao avaliar a situação esquisita daquele encontro, mas ao mesmo tempo, de repente, olhando fixo para ela, não se contém e exclama…

– Giovana? Como assim?

– Quem é você? – pergunta ela em seu idioma. – Giovana? Quem é Giovana? De onde você veio? – esse nome, pelo menos, eu entendi.

Ambos se interpelam, buscando esclarecer a situação bizarra.

Ele se cala de repente e percebe que falou mais do que devia. Não entende a presença dela ali, no entanto ela lhe é muito familiar.

Ambos ficam se olhando, duvidando que aquilo esteja acontecendo.

Mas, a confusão não para por aí. Logo atrás do ser encantador, surge outro ser, parecendo agora ser o piloto e faz uma pergunta ininteligível para o ser encantador.

A pergunta que fica no ar parece ser: – O que está acontecendo??

O homem encolhe os ombros, espalma as mãos naquela inequívoca comunicação por mímica de quem diz – Sei lá! Não tenho ideia.

Os três se entreolham tentando entender o que aconteceu.

Irina investe o quanto pode nas suas lembranças, sobre qual seria aquele idioma. Corre novamente na janela, tentando achar alguma palavra nas placas daquele campo de pouso, o que assusta os outros dois que igualmente a ela se encontram pasmos com a situação esdrúxula, esquisita.

Depois de alguns gestos estranhos, massageando a cabeça como se isso a elucidasse sobre alguma coisa, de repente, Irina consegue pronunciar algumas palavras que acredita seja o idioma dos dois.

Os dois homens se olham tentando entender se ela fala o idioma deles ou se as palavras dela são somente parecidas com as deles.

Parece que dá resultado. Ambos olham para ela curiosos e atentos, esperando que ela continue.

– Acho que eu peguei o avião errado. Era para eu estar no avião do Sr. Gregório.

Parece que Irina acertou na suposição do idioma falado. Ambos olham para ela, olham um para o outro e sorriem.

– Agora… preciso da ajuda de vocês para eu voltar para meu país, porque, pelo visto, não estou mais lá… ela fala essas últimas palavras com um sorriso sem graça, agitando as mãos em forma de dúvida.

Ela torna a olhar em volta, pela janela do avião e percebe que, de fato, não está mais em seu país.

O clima é frio, as pessoas se vestem com casacos pesados, os escritos do campo de pouso estão naquele idioma que, afinal ela consegue identificar e se comunicar… não muito bem, mas afinal, melhor do que antes.

Ela percebe que está com frio. Começa a se encolher e esfregar os braços. Saiu de seu país no verão e dez horas depois está num inverno maroto, parece que, no outro lado do mundo.

Teodor percebe, abre um pequeno armário, tira um casaco de pele e estende para ela.

Irina sorri e agradece. Está mais aquecida agora.

– Como você se chama? – ele pergunta.

– Irina, e você?

– Teodor.

– Bonito nome… Teodor. – ela pronuncia o nome e parece esperar seu eco por todo o ambiente.

Teodor a olha meio surpreso, entre as dúvidas que acontecem para ambos… melhor… para os três, embora o piloto já tenha se retirado.

Trocam cumprimento, dão-se as mãos e finalmente, entendem que vão precisar conversar muito até resolverem a confusão toda.

– Acho, Teodor, que a melhor solução é me levar até a minha embaixada, não é?

É o que diz Irina, enquanto desembarcam no aeroporto. Por ser um pouso particular, eles não passam pelos trâmites padrão de aeroportos, mesmo porque, Teodor também tem passaporte diplomático.

Uma situação que Irina nunca imaginou é o que começa se apresentar agora.

– Não temos embaixada do seu país aqui, Irina.

– O quê?

– É, não nessa cidade, na verdade não nessa província. Não sei qual providência podemos tomar a partir de agora. Preciso consultar meu advogado, o administrador… sei lá… alguém que se incumba disso.

Algo estranho aparece no olhar enigmático de Teodor.

Embora sedutor, soa misterioso e pode ser interpretado de muitas formas por Irina.

Um homem como ele, que aparenta ser culto e bem informado, não tem uma ideia sobre a localização de sua embaixada? Como assim?

Irina percebe e, ao mesmo tempo que se encanta, fica temerosa. Não conhece aquela cultura, costumes. Aprendeu algumas palavras e frases dali, mas não muito.

– Me deixe em um hotel, então… depois me informo e vou para o local da embaixada. Tenho cartão de crédito, posso me virar – sugere Irina, inclinada a se livrar daquela situação embaraçosa o mais rápido possível.

– Não! Vou levar você para minha casa. Você fica lá, enquanto procuro mais informações de como resolver esse caso.

– Mas…

– Sem mas, Irina. Sei que de alguma forma até sou responsável pelo que aconteceu. Eu devia ter mandado checar o avião antes de levantar voo do seu país. Estava com pressa e saí às pressas, portanto, uma parcela de culpa é minha.

Irina não tem muitas alternativas, uma vez que também não conhece como resolver aquela questão. Não conhece as leis daquele país, não conhece a geografia do país e “male má” conhece o idioma.

Suas alternativas são limitadas e depende mesmo da ajuda de Teodor. Nunca antes tinha lhe acontecido algo assim… ou sequer semelhante.

O caminho que percorrem, turbulento e caótico de dentro da cidade, começa amenizar e mostrar sinais de paz depois de vinte minutos em direção à uma região menos urbana.

Casas grandes, grandes jardins, muitas praças começam a se fazer presente enquanto a estrada ainda era percorrida.

Ginásios de esporte, quarteirões enormes aparecem, preconizando contraste bruto com o apinhado da cidade, que pouco a pouco fica para trás.

Irina repara que não viu igrejas, não nos moldes tradicionais do país dela.

No final de uma rua sem saída, uma casa enorme, lindamente instalada no meio de um jardim majestoso, oferece entrada para o carro em que Irina se encontra justamente com Teodor.

Os portões vão se abrindo aos poucos indicando que há guardas na guarita da entrada, e que eles reconhecem os carros chegando.

Até então ela se mantivera quieta, sem saber muito bem o que falar ou fazer. Seu repertório de palavras naquele idioma é limitado. O tempo todo que fala com Teodor, gesticula muito tentando complementar a dificuldade de encontrar as palavras.

Ao chegarem, são recebidos pela empregada. Teodor fala rapidamente com ela, deixando Irina aos seus cuidados.

Irina percebe sinais que deve segui-la enquanto Teodor desaparece entre uma das portas que se abrem na imensa sala.

Conduzida a um quarto a empregada faz o melhor que pode para atender Irina.

– Eu não trouxe roupas, não precisaria, ia a determinado lugar com Gregório, e voltaria no mesmo dia, mas tudo mudou quando entrei no avião errado. – comenta Irina para si mesma.

A empregada continua olhar para ela com o sorriso pregado no rosto e Irina percebe que pronunciou aquilo no seu idioma natal.

Irina percebe que a maioria de sua fala é inútil, e que a empregada sorri, mas mal a compreende.

Ela mostra portas que a conduzem ao banheiro, ao closet, à varanda, à piscina, à biblioteca, ao salão de jantar.

– Isso, definitivamente, não é uma casa, mais parece um mausoléu. – pensa Irina, já meio assustada.

Muitas partes da casa, ficam desnudas com suas pedras enormes, fazendo corredores meio iluminados, mas também com pouca luz natural. Luz de fora, somente distantes dos corredores.

A vontade imediata de Irina é ir embora, mas na atual condição, nem saberia para onde ir. Está cansada, com sono novamente, com fome, mas opta por deitar naquela imensa cama daquele quarto lindo, mas meio misterioso e tenebroso.

– Que seja! Não tenho o que fazer e, por hoje, preciso dormir novamente.

Se joga na cama e começa a cochilar, mas é interrompida novamente pela empregada que, pelo que Irina pode entender, a chama para o jantar.

Ele faz menção de ir do jeito que está vestida, mas a empregada a impede elegantemente a conduzindo até o closet para ela escolher uma roupa adequada para a sala de refeição.

– Bem, já que você me conduziu até aqui, me indique uma roupa adequada, por favor.

Um lindo vestido é indicado para Irina, que o veste como uma luva. Parece até que foi feito para ela. Irina também gosta do que vê, no grande espelho do closet.

Com maquiagem renovada, e aparatos usados que estavam disponíveis no banheiro, Irina se sente renovada.

Uma dúvida surge: – Quem usava tudo aquilo antes dela? E ela mesmo procura a resposta. – Bem, para uma casa desse tamanho e com a função dele, a casa certamente recebe convidados com frequência, e esses são quartos de hospedes, sem dúvida.

A sala de jantar para onde foi conduzida é deslumbrante. Enormes candelabros iluminam com mais intensidade determinados detalhes que se destacam. Quadros de pintores famosos nas paredes, vasos aparentemente raros, e o pé direito da sala é altíssimo.

Irina gosta e desgosta. Aquilo tudo é adequado para um ambiente público, vitoriano, ou… diplomático?

Teodor a recebe lindamente especialmente quando a vê naquele vestido que emoldura seu corpo, destaca suas curvas e revela sua natureza.

Ela nota o olhar encantado de Teodor e fica encantada, mas… ao mesmo tempo estranhada.

Seu lugar na mesa é de honra, mas pelo tamanho da mesa, é distante de Teodor.

Sente-se incomodada com aquela formalidade toda e o olhar misterioso, embora sedutor e encantador de Teodor.

O garçom segue servindo o jantar.

Irina não se contém.

Levanta-se, pega seu prato já servido, percorre toda a extensão da mesa em direção a Teodor. Puxa a cadeira ao lado dele, sob os olhares espantados da criadagem e de Teodor.

– Não é possível, nessa altura da minha vida, viver um caos desses. Minha vida não é assim. – Irina fala essas palavras em seu idioma nativo, diante do olhar de todos.

– Por que caos? – pergunta Teodor.

Irina olha para ele boquiaberta.

– Então você conhece meu idioma?

– Sim. Conheço. Sou diplomata e preciso conhecer o máximo de idiomas possível. – a princípio não localizei por causa do seu sotaque, mas depois consegui juntar as peças.

– Verdade, entendo. – e Irina tenta passar rapidamente tudo o que pronunciou em seu próprio idioma, temendo ter falado alguma besteira.

Ela ri de si mesma o que provoca curiosidade de Teodor.

– O que foi? Não esperava que eu soubesse seu idioma?

– Olha, essas últimas doze horas, foram surpresa atrás de surpresa. Eu jamais imaginaria uma situação na qual me encontro.

– Veja pelo lado bom. Eu te conheci e você me conheceu. – uma fala sincera de Teodor que pode tanto ser elogio, como soberba.

Realmente Irina gostou de conhecer Teodor. Um homem lindo, com olhar delicioso, um rosto forte, barba curta, bem cuidada, olhar penetrante, mãos…

– Espera aí. – pensa Irina com seus botões. – Eu preciso o mais rápido possível arranjar um jeito de ir embora. Estou agindo como uma adolescente. Rindo feito boba e esquecendo do que preciso fazer.

Teodor nota o mutismo súbito de Irina.

– O que foi, Irina?

– Ãh? – Irina olha para ele, com meio sorriso e de boca aberta.

É a primeira vez que ela ouve Teodor pronunciar seu nome. Ficou encantada, mas rapidamente, impede que seus pensamentos tomem aquele rumo novamente.

– Está distraída. Falo com você e não me responde!

– Ah! Desculpe. Estou pensando quando pode me orientar para meu consulado. Minha embaixada.

Teodor fecha o sorriso que tinha começado estampar em seu rosto.

– Pensei que estivesse gostando daqui.

– Não tem dúvida, mas tenho uma vida em outro país. Um trabalho, família, amigos… – ela não termina a frase.

Começa a pensar que pode tê-lo ofendido. Afinal ele foi super elegante ao recebê-la em sua casa, e ela estava ansiosa por partir.

– Desculpe, não quis ofender, é que saí de meu país em circunstâncias esquisitas. Preciso avisar que estou bem.

– Já avisei.

– Como?

– Bem, achei seu cartão de embarque no assento do avião. A partir dele, entrei em contato com seu chefe e pedi que ele avisasse todos que você está bem.

Irina nem sabe o que falar. Olha pasma para Teodor. Gagueja um agradecimento.

– O… obrigada…

– Por nada! Agora coma seu jantar que depois vou levá-la para um passeio pelo jardim.

Irina não sabe mais o que fazer. Sorri, agradecida e estranhada. Deixa se envolver pelo encantamento que o vinho lhe proporciona.

– Afinal, hoje não se resolve mais nada mesmo. – pensa ela.

Já no jardim, à luz da lua, tudo fica mais romântico. O jardim tem iluminação estrategicamente pensada para ser encantador.

– Sabe, Irina. Tenho uma forte impressão de já conhecê-la.

Ela ri, supondo que saiba onde aquilo vai parar.

– Se já não nos conhecêssemos, iria pensar que está me “cantando”.

– É! Você tem razão. Mas não. Talvez em outra vida… quem sabe?

– Acredita nisso?

– Sim, por que não?

– Não sei… isso é tido como fantasia das pessoas ou, pelo menos somente de um grupo.

– Sim, mas o interessante é que nunca ninguém provou nada nem sim nem não e a maioria das pessoas ri dessas crenças, e, ao mesmo tempo fica com sua própria crença de que nada existe.

Irina sorri.

– É verdade. – diz ela. – Existir ou não existir é uma crença de qualquer modo.

– Sim, e tenho a impressão que já te conheci antes. Embora eu a tenha visto – ou re visto – por um erro de escolha – o avião errado – não deixa de ser algo interessante.

Irina sente intimidade e aconchego naquelas palavras, mas fica apreensiva da mesma forma. Deixou emprego, família, um quase namorado no outro país.

Esse lugar agora parece lugar de sonho. A lua cheia no céu, as árvores sendo contornadas pela sua luz, sua sombra forte no chão, tudo contribuindo para uma impressão de fantasia, sonho.

Ela olha para Teodor e se assusta ao vê-lo olhando intensamente para ela. Irina sorri, também se encanta com ele, mas sua lembrança de estar em outro país por engano não lhe dá paz.

– Fica comigo…

É quase um sussurro que ela ouve. Fica em dúvida se Teodor falou aquilo, ou se é o assobio das árvores transpassadas pelo vento maroto que passa de pouco em pouco.

– Ãh? – diz ela.

Teodor olha para ela, como se estivesse surpreso. Irina resolve que ouviu demais, mas continua estranhando aquele passeio, aquela casa, aquelas pessoas.

Faz menção de voltar para dentro da mansão, mas ao virar de forma repentina pelo embaraço que lhe atinge, tropeça e não cai, pois Teodor a agarra, a ampara.

Ambos ficam tão perto que ouvem os corações um do outro bater mais forte, descompassados. Ela sente o perfume inebriante dele. Ela sente a respiração forte dele no seu pescoço, até o momento que ele a solta, depois dela conseguir se equilibrar novamente.

– Ah! Obrigada. Não fosse por você eu estaria no chão agora.

– Não por isso. – responde Teodor ainda a encarando e bem perto.

Em seguida ele se afasta.

– É cedo ainda. Quer ouvir um pouco de música?

– Você toca um instrumento?

Teodor ri, ri bastante e ela fica encantada com o riso dele.

– Não, eu ponho um disco para você.

– Ah! Sim.

Ambos caminham para dentro, embora a visão do jardim, seja possível de muitas salas da casa, inclusive da biblioteca onde estão também os discos de Teodor.

Por incrível que pareça, mesmo com toda a sofisticação da casa, os discos de Teodor ainda são “bolachas”. Discos de vinil! Isso o torna mais sofisticado ainda, por incrível que pareça.

A agulha que “arranha” o sulco dá um encantamento soberbo.

O som é profundo, envolvente, embora pipocado por barulhos da agulha rangendo no sulco, mas parece que é isso que realmente encanta. O som envolve todo o ambiente. Não é alto, é abrangente.

As notas tocadas e cantadas envolvem tudo no local. Envolvem a alma das pessoas, encantam os corações. Ambos se veem tão próximos aos sons a ponto de Irina, vez por outra, ouvir novamente o sussurro:

Fica comigo… – será ilusão, ou o próprio coração falando, clamando por um destino já determinado?

Irina não percebe quando, mas agora está nos braços de Teodor, dançando sob o ritmo daquela música que une os dois como se já se conhecessem há muito tempo.

De repente, Irina se afasta, assustando Teodor.

– Não! – ela fala baixinho. – Estou me envolvendo com algo ao qual não pertenço!

Embora baixinho, Teodor que estava muito perto a ouve.

– “Algo ao qual não pertenço?” O que significa isso?

Irina não percebeu que tinha pronunciado essas palavras. Acho que somente pensara, mas não, Teodor ouviu.

– Não sei, Teodor. Sua casa parece enfeitiçada, parece um mundo fora do mundo. Não entendo.

Ele ri.

– Acho que é o “jet lag” que ainda não se resolveu. Ainda está atordoada com as mudança bruscas, inesperadas que te aconteceram nas últimas vinte e quatro horas.

Irina sorri e respira tranquilizada, quando Teodor ofereceu uma explicação lógica e não estranha, como ela própria estava pensando.

– É! Você tem razão. Antes mesmo de eu pegar o avião errado, já vinha de um cansaço crônico. Tinha rodado vinte e quatro horas de fadiga com a demanda exigida do meu trabalho. Depois disso… você sabe o que aconteceu… acho que estou vendo e ouvindo coisas.

– É? O que vê e ouve?

Irina, surpreendida pela pergunta, resolve amenizar a situação.

– É pessoal, Teodor. – ela fala isso e ri, tentando escapar de uma resposta mais sincera.

– Está bem, então. Vamos colocar a responsabilidade no “jet lag”.

– Sim, se não se importa, vou dormir. Estou me sentindo cansada. – diz ela, desvencilhando-se do abraço de Teodor.

– Vai sim. Quem sabe, amanhã você já estará mais tranquila.

– Sim, quero conversar contigo sobre minha embaixada.

– Sim, claro! – responde Teodor, sorrindo para ela que já se encontra na porta.

Ele a segue com o olhar até que ela desapareça na porta, não sem ela olhar uma última vez para ele, antes de sumir.

Os pensamentos de Irina são confusos. Ora são bons, com bons presságios, ora são temerosos, mas a ideia da confusão pelo “jet lag” tomou forma em sua mente e parece que a tranquilizou um pouco.

A noite é intensa. Sonhos com o trabalho já tem uma cor atenuada, como se já houvesse muito tempo passado. Sonhos com Teodor, são como o presente, o agora.

O conflito é grande.

Como assim? Sensação de viver o presente com Teodor, a familiaridade aguçada e 24hs antes, parecer um passado distante? O que está acontecendo com ela?

Não tem dúvida que Teodor é algo fora do comum para ela. Sim, já conviveu com pessoas do mesmo escalão, mas nenhum tão “super diplomata” como ele. Em todos os sentidos.

Ele era assim, naturalmente e ela estava confundindo as coisas, ou ele era assim com todos e ela ainda estava confundindo as coisas? Ou ainda… ele era assim, por ser diplomata?

Mas por que, relacionamento cortês com ela iria beneficiar qualquer negócio, qualquer interesse que viesse dos dois?

A verdade é que ela estava pensando mais do que devia, estava elucubrando mais do que precisava, afinal, era só por um tempo. Logo voltaria para casa e tudo ficaria esquecido.

Afinal, ela consegue dormir. E sonha. Sonha com Teodor. Ama o sonho.

Acorda, com alguns barulhos no imenso quarto que lhe foi designado, com a empregada trazendo uma bandeja de café da manhã.

– Bom dia, não queria acordá-la, mas o Sr. Teodor me mandou lhe trazer o café da manhã. Ele precisou sair e não pode esperá-la.

– Quê horas são, Lígia? – Irina pergunta, se pondo sentada de um pulo.

– Onze e trinta, senhorita.

– Nossa… dormi tão pesado, nem reparei quanto… e me chame de Irina, por favor.

– Sim, o Sr. Teodor a esperou, mas tinha um compromisso e não pode esperar mais. Ele volta para o jantar.

Irina se lamenta. Ela mesma tinha promovido novo atraso para sua volta.

– Lígia, conhece alguma embaixada por aqui, ou próxima daqui?

– Não, senhorita… melhor… Irina, mas sei uma forma de sair daqui.

– Ah, é? Me diga, então.

Lígia parece divertida, mas continua.

– Veja, nevou muito essa noite. Você não sentiu nada porque a casa está totalmente aquecida. Posso te indicar o caminho, mas sinceramente, você pode morrer.

– Morrer? Por que? – pergunta Irina assustada.

– Olhe pela janela. Tem neve por todo lugar. Você não está acostumada com isso. Até chegar na vila, pode se perder.

– Mas quando viemos tinha várias casas em volta, posso pedir ajuda.

– Sim, mas as casas são dos funcionários de Teodor. Eles terão a mesma informação que estou te passando. Espere Teodor chegar, que é mais seguro para você.

Irina começa ficar assustada. Não tinha pensado naquilo tudo. Teodor, a neve, Lígia, outros funcionários, todos faziam parte de um mesmo esquema, de um mesmo contexto.

Ouve novamente, assim que Lígia deixa o quarto…

– Fica comigo…

Olha em volta, procura vãos de som, procura outras pessoas em volta, mas não acha nada.

– Quem é?? quem está aí? – ela resolve gritar, assustadíssima.

Lígia que ainda estava por perto, volta.

– Chamou Irina? Precisa de algo?

– Quem fala comigo aqui, sem realmente ter ninguém?

– Como assim? – diz Lígia estranhada.

– Alguém fala comigo, diz “fica comigo” mas não tem ninguém em volta. Estou assustada.

– Ah, Irina. Não se assuste. Tudo aqui é madeira, e entre o frio e o quente, a madeira, o vento assobiando, tudo fala mesmo conosco. Não é alguém de verdade, é um elemento da natureza se comunicando, conversando.

Irina se admira da explicação de Lígia. Não tinha pensado nisso. Realmente tem lógica o que ela diz.

Seu celular toca. Nota que Teodor o trouxe do avião. Pelo visto o carregou e o colocou na cabeceira da cama.

Ele esteve lá à noite. Ela não notou.

Sua tela estampa o nome de Gregório. Atende aflita.

– Onde é que você está Irina?? Melhor, sei onde está, o seu diplomata já me avisou, mas quando volta…?

– “Meu diplomata”? O que significa isso, Gregório?

– Modo de falar. Quando volta, Irina?

– Não sei, parece que temos uma nevasca aqui e só será seguro sair amanhã ou depois, preciso conversar com Teodor.

– Teodor? Ah! Já está intima assim?

– Gregório, não tem nada útil para falar? Assim que eu tiver uma resposta, te ligo.

– Está bem, mas você faz falta. Até mais…aguardo suas notícias.

– Ok, Gregório. Até mais.

Irina fica feliz que, afinal Teodor tinha mesmo entrado em contato com Gregório. Ela aproveita e fala com a irmã. A única parente que lhe resta depois da morte da mãe.

A tarde passa lenta e Irina se distrai na biblioteca. Livros clássicos não faltam. Tem até Marquês de Sade.

Teodor volta e jantam juntos.

– Hoje não vai dar para irmos ao jardim. A neve está caindo forte, e então podemos aproveitar para vermos notícias do mundo e ouvirmos música, lermos, o que acha?

– Delícia, bom programa. Quanto tempo essa intempérie costuma durar?

– Se estou bem informado, acontece a cada dez anos. Parece que fomos destinados a ficar juntos por algum tempo.

Irina sorri, entre feliz e apreensiva. Falar com Gregório a tirou um pouco do modo misterioso que as coisas estavam acontecendo até então, mas ficar presa numa nevasca que acontecia a cada dez anos, tornava as coisas misteriosas novamente.

Ela resolveu aceitar seu destino e viver o presente. O que acontecia com ela, com Teodor certamente era novidade para os dois.

Eles foram para a biblioteca após o jantar. Teodor sentou-se ao lado dela.

– Irina, consegui informações da embaixada hoje. Semana que vem você pode voltar para seu país.

Irina não sabe se está feliz ou triste, pois começou a perceber o encantamento que era viver naquele país ao lado de Teodor, mas parece que o que sentia não era correspondido.

Ela se levanta não querendo mostrar sua decepção, mas Teodor continua…

– … no entanto, eu não quero que você vá. Fica comigo.

Então, era o coração dele que ela estava ouvindo. Era ele falando a ela sem palavras, com gestos!

Ela olha para ele que já está bem perto dela novamente. Ele a abraça, trazendo-a para perto e aguarda ansioso sua resposta.

Irina resolve deixar sua alma e seu coração falarem.

– Sim, Teodor, fico com você. O quanto durar, já é suficiente para mim.

A boca dele procura a dela, que corresponde e esse beijo é o prenúncio de algo muito bom. Afinal toda semana será investida em conhecerem um ao outro e o futuro?

O futuro a deus pertence.

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