Por Culpa do Ego
PRÓLOGO
O que você acha de descobrir que, ao contrário do que pensa, você não é admirado por seus dotes sedutores, mas sim desejado como sujeito de pesquisa de campo em alguma tese?
Você não percebe que está sendo usado, mas ela não percebe que está se apaixonando.
Depois de todo seu ego ser baseado em sua aparência física, sedutora, encantadora, desejado por muitas mulheres e invejado pelos homens, depois de ter se deixado obscurecer pela bobeira para parecer acessível, como acha que se sentiria ao descobrir tudo?
E o que você diria se for justamente essa atitude que faz com que você se apaixone? “A essa atitude” está relacionado tanto à do sedutor como à da pesquisadora.
Uma pesquisa que une e modifica as relações. Ouça a história e depois diga o que achou. Se gostar, comente e nos conte seus sentimentos.
Se não gostar, comente também. Podemos usar seu argumento para melhorar! E, obrigado por participar.
A HISTÓRIA
Desde pequeno, ele chamava atenção. Desde pequeno, as mulheres o perseguiam, o amavam, o desejavam… ou como o “filho mais bonito”, ou “o namoradinho perfeito”, ou aquele que toda mãe queria como genro, todo amigo invejava, todo pai “da moça” detestava. Mas, ele não se prestava a nenhum desses papéis. Ele tinha suas próprias convicções de “modo de ser”.
Ele sabia exatamente o efeito que causava, mas fingia que não.
Sorria quando era elogiado, até simulava embaraço. Mas ele acreditava no que fingia.
Ele era alto → 1,90 m de distração coletiva, corpo definido sem parecer escravo da academia, barba curta desenhada como se tivesse sido projetada por um arquiteto emocionalmente instável. Os olhos escuros tinham aquele tipo de profundidade que prometia tudo e entregava quase nada. Como quando tem certeza de que ele te olha, mas o olhar parece fora de foco. Você nunca tem certeza se ele está realmente te enxergando, ou se está somente imaginando.
Chamava-se Tomás. Mas ninguém o chamava assim por muito tempo. Logo virava “meu Tom”, “Tommy”, “ai, Tom”, “não acredito que você fez isso comigo, Tom”.
Ele ria. Sempre ria. E você continua na dúvida se ele ri de você ou para você.
Não que ele fosse cruel, embora tivesse seus momentos, mas Tomás havia descoberto cedo que a melhor maneira de dominar uma situação era parecer inofensivo dentro dela.
Ele se fazia de bobo como quem veste uma fantasia confortável. E, embora se fazendo de bobo, parecia o alfa mais desejado do momento.
As mulheres o perseguiam com estratégias diferentes e resultados iguais: nenhuma ficava por mais de uma noite.
Tomás era um Don Juan de aplicativos, festas, vernissages, cafés conceituais e aniversários de gente que ele nem lembrava como conheceu. Ele entrava num lugar e as atenções se deslocavam como móveis mal arrumados.
Ele dava atenção a algumas das atenções recebidas.
Seu vício interno era simples: marcar presença, conquistar, divertir, sair antes de virar história.
Até que, numa tarde morna demais para decisões importantes, ele entrou num café e a viu, como mais uma de suas conquistas.
Então, ela levantou os olhos. Sorriu de pronto! Ele já começou a se enganar. Tinha certeza de que era para ele. E era. Só que não para ele “conquista”, mas para ele “sujeito da pesquisa”.
Não houve faísca. Houve cálculo.
— Meu possível sujeito à vista!
Qualquer um que já tenha feito um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) ou tese de qualquer natureza entende o prazer que é vislumbrar seu “sujeito” na ponta dos dedos… ou, no mínimo, “em plena vista”.
Ela o analisou como quem observa um fenômeno atmosférico perigoso: bonito, impressionante, mas potencialmente destrutivo.
Ele, claro, entendeu tudo errado.
Ela tinha um caderno grosso, desses que parecem carregar mais segredos do que páginas. Óculos de armação delicada, cabelo preso de um jeito que fingia descuido e denunciava método. Vestia algo entre o elegante e o funcional, como quem não está ali para ser notada, o que, ironicamente, sempre funciona.
Ela olhou para ele. Ele sorriu.
Ela voltou ao caderno. Ele pensou: Pronto. Estou sendo estudado visualmente. E, de certo modo, estava.
O nome dela era Camila. Mas ele ainda não sabia disso.
Ela fazia mestrado. Ele também não sabia disso. Achou que era aquela “atração” que ele gerava em todas as mulheres.
O título provisório da tese era:
“O Ego em Primeiro Lugar: Sedução, Poder e Autoimagem nas Dinâmicas Afetivas Contemporâneas.”
Ela não gostava do título. Achava grande demais para um mundo pequeno demais. Mas também sabia que títulos feios muitas vezes escondem ideias bonitas, e o contrário também.
Ela estava exatamente na pesquisa de campo, coleta de dados, sobre homens que usam o charme como instrumento de regulação emocional.
E então o instrumento “sujeito” sentou-se à sua frente.
— Esse lugar é todo minimalista — disse ele. — Dá até medo de rir alto e quebrar alguma coisa invisível.
Ela levantou os olhos, devagar.
— Pode sentar — disse. — Mas cuidado com as cadeiras. Elas têm autoestima frágil.
Ela fez uma expressão blasé, ele riu, ela anotou.
Confirmando seu ego autocentrado, Tomás achou que ela estava flertando com humor, mas Camila estava coletando material bruto.
— Você vem sempre aqui? — ele perguntou, já no modo automático de aproximação.
— Sempre que preciso observar comportamentos interessantes — respondeu.
Ele piscou.
— Então cheguei na hora certa.
Ela anotou de novo.
E ali, sem que nenhum dos dois percebesse, começou o tipo mais perigoso de relação: a que nasce de um mal-entendido elegante.
Tomás passou a aparecer no café com a pontualidade de quem não sabe que está sendo esperado. Mudava pouco: camiseta bem cortada, sorriso preguiçoso, a barba sempre no ponto exato entre “acordei assim” e “fui planejado por um esteta”.
Camila fingia surpresa. Ele fingia casualidade. E os dois fingiam que aquilo não era um ritual.
— Coincidência bonita essa, né? — ele disse no terceiro encontro “acidental”.
— Acha isso mesmo? — ela pergunta, sorrindo.
Ele inclinou a cabeça.
— Você sempre escreve quando eu falo. Isso é elogio ou… o quê?
— Você acha que é sobre você?
— Sim, tenho essa impressão.
Ela ri, olha para ele.
— Eu também escrevo quando você não está por perto.
— Touchè para você! — diz ele, sentindo que ainda não foi dessa vez que acertou o alvo. Mas que estava ficando interessante, ah! Isso estava.
Camila não fazia perguntas diretas. Preferia deixar que ele falasse como quem dança: sem saber que está sendo coreografado.
— Então, você trabalha com o quê? — ele perguntou.
— Com gente — ela respondeu. — Especialmente com quem sente que tem que esconder-se sob um tipo diferente de personalidade.
— Nossa! Isso foi profundo ou só bonito?
— Não sei, nem sempre o resultado dessas análises é satisfatório.
Ele achou que estava sendo provocado. E estava! Só não entendia a razão, pois o costumeiro charme que conquistava todas não parecia estar funcionando ali.
Tomás falava de si como quem conta piadas: sempre suavizando o peso das coisas.
— Já namorei, claro… mas fico entediado rápido. As pessoas querem que eu vire outra coisa quando gostam de mim.
— E você quer virar o quê? — ela perguntou.
Ele deu de ombros.
— O que eu já sou. Só com menos cobrança.
Ela escreveu: “Resistência ao vínculo → defesa da identidade idealizada.” Mas não mostrou.
Ele tentou ir além. Pequenos toques “sem querer”, elogios que fingiam ser brincadeira.
— Você tem um jeito sério… mas esconde alguma coisa aí. — ele fala apontando o coração dela.
Ela levantou os olhos.
— Estou te obrigando a abrir sua “caixa de Pandora”?
Ele se retrai.
— Do que está falando?
Ela sorriu, pela primeira vez sem querer. Ela parece ter sido descoberta também, mas manteve o mistério.
— Falo do que você esconde por trás desse jeito de Don Juan.
Se fechou rapidamente, percebendo que estava a caminho de ser descoberta, se continuasse se deixando levar. Ela precisava coletar dados, não analisar a postura dele diante dela. Não podia se deixar trair.
Naquela noite, Tomás mandou mensagem. “Você escreve sobre mim até quando não estou aí?”
Ela não responde, ficou olhando a tela por alguns segundos e decide que está prestes a comprometer sua coleta de dados, pelo envolvimento que acontece. Mas, como fazer para prosseguir?
Manter-se fiel à metodologia adotada, ou se deixar levar, adaptando o trabalho à sua própria metodologia e correndo o risco de ter sua tese anulada?
Até onde um envolvimento pode participar de uma coleta de dados?
Ele fica cada vez mais curioso, mais ansioso. Não se lembra de ter sido ignorado assim, por tanto tempo.
Tomás começou a investir mais na conquista. Será que começou a decadência? Não! Outras mulheres ainda o perseguiam, ainda davam mostras de interesse. Camila é que não fazia como as outras.
Ir para o bar, tornou-se rotina. O que antes era esporádico, é frequente agora. Da mesma forma, ela também está lá.
Não se sabe se por birra, provocação, falta de noção ou desespero de causa, no outro dia ele declara:
— Você sabe que eu não fico repetindo mulher, né?
Ela levanta os olhos do caderno, volta ao caderno e anota algo.
— Pode explicar melhor o que quer dizer com isso? Por que isso deve me importar? — finalmente ela pergunta, fazendo um certo esforço para parecer neutra.
— “Pode ser mais um dado a ser coletado se houver resposta pertinente?” — pergunta ela com seus botões.
— Depende de como você prefere ser desejada.
Ela fechou o caderno.
— Por que você supõe que as mulheres fazem juízo a respeito do que você disse?
Ele inclinou-se um pouco mais perto.
— Às vezes a gente começa sendo desejado… e termina sendo compreendido no meio da bagunça.
— Está falando de experiência própria? Parece que isso é o seu dia a dia. Está justificando seu modo de ser?
Ele não responde, olha intensamente para ela.
O espaço entre eles ficou perigoso. Ela se afasta. Levanta-se e vai embora. Já percebeu que aquele caminho precisa ser mudado, ou precisa mudar seu sujeito da tese.
Naquela noite, Camila escreveu mais do que devia: “O objeto de estudo começa a me olhar como sujeito. Risco ético: quando o pesquisador vira possibilidade afetiva.” Mas ainda não era amor. Era tensão.
Tomás começou a sentir algo estranho: um certo aperto no peito, uma vontade meio incontrolável de vê-la de novo, até um medo de que ela não estivesse lá… era paixão? Ainda não… era desafio, era o que ele gostaria de pensar.
Camila não cedia, não recuava, não se oferecia. E isso, para ele, era uma forma sofisticada de provocação.
— Você nunca me diz “sim” — ele reclamou, sorrindo. — Mas também nunca diz “não”.
— A quais propostas, feitas por você, está se referindo?
Tomás fica parado, estranhado. Realmente não havia percebido que esperava que só sua frequência de vê-la, sua aparência e seus sorrisos deveriam implicar em propostas. Era tudo o que ele sempre fazia em conquistas anteriores.
Mas Camila era esquisita, de fato. O que toda, ou quase toda mulher fazia, ela não fazia. Ela não “entendia” meias palavras, sugestões sutis de sedução, convites somente implícitos.
— Espera que eu seja explícito? — explode ele, de repente.
— Na verdade, não espero nada. Você é que está inconformado pela minha “não reação” aos seus modos supostamente sedutores.
— E não são sedutores?
— Nem tudo que atrai quer possuir.
Ele riu.
— Você fala como se estivesse me estudando.
Ela engoliu o impulso de dizer a verdade. Ela sorri, olhando para ele. Percebe que mesmo ela está saindo da posição de “coletora de dados” novamente.
— Talvez eu esteja tentando te entender.
Ele se aproximou o suficiente para que a proximidade tivesse cheiro, calor e perigo.
— Então começa pelo básico: eu não sei ficar longe de quem me desafia.
Ela sentiu o corpo reagir, sem que ela pudesse controlar. Hesitou, disfarçou, pegou a caneta de novo e anotou.
A partir daí, Tomás intensificou a ofensiva. Convites que pareciam brincadeira:
— Vem comigo hoje. Prometo não ser inesquecível.
— Essa é uma promessa impossível — ela respondeu, ela fala e se arrepende, mas já falou.
— Eu gosto de promessas difíceis.
Camila aceitou. Tentava manter juntos os dois personagens que ela precisava atuar: aquela que coleta dados, aquela que já sentiu estar sucumbindo ao seu objeto de estudo.
Eles saíram juntos algumas vezes, sempre em espaços públicos, em territórios neutros.
Ele tentava criar momentos íntimos: um toque no rosto, um comentário sussurrado (em que ela arrepiava — e ele também ao sentir seu aroma), um olhar que durava mais do que devia, até que um deles ficasse embaraçado.
Ele pesquisava como ser sedutor, desenvolvendo mais artimanhas do que ele nunca precisou antes.
Ela resistia como quem segura uma taça cheia demais: qualquer inclinação errada derramaria tudo.
Por dentro, já não era método. Era um conflito.
“Estou começando a querer o que não posso usar como dado”, ela escreveu.
Numa noite chuvosa, eles se abrigaram sob a marquise de um teatro fechado.
— Você tem medo de mim — ele disse.
— Não — ela respondeu. — Tenho medo do que você representa.
— O que eu represento?
— A tentação de abandonar o controle. — ela confessa mesmo sem querer.
Ele sorriu feliz.
— E você acha mesmo que controle é sinônimo de felicidade?
Ela olhou para a chuva como quem pede ajuda ao clima.
— Não. Mas pode me poupar de confusão.
Ele se aproximou lentamente e tocou o queixo dela, sem pedir.
— Segurança é só a versão educada do medo.
Ela não se afastou, mas também não avançou.
— Não está conseguindo evitar, não é?
— Do que está falando?
— Estou falando do que você esconde querendo parecer simplório.
Ele não responde, não acha que vale a pena. Aproxima-se mais dela, aumentando a tensão.
A tensão quase virou beijo, mas ela se vira e sai andando na chuva. O deixa plantado sob a marquise.
Naquela noite, Camila escreveu: “Hipótese em risco: talvez o ego dele não seja o centro. Talvez seja só um escudo bonito.”
Ela já não o via como “sujeito”, mas agora como homem. Ele já não a via como conquista de uma noite, mas como uma exceção.
E quando alguém que vive de conquistar encontra quem não se deixa conquistar… não nasce um romance. Nasce uma obsessão delicada.
E isso, ela sabia, era o começo do fim de qualquer pesquisa honesta.
Tomás percebeu antes de Camila que aquilo já não era jogo.
Mesmo na dúvida de em que aquilo tinha se transformado, ela continuava indo lá, sentava-se na mesma mesa pedindo o mesmo cappuccino, e com o mesmo caderno grosso em que estava ainda sempre anotando coisas.
Mas ela não podia evitar de sorrir mais quando ele chegava. Nem evitar que seu coração marcasse presença.
Ele começou a mudar pequenos hábitos: chegava mais cedo, ficava mais tempo, perguntava coisas que não tinham charme como resposta.
— Qual foi a última vez que você teve medo? — ele perguntou, numa tarde sem vento.
Ela levantou os olhos devagar.
— Hoje de manhã.
— Medo de quê?
— De errar.
Ele sorriu.
— Eu tenho medo de acertar. Porque quando acerto, fico.
Ela fechou o caderno.
Isso já não era dado. Era convite.
Eles já não conseguiam evitar mais: mãos que demoravam a se soltar, olhares que se perdiam, silêncios que falavam alto demais.
— Venha conhecer meu lugar favorito. — disse ele.
— Que lugar é esse? — diz ela, embora já desconfiando do que seja.
— Venha comigo, eu lhe mostro. — ele fala e pega na mão dela.
Ela disse a si mesma que era “observação em campo”. O corpo riu dessa desculpa. E ela foi.
O lugar dele era bonito demais para ser neutro: luz baixa, música sem palavras, cheiro de algo que não era perfume, mas presença.
— Você não tem cara de quem recebe muita gente aqui — ela disse.
— Porque eu não recebo. É só meu. Você é a primeira que trago aqui.
Ela quis acreditar. Sorriu e acreditou.
Ele se aproximou.
— Mas você… você está ficando.
Ela sentiu o perigo na frase. Ele a trouxe para bem perto. Inclinou-se para ela.
A beijou e foi como se estivesse procurando algo que não sabia nomear. Não foi ansioso, nem voraz, foi curioso. Como quem quer descobrir e não conquistar. Ela correspondeu. Depois se afastou.
— Isso não pode virar hábito. — ela diz.
— Por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque você não sabe quem eu sou.
— Então, me conta.
— Não, deixa como está. Melhor assim. — e ela pega a bolsa e vai embora.
Ela sai tão apressada que esquece a agenda.
Depois de um tempo ensimesmado, ele nota a agenda e pensa que é uma boa desculpa para reencontrá-la.
Curioso folheia devagar. Nota os desenhos, as agendas e pensa que está realmente fazendo algo que não devia, mas… não é um diário, é uma agenda.
— Posso até saber se ela tem mais alguém na vida dela. Talvez isso me esclareça o modo diferente que ela é. — são os pensamentos dele para se desculpar de uma ação que ele mesmo não julga adequada.
Uma repetição em vários dias e semanas começa a chamar a atenção dele.
Reunião da tese: Definir tema: “O Ego em Primeiro Lugar: Sedução, Poder e Autoimagem nas Dinâmicas Afetivas Contemporâneas.”
Reunião da tese: Encontrar o sujeito.
Reunião da tese: Verificação de sujeito adequado.
Reunião da tese: Sujeito aprovado.
Reunião da tese: Coleta de dados: sujeito — Tomás Salieri.
Tomás sorriu para ele, por ele. Um sorriso triste. Sem graça. Desenxabido. Por dentro, algo desmoronou com classe.
Ficou em dúvida se devia voltar ao café, mas a curiosidade, indignação, chateação foi maior. Decidiu ir e confrontar o seu objeto de desconforto: Camila!
Ele foi ao café no dia seguinte diferente: mais quieto, mais sério, menos personagem.
Ela sorriu ao vê-lo. Não tão indiferente como costumava, mas não esperava o que ocorreu em seguida.
Ele se sentou na cadeira à frente dela.
— Então eu sou um capítulo — ele disse.
Ela congelou.
— Tomás…
— Não. Deixa eu adivinhar.
Você não se apaixonou. Você me estudou.
Ela tentou explicar:
— Eu não planejei sentir o que senti.
— Mas planejou usar.
Silêncio. Ele se levantou.
— Você sabe o que dói? Não é ser analisado. É ser desejado como objeto e não como… como eu.
Ela ficou com os olhos cheios de algo que não cabia em nota de rodapé.
— Eu me apaixonei depois — ela disse.
Ele virou-se:
— E eu me apaixonei achando que era o primeiro.
Ele saiu.
E, pela primeira vez na vida, o homem que não ficava… quis ficar.
E não soube como voltar.
Camila não foi atrás dele no mesmo dia. Nem no seguinte. Nem no outro.
Pela primeira vez, ela não sabia como falar sem transformar o sentimento em argumento. Aliás, que mal haveria nisso?
Ela tentou escrever. Rasgou. Tentou de novo. Rasgou mais bonito. Não sabia se haveria volta.
O título da tese mudou naquela semana: “Entre o Espelho e o Outro: Quando o Ego Aprende a Escutar.”
Soava menos arrogante. Mais verdadeiro.
Tomás, do outro lado da cidade, estava vivendo algo inédito: solidão sem plateia. Inacreditável para ele, um sedutor nato, mas verdade nua e crua.
Ele saiu, encontrou gente, foi desejado, mas tudo parecia rascunho de algo que já tinha sido escrito direito uma vez.
Ele descobriu que não sentia só falta do corpo dela. Sentia falta do todo, do jeito dela, do sorriso dela e até das respostas ensaiadas parecendo corretas.
Numa tarde qualquer, ele foi ao café. Ela estava lá. Esperou por ele durante o tempo todo. Não teve coragem de procurá-lo pessoalmente, mas teve coragem de esperar vê-lo de novo.
Eles se olharam como quem pede desculpa com os olhos.
— Eu errei — ela disse primeiro. — Como pesquisadora. E como mulher.
— Eu errei — ele respondeu. — Como homem. E como personagem.
Ela respirou fundo.
— Você nunca foi só um objeto. Mas eu te tratei assim antes de te tratar como… você. Mas percebi que comecei a te amar.
— E eu te tratei como jogo antes de te tratar como escolha. Mas percebi que comecei a te amar.
Silêncio. Mas agora era um silêncio possível.
— Minha tese mudou — ela disse. — Porque você mudou.
— Eu mudei porque você ficou — ele respondeu.
Ela sorriu triste.
— E se eu não tivesse ficado?
— Eu continuaria passando. Mas agora eu sei que isso era só medo bonito.
Ele estendeu a mão.
— Fica agora… comigo, sem tese. E sem me estudar.
Ela segurou a mão dele.
— Fico. Mas sem você fugir quando sentir demais. Sinta demais comigo junto.
Eles se olharam como quem olha o que ama. Se beijaram ali mesmo, como quem aprende um idioma novo com a boca.
Um beijo longo que prometia muito, que ensinava muito e que demonstrava muito carinho e amor.
Mais tarde, no apartamento dele, a proximidade virou calor. A entrega foi total. Fundiram-se num só corpo, em comunhão com o que sentiam no momento e com a promessa disso continuar por muito tempo.
Eles se tocaram para sentir um ao outro. Riram no meio do beijo. Erraram o ritmo. Acertaram no riso. Ele tirou a blusa dela devagar demais de propósito. Ela reclamou e depois agradeceu.
— Você sempre foi assim lento? — ela provocou.
— Não. Mas agora eu quero lembrar.
E lembraram do cheiro, da pele, do jeito que o corpo também aprende quando a mente para de fugir.
Depois, deitados, ele disse:
— Sabe o que é mais estranho?
— O quê?
— Eu ainda tenho ego. Mas agora ele não grita. Ele escuta.
Ela apoiou a cabeça no peito dele.
— E eu ainda estudo pessoas. Mas agora eu sei: algumas a gente não analisa. A gente vive.
Ele sorriu.
O Don Juan moderno e Camila, doutoranda, haviam aprendido algo soberbo:
Que conquistar é fácil. Difícil é ficar quando o outro vê quem você é, e ainda assim escolhe você.
O que você achou? Gostou? Gostaria de um final diferente? Afinal, é possível isso, porque a vida é cheia de surpresas e, como tal, permite todo tipo de imaginação e sonho adaptado ao considerado “oficial”.
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