Aquela noite de autógrafos
PRÓLOGO
Por causa de uma chave perdida.
Um acidente divertido. Uma investida em sedução e um suspense sobre uma chave desaparecida.
Quem sabe, depois disso, viria o amor, a paixão?
Nesse imbróglio todo, Agnes e Gabriel se conhecem, se conectam, se atritam e, se quiser saber se isso vira paixão, continue conosco.
Ouça sobre os encontros dessa dupla. Vai se divertir muito e testemunhar que o amor e a amizade podem se originar de algo inusitado.
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A HISTÓRIA.
A noite era daquelas organizadas demais para algo dar errado.
O salão vermelho do hotel fervilhava sob lustres exageradamente dramáticos. A editora patrocinadora do evento havia transformado o espaço em um altar literário para o autor do momento: Gabriel Valença, o homem que escrevia romances como quem sussurra pecados no ouvido.
A fila serpenteava pelo corredor. Mulheres de todas as idades seguravam seus exemplares como quem segura uma promessa. Algumas estavam maquiadas demais para “apenas um autógrafo”. Outras fingiam casualidade, mas treinavam sorrisos no reflexo do celular.
Agnes não fazia parte da fila. Ela só era curiosa.
Tinha descido para caminhar pelo hotel depois de um banho demorado, vestindo jeans, camiseta branca e uma jaqueta leve. Saiu com apenas a chave do quarto no bolso. Erro número um.
Quando ouviu o burburinho no salão vermelho, foi espiar, pensou que fosse algum tipo de coquetel. Aproximou-se. Viu mulheres agitadas, livros erguidos no ar, flashes. E, antes que pudesse entender, estava no meio de um empurra-empurra digno de liquidação de Black Friday literária.
— Ei! Calma! — tentou dizer.
Tarde demais. Uma garota saltou à sua frente. Outra puxou seu braço. Um cotovelo acertou suas costelas, e alguém, desviando de uma rasteira, a empurrou para a frente. E então aconteceu…
Agnes foi lançada para frente como um míssil involuntário. Seu corpo atravessou a pilha de livros sobre a mesa de autógrafos. As capas voaram. Canetas rolaram.
Ela caiu sobre os livros, sobre o autor, e ambos foram ao chão.
Silêncio. Um segundo inteiro. Dois.
Agnes nem piscou e o rosto dela estava a centímetros do dele.
Gabriel, ainda no chão, tinha uma expressão que misturava surpresa, choque… e algo perigosamente divertido.
— Isso — ele murmurou — definitivamente não estava na programação.
Ela sentiu o calor do corpo dele sob o seu. O perfume. A respiração controlada demais para alguém que acabara de ser atropelado por uma desconhecida.
— Eu… eu fui empurrada! — disse, tentando se erguer, mas escorregando nos livros espalhados.
Os seguranças chegaram como se ela fosse uma ameaça internacional. Foram separados. Gabriel foi levantado com cuidado cerimonial. Agnes foi puxada pelo braço.
— Não! Espera! Eu só queria ajudar! — tentou explicar, ajoelhando-se para recolher os livros, mas não foi ouvida.
Os seguranças já estavam ocupados demais protegendo o “patrimônio literário da nação”.
Ela foi conduzida para fora. Sem direito à defesa. Sem direito a desculpas. Sem direito ao sorriso maroto que ainda pairava nos lábios do autor enquanto ele observava a cena. Quinze minutos depois, Agnes estava no saguão do hotel, tentando manter a dignidade intacta… tentando.
Foi quando levou a mão ao bolso da jaqueta, estava vazio. Ela apalpou de novo. Nada. O outro bolso. Nada. Um frio percorreu sua espinha.
— Não… não, não, não…
A chave do quarto 1033 havia desaparecido.
Seus documentos estavam dentro do quarto, a bolsa estava dentro do quarto, e a paciência estava fora do corpo.
Na recepção, a funcionária recém-chegada mantinha o sorriso protocolar.
— Documento, por favor.
— Está no quarto.
— Sem documento, não posso liberar uma cópia.
— Eu acabei de fazer check-in!
— Entendo, senhorita, mas são normas de segurança.
Normas! Agnes queria gritar. Mas sentou-se no sofá do saguão, derrotada. Refez mentalmente o trajeto: jardim, academia, piscina, bar… O bar.
Ela lembrava do homem lindo que estava lá antes do evento começar. O mesmo que agora estava sendo idolatrado no salão vermelho. O mesmo sobre quem ela havia literalmente caído. Foi quando uma voz ao lado dela quebrou seus pensamentos:
— Você é a mulher-bomba literária, não é?
Ela virou. E deu de cara com Gabriel Valença. Sem mesa, sem fila, sem multidão, apenas ele… e aquele sorriso perigoso.
— Acho que você derrubou meus livros — ele completou.
— Eu fui empurrada! — respondeu automaticamente.
— Foi a melhor parte da noite.
— Como é?
— Admito que não costumo receber leitoras tão… intensamente.
Agnes cruzou os braços.
— Eu não sou sua leitora.
— Ainda. — e o sorriso dele aumentou.
Ela respirou fundo. Não era hora para aquilo.
— Olha, eu acho que perdi minha chave quando caí em cima de você. Será que não ficou presa em algum bolso da sua jaqueta?
Ele ergueu as sobrancelhas, interessado.
— Você quer revistar meus bolsos?
— Quero a minha chave.
Ele riu. Baixo. Calmo.
— Estou hospedado aqui também. — Fez uma pausa estratégica. — Vamos até meu quarto. Posso trocar de jaqueta e verificar.
Agnes hesitou. Mas precisava daquela chave. E ele parecia genuinamente disposto a ajudar. Ou perigosamente disposto.
— Tudo bem — disse, levantando-se.
Ele ofereceu o braço, e ela não pegou. Ele fingiu ofensa.
— Você não confia em mim?
— Eu acabei de cair em cima de você no meio de uma guerra civil literária. Acho que confiança pode esperar.
Ele sorriu ainda mais, com a visível irritação dela.
— Excelente. Gosto de mulheres prudentes.
E começaram a caminhar em direção ao elevador panorâmico.
O hotel era aberto por dentro. O elevador subia pelo centro do hall, totalmente transparente. Visibilidade total. O tipo de lugar onde nada acontece sem virar comentário. As portas se fecharam. E enquanto o elevador começava a subir…
As luzes piscaram. Uma vez… duas, e apagaram. O elevador parou suspenso no meio do vão. Silêncio! Gabriel virou-se lentamente para ela.
— Você acredita em destino?
Agnes cruzou os braços.
— Não, mas começo a acreditar em azar.
No escuro, ele riu e o som da risada ecoou pequeno demais para aquele espaço fechado.
O elevador parou com um solavanco suave, não o suficiente para ser dramático… mas suficiente para aproximá-los alguns centímetros.
O hall redondo do hotel ficou na penumbra. Apenas luzes de emergência avermelhadas começaram a pulsar nos corredores. Do lado de fora, hóspedes levantavam os rostos, curiosos. E ali estavam eles. Suspensos. Num elevador panorâmico.
Totalmente visíveis.
— Isso é sério? — Agnes murmurou, olhando para baixo.
Estavam entre o terceiro e o quarto andar. Alto o suficiente para não pular. Baixo o suficiente para serem espetáculo.
Gabriel apertou o botão de emergência. Nada, sem resposta, depois, um chiado.
— Senhor Valença? — a voz da recepção saiu metálica. — Tivemos uma oscilação elétrica. Já estamos acionando o gerador.
Ele olhou para Agnes.
— Viu? Não é azar. É exclusividade. Nem todas conseguem um momento a sós comigo, suspensas no ar.
— Eu não queria esse tipo de momento.
— Ainda. — ele diz, mantendo o sorrisinho maroto.
Ela revirou os olhos, mas não se afastou. O espaço era pequeno demais para fingir indiferença confortável. E havia algo ali. Havia uma eletricidade paralela à falha do prédio.
Agnes cruzou os braços, tentando ignorar o fato de que, com a iluminação vermelha, o rosto dele parecia indecentemente bonito.
— Você sempre é assim? — ela perguntou.
— Assim como?
— Convencido.
Ele inclinou a cabeça.
— Não. Só quando uma mulher cai em cima de mim com tanta determinação.
Ela soltou um riso involuntário.
— Maldição! — ele escutou, mas… ignorou.
— Finalmente um sorriso. Eu estava começando a achar que você me odiava.
— Eu não odeio. Só não gosto de homens que acham que o mundo é uma fila para eles.
— Eu não acho isso.
— Acha sim. Você e suas leitoras guerreiras.
Ele se aproximou um passo… pequeno, sutil.
— Você estava com ciúmes?
Ela quase engasgou.
— De quê?!
— Da guerra civil literária.
— Eu estava tentando sobreviver à guerra civil literária!
Ele riu novamente. Mais baixo agora, mais perto. 3
O elevador balançou levemente, talvez pelo vento do átrio aberto. Instintivamente, Agnes segurou o braço dele.
Ninguém disse uma palavra sequer, o contato foi rápido, mas nenhum dos dois soltou imediatamente. Os olhos dela desceram para a boca dele. Erro estratégico, os dele já estavam ali.
— Se eu disser que gostei de você ter caído em cima de mim… você vai me bater? — ele perguntou, quase em tom confidencial.
— Depende.
— De quê?
— De como você pretende repetir a cena.
Ele arqueou uma sobrancelha. O clima mudou um grau, um único grau, mas suficiente.
A luz de emergência piscou novamente. Do lado de fora, duas adolescentes apontavam para o elevador, rindo e tirando fotos discretas. Agnes percebeu.
— Estão olhando.
— É! Deixe que olhem.
— Isso é um hotel, não um reality show.
— Discordo. Todo hotel é um reality show mal disfarçado.
Ela soltou o braço dele.
— Ótimo! Então, fique à vontade. Eu prefiro não ser manchete do tipo: “Desconhecida persegue autor e fica presa com ele no elevador”.
Ele aproximou o rosto do dela, mas sem tocar.
— Você não perseguiu, você caiu… em cima… é diferente.
— Para os seguranças, não pareceu.
Ele suspirou.
— Jota exagera. Ele acha que sou patrimônio tombado.
— Você age como se fosse.
— E talvez eu esteja cansado de ser.
Isso a fez parar. Ele estava sério, pela primeira vez.
A iluminação vermelha suavizava as feições dele, tirava a aura pública. Ali não havia palco, nem mesa, nem fila, só dois adultos presos no ar.
— Por que você estava no bar antes do evento? — ele perguntou.
— Porque eu estava hospedada aqui.
— Sozinha?
Ela estreitou os olhos.
— Isso é relevante?
— Bastante.
— Por quê?
Ele se inclinou um pouco mais.
— Porque estou tentando decidir se te convido para jantar quando sairmos daqui… ou se vou precisar enfrentar um namorado irritado.
Ela riu.
— Você não perde tempo, não é?
— Elevadores parados nos ensinam que o tempo é precioso.
Um novo silêncio mais denso. A respiração dele estava mais próxima agora, ela sentia.
E, pela primeira vez, Agnes não sabia se queria recuperar a chave… ou prolongar o apagão. O interfone chiou novamente.
— Senhor Valença? O gerador está quase restabelecido.
Ele não respondeu imediatamente.
Os olhos dele ainda estavam nos dela.
— Ainda dá tempo — ele murmurou.
— Tempo para quê?
Ele aproximou-se o suficiente para que a resposta fosse quase um segredo.
— Para testar se a química funciona fora de uma queda acidental.
O coração dela fez algo inconveniente, mas antes que qualquer decisão imprudente fosse tomada… as luzes voltaram brancas, fortes, expondo tudo.
O elevador voltou a subir devagar e parou no décimo primeiro andar. As portas se abriram. Duas senhoras estavam ali, prontas para entrar. Congelaram ao reconhecer Gabriel. Depois olharam para Agnes. Depois, para a distância suspeitamente pequena entre eles. Agnes deu um passo para trás.
— Seu andar — ela disse, profissional demais.
Ele segurou a porta antes que fechasse.
— 1108. É o meu quarto. — ela piscou, hesitou. — Então venha… sua chave, lembra?
Ele saiu do elevador. Ela hesitou apenas dois segundos e saiu atrás. No fundo do corredor, uma camareira observava discretamente. O hotel adorava histórias e aquela estava só começando.
O corredor do décimo primeiro andar era silencioso demais para quem tinha acabado de sair de um elevador que virou atração turística.
Agnes caminhava dois passos atrás de Gabriel, por pura prudência estratégica.
— Você sempre leva mulheres desconhecidas para o seu quarto? — ela perguntou.
Ele abriu a porta com o cartão.
— Só as que me derrubam no chão publicamente.
Ela entrou antes que pudesse repensar. Erro número dois.
O quarto era amplo, elegante, com janelas de vidro que davam para o mar. A luz agora estava normal, branca, limpa e quase indecente depois da atmosfera vermelha do elevador.
A primeira coisa que ela percebeu foi que não havia nenhum caos ali. Nenhuma bagunça masculina típica. Tudo organizado. Camisa dobrada sobre a poltrona. Sapatos alinhados. Mesa com manuscritos revisados.
— Você é metódico — ela comentou.
— Eu escrevo sobre paixão. Preciso compensar com organização.
Ela soltou um “hum” desconfiado.
— A outra jaqueta está ali — ele apontou para a cadeira perto da janela.
Agnes caminhou até lá. Pegou a peça. O tecido ainda guardava o perfume dele, mais suave que no salão, mais íntimo. Ela enfiou a mão no bolso direito. Nada! No esquerdo, nada! No bolso interno, seus dedos tocaram algo metálico. Ela congelou.
— Achei — murmurou.
Mas antes de puxar hesitou, porque a proximidade dele estava diferente agora. Ele tinha se aproximado sem que ela percebesse, estava atrás dela, perto demais.
— Então, eu sou oficialmente inocente — ele disse baixo.
— Não exatamente, você ainda é convencido.
Ela puxou o objeto. Mas não era a chave do quarto 1033. Era um chaveiro diferente, preto, com um número. Ela virou lentamente.
— Essa não é a minha.
Ele sorriu.
— Felizmente.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— O que você quer dizer com “felizmente”?
Ele deu um passo à frente. E agora estavam muito perto. Sem livros caindo, sem seguranças, sem elevador parando. Só silêncio.
— Quero dizer que se você tivesse encontrado sua chave agora… teria ido embora.
O coração dela reagiu de novo. Traidor!
— Eu ainda posso ir embora.
— Pode.
Ele não a tocava. Mas a presença dele era quase um toque.
— E você vai? — ele perguntou.
Ela sustentou o olhar.
— Eu vim buscar minha chave.
— E encontrou a minha.
Ela segurou o chaveiro entre os dedos.
— Isso parece metáfora barata de escritor famoso.
Ele riu.
— Talvez eu esteja testando uma nova cena.
Ela finalmente se afastou um passo.
Precisava de ar.
— Você faz isso com frequência?
— O quê?
— Transforma tudo em tensão calculada?
Ele ficou sério outra vez.
— Não é calculado.
E ali havia algo verdadeiro demais para ser jogo.
Agnes desviou o olhar para a mesa.
E então viu. Sobre o criado-mudo. Algo pequeno, prateado. Seu coração deu um salto. Ela atravessou o quarto em dois passos, pegou o objeto, virou na mão.
Sua chave. Ela ficou parada, confusa.
— Como…?
Ele franziu a testa.
— Isso não estava aí antes.
Ela o encarou.
— Está insinuando que eu deixei cair aqui?
— Não. Estou tentando entender como sua chave veio parar no meu quarto.
Pairou o silêncio. Um silêncio diferente agora, nada sensual, mas investigativo. Um olhando para o outro com expressões de dúvida, desconfiança.
Ela caminhou lentamente até ele. Ergueu a chave na altura dos olhos dele.
— Você me seguiu antes do evento?
Ele pareceu genuinamente surpreso.
— O quê?
— No bar. — diz ela, chacoalhando o dedo. — Você estava lá. Depois eu fui para o salão, depois aconteceu o caos, depois eu fui expulsa e agora minha chave está no seu quarto.
Ele deu um passo atrás. Incrédulo!
— Você acha que eu…?
Ela respirou fundo. Não queria parecer paranoica, mas também não queria parecer ingênua.
— Eu não sei o que acho.
Ele passou a mão pelo cabelo, realmente atrapalhado.
— Agnes, eu não sabia nem seu nome até cinco minutos atrás.
Ela percebeu, ele não sabia mesmo. Mesmo assim, ela não se rende.
— Você não perguntou.
— Porque eu estava ocupado sendo atacado por leitoras.
Ela quase sorriu… melhor, sorriu, mas disfarçou, mas algo não fechava. Ela segurava a chave, que definitivamente era dela e que de fato estava no quarto dele.
Ele caminhou até a porta. Abriu. Olhou para o corredor. Vazio. Fechou de novo.
— Eu não brinco com esse tipo de coisa — ele disse mais baixo. — Minha carreira não sobreviveria a escândalos ridículos.
Ela cruzou os braços, querendo muito acreditar.
— Então temos um mistério.
Ele a encarou. E um sorriso mais ameno voltou aos lábios dele.
— Ou temos destino.
— Se você disser “destino” mais uma vez, eu jogo essa chave pela janela.
Ele riu, mas agora havia algo diferente no ar. Além da atração, havia curiosidade, desafio. Ela caminhou até a porta e girou a maçaneta. Parou e virou-se para ele.
— Obrigada por… ajudar.
— Não ajudei muito.
— Ajudou o suficiente.
Ela levantou a chave.
— Mas isso ainda não está explicado.
Ele encostou na parede.
— Então, acho que você vai ter que me encontrar de novo para investigar.
Ela abriu a porta.
— Não conte com isso.
— Eu conto, com certeza.
Ela saiu sorrindo, virando-se rapidamente para não ser vista, nem pega.
O corredor parecia mais longo agora. Ela caminhou até o elevador. O coração acelerado com a chave finalmente na mão. Entrou. As portas se fecharam. E só então percebeu que o chaveiro não era dela.
O número era 1033. Mas o chaveiro não era o dela. O dela era simples. Aquele tinha o símbolo do hotel gravado em relevo dourado.
Ela olhou pelo vidro panorâmico do elevador. Ele descia.
E, pela primeira vez naquela noite, Agnes sorriu. Isso ainda não tinha acabado.
O elevador desceu devagar demais para alguém com pensamentos acelerados.
Agnes olhava para o chaveiro na própria mão. Número 1033. Mas não era o dela. O dela era simples, prateado, sem logotipo. Aquele tinha o brasão dourado do hotel gravado em relevo.
Ou seja: alguém tinha feito uma cópia. E deixado no quarto de Gabriel. Ela respirou fundo. Isso deixava a história menos romântica… mas mais interessante.
Ela desce para o saguão.
Quando o elevador se abriu no térreo, já estava tudo mais calmo. O apagão já tinha virado comentário leve entre hóspedes animados. Ela caminhava decidida até a recepção quando ouviu:
— Eu sabia que você não ia embora assim.
Gabriel, claro!
Ele vinha atrás dela, sem paletó agora, mangas dobradas até o antebraço. O autor famoso parecia menos personagem e mais homem.
— Você me seguiu — ela disse, sem parar de andar.
— Eu estava no elevador seguinte.
— Coincidência demais para uma noite só.
Ele acompanhou o passo dela.
— Você percebeu, não foi?
Ela ergueu o chaveiro.
— Essa não é a minha chave.
Ele olhou em silêncio e, em seguida, respondeu.
— Não.
— Então alguém fez uma cópia. — ela afirma.
— Ou alguém trocou.
Ela parou, virou-se para ele.
— Por quê?
Ele inclinou o corpo na direção dela, voz mais baixa.
— Porque alguém pode querer que pareça que você esteve no meu quarto.
O ar mudou. Aquilo já não era só flerte.
— Isso é ridículo.
— Eu sou o “autor do momento”, lembra? Uma foto mal enquadrada vira manchete.
Ela sentiu um arrepio e nem foi por ele, dessa vez, mas foi de compreensão. No átrio aberto, do outro lado, duas mulheres cochichavam olhando para eles.
— Estão olhando de novo — Agnes murmurou.
— Estão sempre olhando.
Ela respirou fundo.
— Eu não faço parte do seu enredo de escândalos.
— Nem eu. — retruca ele.
— Você tem inimigos?
Ele deu um meio sorriso cansado.
— Todo mundo que vende muito, tem.
Ela analisou o rosto dele. Não havia ironia agora.
— E fãs obcecadas?
Ele soltou uma risada divertida.
— Pois é! Algumas confundem literatura com posse.
Agnes cruzou os braços.
— Ótimo. Então talvez uma delas tenha decidido criar uma narrativa.
Ele inclinou a cabeça.
— Você é inteligente demais para ser apenas a mulher que caiu em cima de mim.
— E você é menos idiota do que eu pensei.
— Eu aceito como elogio. — diz ele, encolhendo os ombros.
Ela começou a andar novamente, dessa vez em direção ao salão vermelho.
— Onde você vai? — Gabriel pergunta.
— Voltar ao início.
O salão estava vazio agora. Apenas algumas cadeiras desalinhadas e a mesa reorganizada.
Mas havia alguém ali, Jota, o segurança. Ele estava conversando com uma funcionária. Quando viu Agnes, o maxilar dele endureceu.
— A senhorita de novo.
— Eu só quero saber uma coisa — ela disse, firme.
Gabriel aproximou-se ao lado dela. Jota imediatamente mudou o tom.
— Senhor Valença.
— Jota, alguém pegou algum objeto do chão depois da confusão?
O segurança hesitou um segundo a mais do que deveria. Agnes percebeu. Gabriel também.
— Apenas livros — respondeu ele.
— Tem certeza? — Agnes pressionou.
A funcionária ao lado desviou o olhar. Silêncio. Gabriel cruzou os braços.
— Jota! — exclama Gabriel, levantando as sobrancelhas e o encarando.
O nome veio calmo, mas carregado. O segurança suspirou.
— Uma moça pegou algo pequeno. Eu achei que fosse um brinde que tivesse caído.
Agnes sentiu o estômago apertar.
— Como era ela?
— Morena, vestido azul. Disse que era assessora.
Gabriel ficou imóvel.
— Eu não tenho assessora.
Reina um silêncio pesado. Agnes levantou o chaveiro.
— Ela pode ter feito uma cópia e deixado no seu quarto.
— Ou entrou no meu quarto — ele completou.
Os dois se olharam. Agora estavam do mesmo lado.
— Você deu acesso a alguém? — Agnes perguntou.
— Só à equipe do hotel. — Jota disse, embaraçado. — Senhor, durante o apagão houve muita movimentação…
Gabriel virou-se para ele.
— Você sabe o que isso significa se alguém estiver tentando me comprometer, não é?
Jota engoliu seco. Agnes respirou fundo.
— Eu não quero meu nome ligado a isso. — ela disse.
Ele virou-se para ela.
— Nem eu quero você ligada a isso.
A frase saiu mais íntima do que deveria. Eles ficaram a poucos centímetros um do outro. O salão vazio ampliava cada respiração.
— Então, fazemos o quê? — ela perguntou.
Gabriel pensou um segundo, em seguida diz:
— Jantamos.
Ela olha para ele, sem entender nada.
— Isso não é hora para jantar!
— Justamente por isso.
Ela quase riu, mas se conteve.
— Você resolve mistério com comida?
— Eu resolvo tensão com conversa.
Ele deu um passo mais perto.
— E, Agnes… se alguém está tentando criar uma história… eu prefiro escrever a minha versão antes.
Ela sentiu aquele calor de novo, mas dessa vez vinha misturado com adrenalina.
— Você está me convidando para ser sua cúmplice?
Ele inclinou o rosto, perigosamente próximo.
— Estou te convidando para confiar em mim.
O coração dela bateu mais forte. Não era mais só atração. Era escolha. Ela respirou fundo.
— Uma condição.
— Qual?
— Se isso virar escândalo, eu dou entrevista dizendo que você ronca.
Ele riu alto pela primeira vez. Uma gostosa gargalhada.
— Fechado.
Ela virou-se para sair. Ele segurou o pulso dela, bem suave, só para senti-la. Os olhos se encontraram e dessa vez não havia plateia.
— Só para constar — ele murmurou — eu ainda prefiro a versão em que você cai sobre mim por vontade própria.
Ela se inclinou levemente, quase tocando os lábios nos dele. Quase.
— Não abuse da sorte, escritor. — E saiu.
Ele ficou parado. Sorrindo. Porque agora o jogo tinha mudado e nenhum dos dois queria que acabasse.
O restaurante do hotel ficava no último andar.
Luzes baixas, mesas espaçadas e vista aberta para o mar noturno.
Nada de salão vermelho histérico, nada de empurra-empurra, só eles.
Gabriel puxou a cadeira para Agnes.
Ela arregalou os olhos e arqueou a sobrancelha.
— Cavalheirismo estratégico?
— Não. Genuíno. Mas posso transformar em estratégico se você preferir.
Ela sentou.
— Não estrague.
O garçom trouxe vinho. Gabriel recusou autógrafos com educação. Ali ele parecia outro homem. Ou talvez o mesmo, só sem plateia.
— Então — ela começou — vamos organizar os fatos.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Gosto quando você fala assim. Parece que estou sendo interrogado por uma promotora bonita.
— Concentre-se.
— Estou concentrado.
Ela enumerou nos dedos:
— Uma mulher pega algo do chão, diz ser assessora, você não tem assessora, uma cópia da minha chave aparece no seu quarto.
Ele completou:
— E essa mesma mulher pode ter entrado no meu quarto durante o apagão.
Agnes respirou fundo.
— Você tem câmera no corredor?
— O hotel tem.
— Então isso é simples.
Ele sorriu divertido.
— Você não é do tipo que foge.
— Eu odeio histórias mal contadas. — diz Agnes.
— Eu também.
Os pratos chegaram. Conversaram entre uma hipótese e outra. Riram em alguns momentos e o clima deixou de ser tensão e virou parceria, até que o maître se aproximou discretamente.
— Senhor Valença… pediram para avisar que a equipe do hotel identificou a senhora que se apresentou como assessora. Ela não é hóspede. Nem funcionária.
Agnes e Gabriel trocaram um olhar.
— Onde ela está? — Gabriel perguntou.
— Já foi embora. Mas deixou um envelope na recepção… endereçado ao senhor.
Silêncio. O envelope chegou minutos depois. Gabriel abriu.
Dentro, uma única frase impressa: “Algumas histórias precisam de escândalo para vender.”
Agnes sentiu um arrepio.
— Chantagem?
— Provavelmente alguém tentando criar um flagra inexistente.
Ela inclinou a cabeça.
— Mas não conseguiu.
Ele a olhou.
— Não.
— Porque eu saí do seu quarto. — comenta Agnes.
— Porque você entrou pelo motivo certo.
Eles se olham, sem conseguir desviar o olhar, sem jogos, sem provocação.
— Você sabe que se alguém tivesse tirado uma foto no elevador… — ela começou.
— Eu teria dito a verdade.
— Que uma desconhecida caiu em cima de você?
Ele sorriu.
— Que eu tive a melhor interrupção da minha carreira.
Ela riu, finalmente relaxada.
— Você é impossível.
— E você é a única mulher hoje que não quis meu autógrafo.
Ela apoiou o queixo na mão.
— Talvez eu prefira algo mais exclusivo.
Ele ficou sério.
— O quê?
Ela inclinou-se sobre a mesa.
— Um capítulo que ninguém mais tenha lido.
O ar entre eles ficou mais quente que o vinho. Ele se levantou devagar. Estendeu a mão.
— Então vamos escrever.
Ela olhou para a mão dele. Pensou na chave falsa. Pensou na confusão. Pensou no elevador parado no ar. E colocou a mão na dele.
Subiram juntos pelo elevador — funcionando perfeitamente desta vez.
No décimo andar, ela saiu primeiro. Virou-se para ele.
— Só para deixar claro.
— Sim?
— Se isso virar livro, eu quero royalties.
Ele se aproximou.
Parou a poucos centímetros.
— Se isso virar livro… você será a dedicatória.
Ela sentiu o coração acelerar. Mas dessa vez não recuou.
— E qual seria a frase?
Ele inclinou o rosto lentamente, devagar e cada vez mais próximo, sem plateia.
— “À mulher que caiu do céu… e resolveu ficar.”
Um roçar suave dos lábios, uma aproximação desejada pelos dois, uma ênfase maior na busca do sabor da boca, eterniza esse momento, mesmo que por alguns segundos.
Quando se afastaram, ela segurava a própria chave verdadeira, agora entregue oficialmente pela gerência após a verificação das câmeras.
A falsa havia sido recolhida. A falsa assessora, identificada como uma blogueira oportunista. O escândalo, evitado.
Gabriel encostou a testa na dela.
— Então… 1033?
Ela sorriu.
— Boa noite, 1108.
E entrou no próprio quarto. Ele ficou parado no corredor por alguns segundos. Depois riu sozinho.
Porque algumas histórias precisam de escândalo para vender. Mas as melhores… Precisam apenas de duas pessoas que escolhem ficar.
Seis meses depois, em uma outra noite, com outra plateia, corações aconchegados, outra noite de autógrafos. Respire, vamos lá.
Seis meses depois, o salão vermelho estava novamente lotado. Mas agora havia algo diferente. O cartaz atrás da mesa anunciava o novo romance de Gabriel Valença.
Título: “Entre Andares”. A imprensa estava presente. Blogs literários. Influenciadoras. Câmeras. E, desta vez, organização impecável. Fila contida. Segurança discreta. Nada de guerra civil literária.
Gabriel estava sentado à mesa, elegante, confiante, mas menos performático. Havia um tipo de serenidade nele que não estava ali meses antes.
— Gabriel! — gritou uma jornalista. — É verdade que o novo livro foi inspirado em um episódio real num hotel?
Ele sorriu.
— Toda boa história começa com um imprevisto.
— E termina como? — ela insistiu.
Ele sorriu e inclinou a cabeça.
— Com escolha.
Risos, muitos flashes.
Enquanto autografava, ele repetia a mesma dedicatória em cada exemplar, mas com pequenas variações. Até que a viu. Na metade da fila. Sem maquiagem exagerada, discreta, sem livro erguido como troféu. Apenas um exemplar fechado junto ao corpo.
Agnes. Ela não estava na primeira posição, nem tentando furar fila. Esperava com calma.
Quando finalmente chegou à mesa, o burburinho diminuiu levemente. Alguns já reconheciam o rosto dela das fotos discretas que circularam meses atrás, nada escandaloso, apenas rumores de “a mulher do elevador”.
Ele pegou o livro da mão dela.
— Nome?
Ela inclinou o rosto.
— Você não sabe?
Ele sorriu divertido.
— Gosto de ouvir você dizer.
— Ah! Agnes.
Ele escreveu devagar.
Depois virou o livro para ela. Ela leu. “À mulher que caiu do céu…
e decidiu apertar o botão ‘subir’.”
Ela mordeu o lábio para conter o sorriso.
— Melhorou a frase.
— Escritores revisam. — reforça ele.
— E a história? Revisou também?
Ele colocou a tampa na caneta, levantou-se.
O segurança Jota deu um passo automático para frente, mas Gabriel fez um gesto discreto para que recuasse.
— A história ainda está sendo escrita — ele disse, baixo o suficiente para ser só dela.
Ela inclinou a cabeça.
— Espero que dessa vez não tenha falsa assessora.
— Desta vez, eu tenho assessora.
Ela sorriu e fez cara de interrogação.
— Tem?
Ele apontou levemente para ela.
— Você.
Ela riu.
A multidão observava, mas não entendia completamente o que acontecia.
Gabriel saiu de trás da mesa. Oficialmente, não fazia parte do protocolo. Mas ele já tinha quebrado protocolos antes. Estendeu a mão.
— Vamos?
— Para onde?
— Para o elevador.
Ela estreitou os olhos.
— Você tem obsessão por elevadores.
— Eles mudaram minha vida.
Ela colocou a mão na dele.
O salão murmurou e flashes pipocaram, mas dessa vez não havia empurrões, nem quedas.
Caminharam juntos até o elevador panorâmico. As portas se fecharam. Subiram na vista de todos, mas somente eles.
— Sabe o que eu descobri? — ele perguntou.
— O quê?
— Que o apagão não foi o que nos prendeu, foi a curiosidade.
Ele aproximou-se devagar.
— Foi você ter ficado.
O elevador chegou ao último andar. As portas se abriram.
Antes de sair, ela segurou o colarinho dele.
— Só uma coisa, escritor.
— Diga.
— Se algum dia eu cair de novo… que seja porque eu quis.
Ele sorriu.
— Dessa vez, eu seguro.
E saíram do elevador. Juntos, para um lugar só deles, sem audiência, sem escândalo.
Apenas dois adultos que escolheram apertar o botão “continuar”.
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