“Volta Pra Mim” — Capítulo IV

Do livro “Volta Pra Mim” — Capítulo IV

EPÍGRAFE

Você sabe o que é o encanto?

É ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada.

Albert Camus”

Antonella volta para casa, menos apreensiva do que no dia anterior.

Havia presenciado momentos mais simpáticos de Anton, especialmente quando a mãe chegou e, apesar da agitação dela, ele pareceu mais humano, mais agradável, menos agressivo.

Ela não passou de fato nenhuma informação dos dados que havia levantado para o almoxarifado ser mais eficiente, devido à interrupção de Adele. Ela soube seu nome ao perguntar para a secretária, fora da sala, na hora que saiu correndo.

Já em casa, Antonella conversa com Lisa, ao mesmo tempo em que prepara um relatório do dia para Gerard, o babo.

— Lisa, Felipe não vem hoje?

— Não, ele tem aula. Não pode vir.

— Que bom, vou conseguir dormir?

— Não brinca! Fazemos tanto barulho assim?

— Sim… o pior é que vocês até me dão vontade de arranjar um namorado. Se eu não tivesse esses compromissos aqui e com meu pai, arranjava um… mas não daria tempo de nada.

— Não entendo, Tôni, por que você tem que ficar fazendo esses relatórios?

— É controle do meu pai… ele quer que eu aprenda do modo difícil, se bem que em parte concordo com ele… a teoria, na prática, é bem diferente.

— Por que todo mundo fala essa frase? Não tem como funcionar já como prática, mesmo que seja teoria?

— Não tem como, Lisa. A questão é que cada um interpreta a teoria de seu modo particular, além do que, quando se aplica a teoria, cada vez há um contexto específico, diferente de quando a teoria foi formulada. Acho que por isso não conseguiram ainda eliminar essa frase: “a teoria, na prática, é outra”.

— Nossa! É muito complicado entender tudo isso que você fala. Quando você volta para seu país?

— Só estou aqui há uns meses, acho que fico mais um ano ou dois… a menos que algo extraordinário aconteça.

— O que seria extraordinário, Tôni?

— Sei lá… foi só uma fala. Não penso em nada…

— Bem, manda lá seu relatório e aproveita para dormir mais cedo hoje.

E Lisa parte para sentar-se na frente da TV, assistir ao programa favorito.

— Bem, deixa eu ver o que Gerard, meu babo, fala a respeito do trabalho que estou desenvolvendo para Anton. Ele sabe que estou fazendo melhorias. A ideia dele é que eu ficasse como funcionária, mas nunca imaginou que eu poderia me tornar chefe de um setor, sendo funcionária.

E Tôni continua…

— Ele acha que eu precisava aprender a receber ordens… sempre me achou muito rebelde, especialmente depois que me separei.

— Ah! Você já foi casada? — pergunta Lisa.

— Não exatamente. — responde Tôni para Lisa… — Mas esse assunto é outra coisa. Falamos disso em outra hora.

Tôni não havia percebido que tocou nesse assunto com Lisa. Não gostou de sua própria falta de censura, mas não achava que Lisa poderia entender muito com esse comentário.

Mudou de assunto. Lisa não insiste, Tôni vai para seu quarto falar com babo pelo telefone.

Fala com o pai por vídeo, mata um pouco da saudade que tem de abraçá-lo. Conversam vários minutos e ela explica a ele os acontecimentos do dia, com exceção de alguns arroubos que teve.

— Bem, filha, não se esqueça de que melhorar o almoxarifado de Anton pode ser uma faca de dois gumes. No futuro, ele pode ser nosso concorrente.

— Pretende expandir tanto seus negócios? Até aqui na Europa?

— É! Quem sabe? As coisas estão indo bem, os negócios se expandindo e os comensais gostando cada vez mais de meus pratos. Também dos de Chilli e Dreads.

Tôni sorri.

— Chilli! Ah! Chilli!

— Vamos, filha, pense em tudo o que já passou e o quanto isso te serviu para aprender.

— Sim, pai…

E Gerard ri gostosamente do outro lado da linha. Tôni fica feliz que seu pai esteja satisfeito, vai dormir sossegada hoje. Babo é muito importante para ela.

— Está bem, pai. Chega por hoje, vou dormir…

— Boa noite, filha. Bom descanso!

— Para você também, pai!

Tôni demora para baixar sua agitação, depois que, sem querer, revelou um pouco do seu passado para Lisa… mas não comenta sobre isso com babo. Ele não vai gostar e vai ficar aborrecido com ela.

Dia seguinte, de forma inimaginável, Anton já está no almoxarifado, procurando por Tôni, quando ela chega.

— Parece uma pessoa menos assustadora. Olhando bem, ele é um homem bonito, aliás, bem bonito. — pensa Tôni enquanto caminha na direção de Anton.

Anton conversa animadamente com Jean, de costas para a entrada. Jean explica a ele alguns dos procedimentos implementados por Tôni.

— Quer falar comigo, Sr.? — pergunta Tôni, aproximando-se dele por trás.

— Não! Na verdade, quero falar com Antonella.

Anton não se vira e não se dignou a olhá-la quando ela falou.

De novo, o coração de Antonella revoltou-se, mas ela resolveu lidar diferente com a situação.

Ficou muda atrás dele, não se mexeu, dando risada e esperando que ele olhasse para ela, para que visse que ela estava ali. E, de fato, depois de alguns momentos sem resposta, Anton vira-se e depara-se com Antonella na sua frente.

— Ah! Desculpe, estava pensando em outra coisa e não vi você chegar. — diz Anton ao dar de cara com Tôni, rindo dele.

Antonella não responde. Continua muda e rindo-se muito.

— Podemos nos reunir agora? — pergunta Anton, ignorando a risada de Tôni, fingindo não ter visto ser alvo de chacota no momento.

Normalmente, ele teria uma forte reação ao se sentir alvo de uma brincadeira, mas, estranhamente, reage bem, de forma calma.

— Não acredito. — pensa Antonella. — Ele está me perguntando se posso? Não está dando ordens? Ora, ora! O que acontece com ele? É para ficar feliz ou com medo? — Com Anton, Tôni tem suas dúvidas.

— Claro! — ela responde.

— Bem, vamos então!

— Para onde?

— Para minha casa.

— Por quê? Podemos fazer nossa reunião aqui…

Antonella não tem tempo de terminar a frase. Anton aponta o caminho da saída para ela, em direção ao seu carro.

É uma ordem, dada de forma ilustrada, com gestos. Sem palavras. Ela, de forma automática, obedece e depois fica irritada consigo mesma.

Antonella não protesta mais. Segue muda até o local que Anton chama de casa. Ela espera encontrar Adele, mas não… Anton vive sozinho, em outro local. Adele não está lá, mas, agora, ela já não tem mais como voltar atrás.

Entra devagar na grande sala e senta-se na poltrona. Comporta-se como uma pessoa realmente elegante e com classe.

Anton lhe oferece algo para beber. Antonella aceita um café e descobre que a casa está cheia de empregados, o que a deixa muito mais tranquila.

— E então? Trouxe-me mais escritos em folhas de papel, Antonella?

Ela sorri, desajeitada…

— Não, Sr. Segui seu conselho e coloquei tudo num programa ontem. Tem um laptop disponível?

— Ah! Sim, vou buscar.

Enquanto ele se afasta, ela observa todo seu modo de caminhar, sua altura e seu corpo bem esculpido. Depois, chacoalhando a cabeça em desaprovação dos próprios pensamentos, desvia o olhar.

Antonella pega o seu pendrive na bolsa.

Anton está muito diferente da primeira vez que Antonella o viu. Mais amável, gentil, atencioso.

Antonella sente, inclusive, que ele se insinua mais para ela, mas ainda não entendeu direito o que se passa.

Tem a ver com alguma informação que lhe foi dada? Ele descobriu quem ela é? Adele lhe deu algum conselho?

Não importa! Naquele momento, Antonella está disposta a passar as informações que coletou e, se Anton for mais agradável, melhor.

Ela pode até se apaixonar por ele. Senta-se ao seu lado e observa Anton falando, olhando para ela, mexendo-se para servir o café… muito estranha essa mudança… mas as coisas ficam mais agradáveis.

Tôni explica toda a estratégia que planejou montar para organizar melhor o almoxarifado. Anton presta muita atenção nela. Mais até do que ela gostaria.

De novo, ele a põe sob um microscópio, como ela sentiu numa das primeiras vezes que se encontraram.

Uma forma de aliviar a tensão de Tôni é começar a olhar para o lado, para a sala. Vê um quadro lindo, que deve ser de Bosch — surrealismo? Uma cortina de veludo verde, que deve ter uns… trinta anos?

Uma cadeira modelo holandês, todinha montada em madeira e couro, uma chaise long, verde também, uma cor parecida com a cortina, com uma manta em cima, fazendo contraste, tudo muito lindo.

Além do carpete, alguns tapetes persas pelo chão, combinando com os móveis. Umas duas colunas de mármore nos cantos das paredes, meio fora de contexto, mas perdoáveis, dependendo de quem ousou decorar aquela sala.

As paredes pintadas ora de branco, outras de cor de vinho, vasos de madeira, de pedra sabão, de porcelana…

A enorme sala até parece um museu com peças de todos os estilos, de todas as cores, de muitas origens, mas estranhamente bem combinadas, muito harmoniosas.

Em determinado momento, Anton fala mais alto, tendo percebido que Tôni havia desligado e estava pensando e observando outras coisas além dele, e começa com perguntas estranhas… bem, não estranhas, mas perguntas que Tôni não gostaria que fossem feitas.

Tôni dá um pequeno pulo de susto, o encara, apronta-se para xingar, mas não o faz. Contém-se e põe-se a escutar o que Anton começa a perguntar.

— Você conhece o Jockey Club daqui? — pergunta Anton.

— É! …, sim, já estive lá, na ocasião de uma competição de salto.

— Ah! Sabe que eu tenho um cavalo lá…?

— Nossa! Cavalos são lindos. Nunca vi o Sr. saltar, mas se um dia me convidar, eu irei.

— Sério que nunca me viu lá?

— É! Sabe que meu “incoming” não comporta frequentar o jóquei clube, não é? — Fui lá uma vez com um amigo, mas não o vi.

Para manter o personagem que estava representando, Tôni, mesmo contra a vontade, se vê obrigada a mentir. Na verdade, não era uma mentira completa, se realmente ela vivesse ali somente com o salário do restaurante.

— Certo! E no bar? Aquele na esquina com meu principal restaurante?

— Sim, já estive lá com Josh, um grande amigo.

— Ah! Interessante, também tenho um grande amigo chamado Josh. — diz Anton olhando fixamente para ela.

A essa altura, Antonella já desconfiava que havia deixado pistas que não deveria ter deixado.

Esteve realmente nesses dois lugares antes de decidir ir trabalhar com Anton. Eram lugares que ela sempre frequentou quando viajava para esse país. Nunca pensou que encontraria Anton em um lugar desses. Nunca achou ter visto Anton antes.

Onde mais esteve? Onde mais pode ter encontrado Anton antes de o conhecer oficialmente como patrão?

Esteve naquela boate, onde ficou aborrecida, e a maior parte do tempo ficou na piscina.

Será que Anton estava lá? Ele a viu? E agora, como ela vai explicar isso tudo… como pode uma funcionária assalariada frequentar tais lugares? Não previa ter sido pega. E agora?

Precisa, com urgência, lembrar de todos os lugares “chiques” que esteve desde que chegou ao país.

E, se por coincidência, Anton esteve também nesses lugares, ele vai fazer considerações que podem ser ou não boas.

Onde mais ele pode tê-la visto? Precisa recapitular com urgência seus passos desde que chegou.

De repente, percebe que Anton a está encarando, lógico, porque ele está falando com ela, e ela não está respondendo.

— Ãh? — diz Tôni.

Precisa deixar a checagem de lugares para outra ocasião. Nesse momento, ela precisa dar atenção ao relatório que fez para Anton.

— Bem, Sr., desculpe… estava distraída. Sugiro que reformule todo o almoxarifado, considerando algumas variáveis…

— Quais, por exemplo? — pergunta Anton, encarando-a com um sorriso superencantador sobre ela.

Tôni continua não entendendo a não tão súbita mudança que reparou em Anton, mas tenta parecer natural o mais que pode. Tenta não demonstrar o que sente com aqueles olhos negros penetrando em suas retinas.

Sente-se tão vulnerável diante dos olhos dele, que parece que ele pode até ler seus pensamentos, o que, naquele momento, ela não gostaria jamais que ele lesse. Pigarreia rapidamente e…

— Bem, precisamos discutir a disposição dos frigoríficos, os locais das frutas e verduras, além de fazer um levantamento da frequência com que esses produtos são usados, as quantias. — continua Tôni.

— Tem verduras que não suportam a temperatura de geladeiras, precisamos de mais balcões climatizados.

— Esses itens são só um lado do processo todo. — continua Antonella. — O outro lado é o dos fornecedores. Não podemos ter um só fornecedor para os produtos. Precisamos ter vários, porque precisamos de concorrência de preços e de qualidade dos produtos. Temos alguns produtos que só têm um fornecedor. Precisamos arrumar isso.

— E também temos os fornecedores que já são intermediários. Precisamos de algum estudo se vale a pena mantê-los, ou se buscamos a fonte original do suprimento.

— Então, precisamos de estudos sérios das procedências dos produtos, dos locais de armazenamento, dos usos deles, tanto a quantidade quanto a qualidade… acho que me entendeu que não é um processo rápido nem a solução definitiva. Isso precisa ficar sob vigilância o tempo todo com uma pessoa competente, que consiga gerenciar todos esses aspectos que citei. Ou várias pessoas que, afinal, sejam cordatas, conversem umas com as outras e forneçam informações confiáveis entre elas.

— Temos também que organizar os pedidos dos chefs. O que eles querem, quando querem, qual a maior frequência de tal prato, etc., para não corrermos o risco de faltar. Precisamos saber com que frequência eles mudam o menu, por que mudam, etc. e tal… tenho mais umas mil questões em minha lista.

— Você não pode fazer isso? — diz Anton.

E agora, Tôni? Como responder a isso? Tôni hesita, mas arrisca uma resposta.

— Por um tempo, sim, mas assim que eu terminar meu curso aqui, vou embora, então posso treinar alguém para continuar fazendo…

Antonella interrompe o que estava falando pela atenção que percebeu que Anton lhe dava. Ficou embaraçada.

— Bem que minha mãe falou, Antonella. — Você é encantadora…

Anton fala isso, segurando sua mão e olhando para ela como nunca havia olhado antes. O coração dela acelera e precisa urgentemente ser acalmado.

— Ora, Sr. Anton, obrigada, mas não vamos misturar as coisas. Não dá certo isso.

Antonella retira a mão… cuidando para não ser grosseira. Sorri rapidamente.

— Ok, me desculpe, Antonella. Vou levar você de volta agora.

Anton não parece ofendido, mas também não parece de todo satisfeito.

— Não é preciso. Eu volto sozinha. — levanta-se rapidamente e vai em direção à porta.

— Não! Faço questão… Anton a segura pelo ombro e a conduz na direção do carro.

Antonella não resiste. Segue em direção ao carro e deixa-se levar de volta. Fica muda no trajeto todo, evitando mostrar ou manifestar qualquer coisa a respeito do momento que está vivendo, ou dos pensamentos que borbulham em sua mente.

Antes de ela descer, Anton faz mais uma pergunta:

— Tôni? — posso chamá-la assim, não é?

— Claro, Sr.

— Bem, eu acho que a vi no aeroporto antes de todos aqueles lugares que citei, pode ser?

— Claro! Já disse que sou de outro país… aliás, o pessoal até gosta do meu sotaque… — ela diz isso tentando dissipar a ansiedade que começa a aumentar em seu peito.

— Sim, Tôni, você tem um sotaque gracioso… então, acho que a pessoa que imaginei ser você era realmente você, não é?

— Sim, Sr. Anton. — responde Tôni, já quase correndo para longe dele. Ela parece ter medo. Medo de ser descoberta, talvez? Medo de que ele continue fazendo perguntas.

Antonella não entendeu a mudança de Anton. Ainda precisava descobrir o que havia mudado para que ele, de repente, começasse a tratá-la bem.

Anton fica olhando Tôni apressar o passo, até que ela desapareça dentro dos “preps”.

O que Antonella tinha para esconder?

Gerard, o babo, tinha dito que ela precisava ser tratada como uma funcionária e não como herdeira de uma grande cadeia de restaurantes.

Não é possível que Anton soubesse quem ela era.

Ela, apesar das falhas, havia encoberto muito bem sua verdadeira identidade. Então, continuava uma incógnita a súbita mudança de Anton.

Talvez se ela fosse direta e perguntasse? Quem sabe, obteria uma resposta.

Ainda havia um mistério, além daquele, que precisava ser resolvido. Quem era a pessoa que esteve com ela na piscina, naquele dia quente, e que havia levado uma peça de sua roupa, depois de beijá-la, daquele jeito que ela nunca mais esqueceria?

Teria sido Anton? E ele descobriu agora que era ela na piscina, apesar da escuridão da noite? Bem, a altura dele parecia compatível. O corpo também. Tudo que ela precisava, agora, era beijar Anton para comparar com o beijo da piscina.

Mas que ideia mais louca! Ela estava precisando tirar aquilo tudo da cabeça. Precisava se concentrar no trabalho.

Não conseguiu ver quem era naquela noite, como descobriria agora? Não podia perguntar nada para Anton. Não se lembra de cheiro… melhor, lembra do cheiro de vinho, mas já não sabia se era ele ou ela que exalava o cheiro…

Lembra-se da barba roçando em seu pescoço, mas muitos homens ali tinham barba. Só aquele dado não era suficiente para saber… não, aquilo não estava ajudando.

Antonella notou que não seria fácil se livrar daqueles pensamentos.

Uma vez que o beijo da piscina aconteceu e havia sido tão bom, que ela não ousava nem sequer questionar quem seria ele, de medo de perder a magia.

Isso não podia acontecer. Aquela noite, embora não tivesse havido continuação, não podia ser esquecida ou desqualificada. Era um enredo, pelo menos inicial, para muitos sonhos.

Tôni valorizava, muitas vezes, mais um sonho do que a realidade, mesmo que esse sonho fosse para sempre o alimento de sua ilusão.

Gostou?

Logo vamos dispor mais romances, nesse portal de emoções que está sempre aberto e pronto para “plot twists”, (viradas) e para novas aventuras e acontecimentos.

Obrigada, comente, dê um like e volte sempre.

Posts Similares