Annia & Vito 3

PRÓLOGO

E num desembarque programado pelo navio, Annia é encontrada pelo ex… deixando Vito inseguro.

O comandante Sieg, lógico, torce por Vito.

Seu navio de cruzeiro atraca eventualmente para reparos, abastecimento, novos turistas.

Gili embarca numa dessas paradas. É o ex de Annia.

Depois de muito investigar, descobre o paradeiro dela e parte para reconquistá-la. É sempre muito seguro de si, arrogante.

Ele tinha certeza de que a convenceria a voltar com ele.

Vai reconquistar Annia e tem certeza de que a convencerá a voltar com ele.

Mas Annia tem Vito agora em sua vida e Gili não sabe o que ele estava significando para ela.

A questão é: ela vai sucumbir como outras vezes ou vai parar de ser manipulada por Gili?

Ele se esquiva de ser visto a princípio. Ele acha que suas estratégias de controle são insuperáveis.

Decide verificar primeiro como ela conseguiu o emprego e com quem, afinal, ela está agora se relacionando? Ele precisa saber de tudo isso, pois acredita que assim poderá manipulá-la como fez em outras vezes.

Quer saber o começo da história? Procure mais histórias de Annia e Vito… e do comandante Sieg, lógico.

A HISTÓRIA

O mar continua sendo o confidente de Annia e o caminho prateado da lua nas águas, continua sendo o motivo que ela e Vito encontram para se manterem juntos. A lua tem colaborado sempre. Ora branca, ora amarela, até mesmo laranja, pinta o caminho toda noite, iluminando os corações.

Quando há chuva, os flashes dos raios sustentam o motivo dos encontros.

Annia prossegue com seu trabalho e com sua programação no navio. Seu contrato vai até o final do percurso do cruzeiro.

Sua próxima criação é o da noite caribenha. Seu contato com Vito a deixa cada vez mais feliz e nota nele também alegria de tê-la por perto.

Na noite temática caribenha, Annia decidiu cometer um erro. Um erro elegante.

Vestiu um vestido azul que se movia com o vento do convés como se tivesse vida própria. Sua pele branca em contraste com o azul deixava em destaque toda e qualquer parte não coberta pelo vestido.

Ela sabia que o vestido era… eficiente. Sentia cada dia mais que a proximidade de Vito lhe era cara.

Ela desce as escadas, sendo iluminada somente pelas lanternas do deke, e percebe os olhares que provoca. A princípio isso a deixa intimidada, mas quando vê Vito a olhando também, entende que está alcançando seu objetivo.

Realmente, Vito a vê imediatamente.

Ele estava conversando com alguns passageiros quando ela apareceu na escada principal.

Por alguns segundos, ele esqueceu completamente o que estava dizendo.

— Ah! Sim! — é o máximo que ele consegue dizer, embora reconheça que não escutou nada que foi dito — nem sabe se devia aprovar ou não o que os passageiros falavam.

Todos riem.. percebem onde ele olhava e compreendem a gagueira momentânea.

O comandante Sieg, ao lado de Vito, observou a cena e deu uma discreta cotovelada no filho.

— Filho…

— Hum? — responde Vito ainda meio aparvalhado.

— Respira, filho!! — reforça Sieg.

Vito pigarreou e tentou recuperar alguma dignidade.

Annia aproximou-se.

— Comandante, a festa está pronta.

Sieg sorriu como quem sabe de coisas.

— Excelente trabalho, minha querida.

Depois olhou para Vito.

— Acho que meu filho pode acompanhar você até o convés superior.

— Ãh? Sim, claro — disse Vito rapidamente.

Ambos sobem novamente a escada externa.

Annia à frente de Vito não consegue evitar o chacoalho provocado em seu vestido pelo vento e ele, embora se esforçando para ser politicamente correto, não consegue evitar olhar para o que o vento descobre.

Inclusive, precisa ficar atento porque a ventania é grande e pode, sem dúvida, levar Annia com ele.

Vito só consegue acalmar-se quando percebe que pode segurar o vestido de Annia e, assim, acalmar sua própria aflição.

O vestido de Annia dançou no ar. Só parou quando Vito o segurou.

— Problemas de navegação?

— Ventos inesperados — respondeu ele.

Do outro lado da amurada, Gili espiava. Percebeu toda movimentação de Annia e Vito, mas, como em outras vezes, com toda arrogância reservada, tinha certeza de que Annia seria dele de novo.

Segundo ele mesmo, Gili se considerava muito esperto e irresistível e, apesar do ciúme, sentia que precisava esperar o “momento certo”, embora ele mesmo não soubesse o que era isso.

O plano de Gili era idiota, mas muito cabível para seu raciocínio. Já havia funcionado outras vezes.

Mostrava-se de longe para Annia, esperando que ela o visse, mas não se deixava alcançar.

Demorou para ela achar que o tinha visto.

No meio do salão, nos braços de Vito, Annia hesita.

— O que houve, moça do vestido azul? — pergunta Vito.

— Não sei, tive a impressão de ver alguém conhecido.

— Alguém do seu passado, alguém de quem foge?

— Alguém que não quero ver mais. Alguém que me assombrou por mais tempo que eu deveria ter que suportar.

— Tão ruim assim? Não foi só impressão?

— Ruim sim, Vito. Mas acho que um dia ainda vou ter que enfrentar isso.

— Ou pode ter sido só impressão?

— Talvez. Acho que nosso cérebro tenta nos boicotar quando estamos felizes. Eu estou feliz como há muito não sentia.

Vito a aproxima mais junto ao seu corpo. Envolve-a num abraço apertado, dando uma gostosa sensação de proteção para Annia.

Embora o deke seja o mesmo desde que embarcaram, as sensações têm sempre novidades. As mãos de ambos já buscam as emoções sentidas nas últimas vezes, os arrepios das últimas expectativas, os corações atropelados pelos últimos abraços.

O passeio no deke finalizou a noite que tinha sido magnífica para os dois e Annia já havia desacreditado ter visto Gili. Sentiu como se fosse uma visão boba que tentava estragar sua noite com Vito.

Sieg já estava recolhido e no seu turno de descanso. O casal aproximou-se da amurada e muito próximos, ainda desvendavam com palavras, gestos e olhares o caminho prateado da lua.

— Se me olhar assim…

— Sim? — aguarda Annia, esperando a conclusão da frase. — Assim como?

As mãos de Vito já acariciavam os cabelos de Annia, as mãos dela já envolviam Vito e a proximidade dos dois acelerava os corações.

Não houve final de frase. Houve lábios de ambos se encontrando, buscando sorver o que de mais precioso um pudesse significar para o outro.

Ambos entenderam o significado daquilo. Ambos buscavam a mesma coisa, ambos tinham o que queriam dividir.

A partir dali, não importava muito onde estavam, ou o quanto aquilo iria durar. Importava o que o momento podia oferecer, e eles não desprezaram isso.

Aquela emoção de estar novamente com alguém, ser importante, significar algo para alguém, preenchia a alma dos dois. Ambos começaram a sentir-se completados, amados e foram se permitindo felicidade como parte dominante do seu dia a dia.

Annia não via a hora de encontrar-se novamente com Vito. Vito cruzava com ela todo momento que podia.

Gili não entendia o que estava acontecendo, mas ainda achava que podia reconquistar Annia, mas não havia se mostrado ainda. Vigiava o casal, fazendo-se misterioso.

Eventualmente aproximava-se de Annia, mas deixando sempre a impressão de que era ela que estava “vendo coisas”.

Annia já não se importava mais. O relacionamento com Vito a fazia esquecer de qualquer coisa bizarra que pensava ter visto.

Alguns dias depois, uma chuva repentina caiu sobre o convés.

Os passageiros correram para dentro.

Annia estava recolhendo alguns objetos da decoração quando a chuva começou.

— Você vai ficar encharcada — disse Vito, aparecendo ao lado dela.

— Eu já organizei festa na praia durante furacão. Isso aqui é brisa.

Ele segurou o braço dela.

— Venha.

Eles correram até uma cobertura lateral.

A chuva batia no mar com força.

Annia estava encharcada, com o cabelo molhado.

Algumas mechas grudaram no rosto. O vestido grudado no corpo tremia de frio.

Vito olhou para ela por um segundo longo demais.

Ela percebeu.

— O que foi?

Ele hesitou.

— Nada.

— Mentira.

— Só estava pensando…

— Pensando o quê?

Ele aproximou-se um pouco.

— Que fugir para um navio talvez tenha sido uma excelente decisão.

O silêncio entre os dois mudou de qualidade.

O mar parecia respirar mais devagar.

Annia apoiou as mãos no corrimão.

— Eu ainda não sei se estou fugindo ou chegando.

Vito encostou ao lado dela.

— Talvez esteja fazendo as duas coisas.

Ela virou o rosto.

Estavam próximos o suficiente para sentir o calor um do outro.

Mas ninguém se moveu.

E, curiosamente, aquela pausa foi ainda mais intensa.

A cada dia eles renovavam o conhecimento de cada um. A proximidade já não era mais suficiente. Já estavam nos braços um do outro e a chuva, o tremor de Annia, o encantamento de Vito por ela, já não eram mais barreira para os afastar, pelo contrário.

Tinham certeza de que, dali em diante, era tudo permitido, entregariam-se novamente. Os lábios de ambos se tocavam com paixão e ânsia, quando…

— Muito bem, Annia, finalmente a encontrei.

Ambos se assustaram, olharam em volta e viram. Gili estava ali, muito perto deles.

Muito à vontade, como se fosse natural ele passar uma bronca em uma pessoa que fazia algo que não devia.

O troar do céu, o rugido do mar, colaboravam para apavorar mais aquilo que já não tinha significado para Annia.

Annia paralisou a princípio, mas relaxou ao perceber Vito ao seu lado.

— O que está fazendo aqui, Gili?

— Como assim? Eu disse que nos encontraríamos novamente. Que logo estaríamos juntos de novo.

— Annia? — exclama Vito. — Quem é esse sujeito?

— Alguém que nunca mais quis ver na minha vida, mas parece que ele não entendeu minha última mensagem.

— Não, Annia — contesta Gili. Isso você sempre fala. Todas as vezes que terminamos, voltamos depois, lembra?

— Lembro sim. E foram as piores decisões da minha vida. Não há mais volta, Gili. Deixe-me em paz.

— Nunca… você vai voltar para mim — diz Gili, desaparecendo no convés, da mesma forma que apareceu.

Annia tremia, além do frio da chuva, agora ainda mais pela presença indesejada de Gili.

— Annia, vai ficar comigo essa noite — diz Vito abraçando-a.

Ela não contesta. O abraça também e sobem para a cabine de Vito. Eles não percebem, mas são acompanhados, o tempo todo, pelo olhar de Gili.

E, depois daquela, todas as noites e dias foram de Annia e Vito. Gili nunca imaginou que sua presença faria o oposto do que estava acostumado a fazer.

Annia sempre voltava para ele em outras vezes.

Ela sempre se achava errada e a vontade de Gili sempre prevalecia sobre os desejos dela. Foi como ela aprendeu que deveria ser.

Não mais, não dessa vez. Agora ela sabe que precisa modificar seu modo de ser.

Annia aprendeu muito na sua viagem ao conhecer Sieg e Vito. Aprendeu a amar de verdade e não mais depender de outros para definirem o que ela devia ou não fazer.

A compreensão do significado de autonomia é sim capaz de mudar as vidas das pessoas e foi o que aconteceu com Annia, junto com Vito.

Na última noite do cruzeiro, o convés estava quase vazio.

A música da festa vinha de longe. Gili se aproxima uma vez mais. Ele não desistiu. Inconformado em ser recusado, expõe-se uma vez mais.

— Annia, quero falar com você.

Ela se vira, pega de surpresa.

— Imaginei que você já teria saído do navio em Vísio.

— Não, eu não iria sem você.

Annia vira-se para ele sorrindo.

— Você não entendeu ainda, não é? — Annia comenta e faz sinal para um segurança atrás dela.

O segurança segura Gili pelo braço.

— O que está acontecendo?

— Você devia ter desembarcado em Vísio; como não o fez, pedi segurança extra a Sieg, que me concedeu. Vai desembarcar agora.

— Você não pode fazer isso.

— Não posso mesmo, mas Sieg pode. Ele vai te colocar para fora e você vai sair da minha vida quer queira quer não.

Gili é pego pelo braço, levado ao helicóptero pelo segurança que segue com ele no porto mais perto que há daquele navio.

Annia se vira, agradecida e feliz consigo mesma pela força conseguida junto a Vito e Sieg. Ela viu Vito próximo a ela e entendeu por que ele não se aproximou. Queria respeitar a nova forma dela ser e se defender.

Ele já tinha entendido que Annia conseguira autonomia e podia se defender sozinha.

Annia sorri, Vito se aproxima.

— Está pensando em fugir de novo?

— Talvez.

— Para onde?

Ela olhou o horizonte.

— Ainda não decidi.

Ele ficou em silêncio.

Depois disse calmamente:

— Posso sugerir uma rota?

— Claro.

Ele deu um passo mais perto.

— Fique.

— Você está tentando ser romântico, oficial?

— Estou tentando ser honesto.

O vento soprou entre eles. Eles se aproximaram.

— Proximidade marítima — disse ela — costuma funcionar?

— Ainda estou testando.

Ela sorriu.

— Então continue o experimento.

Foi quando ele segurou a mão dela e levou até sua boca. A beijou.

Como duas pessoas que tinham descoberto algo interessante e queriam investigar com calma.

O mar continuava ali. Silencioso.

A lua desenhava seu caminho prateado sobre a água.

E, pela primeira vez desde que embarcara, Annia não sentiu vontade alguma de fugir.

Sieg já tinha sido apelidado de “O comandante Cupido” ali, entre os seus.

Ele estava encostado no corrimão da ponte, observando o convés principal, com um binóculo.

Um marinheiro passou e perguntou:

— Senhor… estamos procurando alguma embarcação?

— Sim.

— Qual?

— Meu filho.

O marinheiro olhou para o mar vazio.

— No oceano?

— Não. Na direção da escada principal.

O marinheiro decidiu que não queria entender mais nada e saiu discretamente. Sieg continuou observando.

Lá embaixo, Annia discutia animadamente com um grupo de músicos sobre a festa daquela noite.

Minutos depois, Vito apareceu.

— Olá, querida! — diz ele, envolvendo-a pela cintura.

Sieg suspirou satisfeito.

— Funciona sempre — Sieg murmura para si.

— Meu pai pediu que eu verificasse o sistema de iluminação da festa — comenta Vito com Annia.

— Curioso.

— Por quê?

— Porque ele me pediu para verificar o sistema de iluminação da festa… com você.

Vito olhou para o teto do navio.

— Estratégia familiar.

— Ele sempre faz isso?

— Desde que aprendi a andar. Sabe da maior? Ele ainda não sabe de tudo. A hora que souber, vai ficar bravo porque não contamos para ele.

Annia riu.

— Ele é xereta!

— Sim, e sem noção.

Lá em cima, Sieg abaixou o binóculo.

— Agora vamos ver quanto tempo esses dois levam… — comenta ele, sem saber que ele é que estava atrasado.

A noite estava morna.

O convés superior estava quase vazio, iluminado apenas por algumas luzes suaves e pela lua refletida no mar.

Annia apoiou-se na amurada.

Vito estava ao lado dela.

Conversavam baixo, como se o oceano pudesse escutar.

— Eu ainda não entendi uma coisa — disse ela.

— Qual?

— Você parece gostar muito do mar… mas também parece querer fugir dele às vezes.

Vito hesitou… mas respondeu.

— O mar mostra quem a gente é quando tudo fica quieto.

— Isso é ruim?

— Às vezes é… desconfortavelmente sincero.

Ela olhou para ele. Estavam muito próximos.

O vento malandro voava em torno do cabelo dela.

Vito levou a mão até uma mecha que insistia em fugir de seu controle.

Annia olha para ele e em seguida para as suas mãos quando ele coloca aquela mecha nos ombros dela.

Annia não se afastou, ele também não.

Os dois se aproximaram lentamente. Vito fechou os olhos por dois segundos, seus lábios tocaram os dela. Algo suave os unia. Algo suave os mantinha juntos.

A compreensão da harmonia os juntava cada vez mais. Mesmo com a presença de passageiros os olhando, eles não se separaram mais.

Só se afastaram quando ficaram satisfeitos por seus desejos.

Eram um casal lindo. Eram um casal apaixonado, eram um casal unido por algo especial, que só quem ama entende.

O público que se juntou ao vê-los aplaudiu. Ovacionou-os e os saudou. Sorriram um para o outro e depois para todos.

O cruzeiro estava acabando, mas eles estavam começando. Era o que estava estampado no rosto de cada um dos dois e especialmente na feição alegre e feliz de Sieg, que lá da ponte, mais uma vez os saudava com uma gostosa xícara de café.

O que você achou? Gostou? Gostaria de um final diferente? Afinal, é possível isso, porque a vida é cheia de surpresas e, como tal, permite todo tipo de imaginação e sonho adaptado ao considerado “oficial”.

Deixe sua sugestão. Obrigado por nos honrar com sua participação.

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