A Vida Emprestada-Annia&Vito-2
PROLOGO
Quantas almas em um cruzeiro estão lá a passeio? Quantas almas estão em fuga? Quantas almas estão à procura de um novo significado, ou um novo caminho?
O que resulta dessas procuras? Falemos apenas de algumas almas leves que se deixam levar pelo encanto do amor, da paixão e optam pelo melhor humor que um companheirismo, uma participação e compartilhamento podem proporcionar.
Comandante Sieg, marujo escolado, seu filho Vito e agora Annia, que se juntou à dupla, estão tentando algumas fugas. Vejamos o que resulta disso. Ouça toda a história, depois deixe sua opinião, comente e compartilhe.
Siga conosco nesse cruzeiro, nessa aventura pelos mares sem fim, mares das águas reais, das emoções, dos amores e das paixões. Sonhe conosco, construa seus sonhos e busque realizá-los depois.
A HISTÓRIA.
E o balanço do mar continuava encantar os passageiros. A maioria, pelo menos. Aquele cruzeiro, comandado por Sieg, tinha tudo para dar certo.
Vito, já afeito às artes de seu pai, acomodava com mais leveza as brincadeiras de Sieg e, com Annia ao seu lado, consegue agora reagir mais bem-humorado.
Embora o trio esteja já mais harmônico, há passageiros novos que foram embarcando nos portos mais perto do destino final do cruzeiro. Novas culturas, novos modismos, novas ou velhas ideias no balançar de águas internacionais.
O problema começou com um casal de passageiros extremamente atentos.
Na segunda noite após a tempestade, Annia organizava um elegante coquetel no salão panorâmico. Luzes suaves, música ao vivo e o mar completamente calmo do lado de fora.
Tudo perfeito, ou quase!
Uma senhora inglesa, do tipo que observa o mundo com a curiosidade científica de um falcão (na tentativa real de imitar Poirot) e que se atribui a sabedoria do primeiro mundo, aproximou-se de Annia.
— Querida, posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você e o oficial Vito estão juntos?
Annia piscou duas vezes.
— Perdão? — diz Annia sorrindo.
— Ora, todos já percebemos. — replica a inglesa.
— Perceberam… o quê exatamente? —
— Aquela tensão romântica no ar. — diz a inglesa, rindo e deixando Annia com sobrancelhas levantadas, interrogativamente posicionadas.
Annia abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
Nesse momento, como se o destino tivesse senso de humor, Vito apareceu ao lado dela.
— Problemas, querida?
A senhora sorriu para ele com entusiasmo.
— Ah! A outra metade do casal chegou.
Vito congelou. — luzes de neon interrogativas se acenderam.
Annia sorriu educadamente.
— Não somos exatamente um casal…
A senhora inclinou a cabeça.
— Ainda, não é?! — e saiu satisfeita.
Silêncio.
Vito olhou para Annia.
Annia olhou para Vito.
— Acho que temos um problema — disse ela.
— Acho que temos vários. — concorda Vito.
Nesse momento, o comandante Sieg apareceu.
— Excelente festa! — disse animado.
— Comandante — disse Annia —, parece que os passageiros acreditam que seu filho e eu estamos…
Ela hesitou.
— …apaixonadamente envolvidos.
Sieg ficou pensativo por dois segundos. Depois sorriu. Aquele sorriso suspeito.
— E isso é um problema?
— Para a organização do navio, pode ser — disse Annia.
— Alguns passageiros podem interpretar mal.
— Ou ficar curiosos demais — completou Vito.
Sieg bateu palmas uma vez.
— Solução simples.
— Qual? — perguntaram os dois ao mesmo tempo.
— Finjam que estão juntos.
Silêncio absoluto.
— Perdão? — disse Annia.
— Finjam — repetiu Sieg.
— Assim ninguém fica especulando. O assunto morre.
— Ou aumenta — disse Vito.
— Confie em mim — respondeu o comandante com uma serenidade extremamente suspeita. E saiu.
Annia cruzou os braços.
— Seu pai é perigoso. Será que funciona?
— Eu avisei. — diz Vito, até gostando da ideia.
Ela suspirou.
— Então… precisamos parecer um casal?
Vito inclinou a cabeça.
— Tecnicamente, sim.
— E como exatamente um casal se comporta aqui?
Ele hesitou por alguns instantes, aproximou-se mais dela e estendeu a mão.
— Começamos dançando.
A banda tocava uma música lenta.
Annia aceitou.
Quando começaram a dançar, alguns passageiros olharam imediatamente para eles, sorriram.
— Ótimo — murmurou ela —, já estamos sendo observados.
— Continue sorrindo — disse Vito.
— Estou sorrindo.
— Um pouco mais.
Ela levantou os olhos.
— Você está gostando demais disso.
— Um pouco, melhor… mais que um pouco.
Eles giraram lentamente no salão.
A mão de Vito a mantinha sempre junto dele. Ele, com certeza, conduzia a dança. Annia se deixava levar.
O vestido dela acompanhava o movimento da dança.
Por alguns segundos, o jogo começou a parecer… menos fingimento.
— Estamos convencendo? — perguntou ela.
— Acho que sim.
— Como você sabe?
— Aquela senhora inglesa não tira os olhos de nós dois e está gloriosa com sua intuição confirmada.
Annia riu. Relaxou mais e Vito a aproximou mais ainda de si.
A música ficou realmente lenta. Não se sabe se mudou o andamento ou se os dois se sentiram em “slow motion” pelo envolvimento agora provocado pelo encontro dos corpos.
— Vito… — sussurra Annia, já bem próxima do ouvido dele.
— Hum? — ele responde lento e lânguido. Enfia a cabeça no pescoço dela e deixa a barba roçar no meio dos fios de cabelo dela.
— Isso ainda é fingimento?
Ele pensou por meio segundo. Coloca-se reto novamente.
— Acho que estamos perdendo o controle do experimento.
Ela sorriu.
— Cientificamente interessante.
— Muito.
Eles pararam de dançar.
Mas continuaram próximos.
— Talvez devêssemos aumentar a credibilidade da atuação — disse ele.
— Como?
— Casais costumam fazer isso.
Ele se inclinou. Olhou para os lábios dela, que também procuravam os dele.
Um beijo suave, convincente, muito convincente… até para eles.
Quando se afastaram, Annia suspirou.
— Seu pai vai ficar insuportavelmente satisfeito.
Vito olhou para a ponte de comando.
Lá em cima, o comandante Sieg observava com um binóculo.
E levantou discretamente um copo em comemoração.
— Eu sabia — disse Vito.
Annia riu.
— O comandante é um cupido profissional.
— O pior tipo.
— Por quê?
— Porque às vezes ele acerta.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Às vezes?
Vito sorriu.
— Desta vez… acho que acertou em cheio.
Do lado de fora, o mar seguia calmo.
E a lua desenhava novamente seu caminho prateado sobre a água.
Mas dessa vez, nenhum dos dois pensava em fugir.
No dia seguinte, o clima era de despedida, de adeus, ou…
O porto apareceu no horizonte logo depois do amanhecer. Primeiro como uma linha cinza.
Depois como formas reconhecíveis: guindastes, prédios baixos, algumas gaivotas que já sabiam que navios significavam comida fácil.
Annia estava apoiada na amurada. Café na mão. Cabelo preso de qualquer jeito. Era cedo demais para glamour.
Mas cedo o suficiente para pensamentos importantes.
O cruzeiro estava chegando ao fim.
Com ele, aquele estranho período da vida dela em que tudo parecia suspenso entre passado e futuro.
Ela olhou o mar de novo, ainda buscando algumas respostas.
Nos primeiros dias, aquele mesmo mar tinha sido um lugar de fuga. Agora parecia mais… um lugar de passagem.
Passos firmes se aproximaram atrás dela.
— Você sempre acorda antes do navio inteiro?
Annia não precisou se virar. Sabia que era Vito.
— Só quando estou pensando demais. — ela responde.
Vito encostou ao lado dela na amurada.
— E hoje?
— Hoje estou tentando decidir se desembarco.
Ele demorou um segundo.
— Tecnicamente… todos desembarcam.
— Engraçadinho! Você entendeu.
Ele sorri e olha para o porto.
— Para onde você iria?
— Não sei.
— Essa é uma rota ousada.
Ela sorriu.
— Sim! Pela primeira vez na vida, acho que estou escolhendo sem mapa.
O silêncio entre eles era… só um pouco desconfortável.
Era apenas… cheio.
— E você? — perguntou ela. — Vai continuar navegando?
— É o plano.
— Gosta mesmo do mar?
Vito pensou um pouco.
— Gosto do que ele faz com as pessoas.
— O que ele faz?
— Obriga a gente a olhar para longe.
Ela apoiou o cotovelo na amurada.
— Às vezes também obriga a gente a olhar para dentro.
Ele concordou.
O porto estava cada vez mais próximo agora.
Tripulantes já começavam a circular.
Passageiros apareciam nas varandas das cabines. A viagem estava oficialmente terminando.
Annia respirou fundo.
— Acho que vou descer.
Vito assentiu lentamente.
— Faz sentido.
Ela esperou algum tipo de protesto. Alguma tentativa heroica de convencimento. Algo cinematográfico.
Nada veio.
Ele apenas olhou o mar.
Depois olhou para ela.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro. — diz ela com esperança renovada.
— Você entrou nesse navio fugindo de alguma coisa.
— Sim.
— E agora?
Ela pensou.
Pensou de verdade.
— Agora acho que estou saindo… indo ao encontro de alguma coisa.
Vito sorriu.
— Então a viagem funcionou.
Ela deu de ombros.
— Talvez.
Um grupo de gaivotas passou gritando sobre o navio.
O cais estava a poucos minutos.
Annia virou-se para ele.
— Foi bom te conhecer, oficial.
— Foi muito bom te conhecer, chefe das festas.
Ela começou a se afastar. Deu três passos. Quatro. Cinco. Então parou.
Virou-se.
— Vito.
— Hum?
— Você não vai tentar me impedir?
Ele abriu um pequeno sorriso.
— Não.
— Por quê?
— Porque você acabou de dizer que está finalmente escolhendo sua própria rota.
Ela caminhou de volta.
Ficou bem perto dele.
— E se a minha rota incluir voltar para este navio?
Ele inclinou a cabeça.
— Como passageira?
— Talvez.
— Como chefe de entretenimento?
— Possivelmente.
— Ou como…
Ela completou:
— …alguém que quer continuar aquele experimento científico sugerido por Sieg, por causa da inglesa.
Ele riu.
— O experimento do beijo, ou o de sermos um casal?
— Os dois, que tal?
— Resultados preliminares foram muito positivos.
Ela segurou a mão dele.
— Então acho que precisamos de mais pesquisa.
Nesse momento, uma voz conhecida ecoou da ponte.
— EU SABIA!
Os dois olharam para cima.
O comandante Sieg estava lá.
Binóculo em uma mão.
Café na outra.
— Pai — disse Vito —, você está espionando?
— Sim! Observação científica.
Annia riu.
— Ele nunca vai parar, não é?
— Nunca.
Ela olhou novamente para o porto.
Depois para o navio.
Depois para Vito.
— Acho que minha viagem ainda não terminou.
Ele apertou levemente a mão dela.
— Excelente notícia.
Lá em cima, Sieg levantou o copo em direção ao horizonte.
— Missão cumprida.
O navio encostou lentamente no cais.
Mas para Annia, curiosamente, aquilo não parecia um final. Nem para Vito. Parecia para ambos apenas o começo da próxima viagem.
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