Ecos Em Buenos Aires
PROLOGO
Destinos traçados, amores vividos, mentiras creditadas em relações juvenis. A ideia de rejeição é algo que realmente derruba emocionalmente um ser que ama.
Na busca de afirmação, cabeças jovens lutam por aceitar recusas, lutam por entender frustrações e lutam por se sentirem alvos de boas e más escolhas.
Lucía e Miguel resolvem, num reencontro após anos, entenderem que amor não se extingue por oposição de outros. Resolvem então que os sentimentos seus são os únicos a serem considerados para as mais importantes decisões de vida.
ECCO DE BUENOS AIRES
O outono tingia Buenos Aires de tons dourados. As folhas secas se acumulavam nas calçadas de San Telmo, e o vento carregava o cheiro de café fresco misturado ao som distante de um bandoneón. Miguel atravessava a rua empurrando uma pequena mala preta, o casaco de lã escuro contrastando com a luz pálida da tarde.
Era a primeira vez que voltava à cidade depois de tantos anos. E, por mais que tentasse se convencer de que estava ali apenas pela exposição, sabia que havia algo mais o chamando de volta — algo que nenhuma fotografia havia conseguido capturar.
A galeria ficava numa esquina antiga, de janelas amplas e madeira envelhecida. Do lado de fora, cartazes anunciavam:
“Miguel Duarte — Sombras e Silêncios: A Exposição.”
Ele olhou o próprio nome e sentiu um nó na garganta. Não por vaidade, mas pelo eco de quem ele fora quando tudo começou. O garoto que acreditava que amar era o bastante. O mesmo garoto que perdera Lucía numa tarde fria, sem saber ao certo por quê.
Enquanto observava o movimento da rua, um reflexo chamou sua atenção. Do outro lado da vitrine, dentro de um café pequeno e discreto, alguém folheava um livro com calma. O rosto parcialmente iluminado pelo sol, os cabelos castanhos presos de forma despretensiosa, o mesmo jeito sereno de segurar a xícara.
Por um instante, ele duvidou. Poderia ser?
Mas o tempo… o tempo muda até o jeito de respirar.
Lucía estava ali.
Sozinha, lendo.
O mundo pareceu desacelerar. As vozes ao redor se apagaram. Miguel deu um passo hesitante, como quem teme que o chão ceda sob os próprios pés.
Entrou no café. O sininho da porta tilintou, e ela levantou o olhar.
Foram segundos — e uma vida inteira.
Ela piscou uma vez, como quem tenta distinguir realidade de lembrança. Depois, sorriu com aquele mesmo ar contido, quase incrédulo.
— Miguel?
O som do nome dele em espanhol saiu doce, suave, e cortante ao mesmo tempo.
Ele parou diante dela, tentando conter o turbilhão por trás do olhar.
— Lucía… — murmurou, quase num sussurro. — Eu achei que você estivesse em Madrid.
Ela deu uma risadinha breve, nervosa.
— Estive. Por alguns anos. Mas voltei… — seus olhos se desviaram para a janela. — A cidade sempre chama de volta, não é?
Miguel assentiu. Não sabia o que dizer. Cinco anos e ainda assim parecia que nada havia mudado.
Ela ainda usava o colar — o mesmo, o pequeno pingente prateado com a inicial “M”.
— Vejo que você… — ele tentou, mas a frase se perdeu.
— Que eu o quê? — ela o encarou, com um brilho curioso e ferido ao mesmo tempo.
— Que você continua a mesma.
Lucía sorriu com ironia leve, mas o olhar se suavizou.
— E você… finalmente aprendeu a olhar o mundo pelas lentes certas.
Ele sorriu de volta, mais por reflexo do que por controle.
Na mesa, entre eles, havia um segundo café — intocado.
Ela percebeu que ele olhava e riu.
— Eu sempre peço dois. Costume bobo… — disse, tentando disfarçar.
Mas Miguel entendeu.
E o silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer lembrança.
A noite caiu sobre Buenos Aires com a delicadeza de uma cortina sendo puxada. Do café, Miguel e Lucía caminharam lado a lado pelas ruas estreitas de San Telmo. O ar frio trazia o cheiro de churrasco vindo de longe, misturado à música de um bandoneón tocando em alguma esquina.
Não disseram muito. Às vezes o silêncio é o único idioma possível quando o passado ainda respira entre as palavras.
Lucía o olhou de relance, como quem observa uma fotografia antiga.
— Você sempre foi péssimo em lidar com o silêncio, lembra?
Miguel sorriu. — E você sempre usou o silêncio pra me deixar maluco.
Eles riram. E por um instante, o peso dos anos pareceu se dissolver.
Mas, ao cruzarem a Praça Dorrego, onde dançarinos executavam um tango sob a luz amarelada dos postes, a lembrança voltou como uma sombra inevitável.
Cinco Anos Atrás…
Lucía tinha dezenove anos e o mundo parecia uma promessa. Usava jaquetas de jeans, andava de motocicleta escondida dos pais e ouvia rock argentino alto demais.
Miguel era só um garoto do interior do Brasil, recém-chegado a Buenos Aires com a mesada dos pais e uma câmera velha pendurada no pescoço.
Eles se conheceram em um bar estudantil, quando ele tentou fotografar o pôr do sol e acabou derrubando o mate quente no caderno dela.
— Você sempre foi um desastre — ela diria depois, rindo.
A partir dali, eram inseparáveis. Passavam tardes caminhando pela Avenida de Mayo, fugindo das aulas, dividindo empanadas e sonhos impossíveis.
Ele falava em se casar cedo, em morar juntos num pequeno apartamento.
Ela dizia que o mundo era grande demais pra caber num plano só.
Mas os pais de Lucía não achavam graça.
— Um fotógrafo sem carreira? Brasileiro? — perguntou o pai dela, numa noite em que Miguel foi recebido com frieza. — Minha filha precisa de um futuro, não de ilusões.
Lucía, de braços cruzados, enfrentou o pai com os olhos irados.
— Eu não sou um projeto, papá.
Miguel a esperava do lado de fora, com as mãos suadas e um buquê de flores roubado do jardim da vizinha.
— Vai ficar tudo bem, Lú — disse ele, tentando acreditar. — A gente se ama, e isso basta.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Tomara que baste, Miguel. Tomara que baste.
Mas não bastou.
Presente
Lucía parou diante de um mural grafitado, onde uma pareja de tango parecia congelada em meio a um abraço eterno.
— Lembra do bar onde nos conhecemos? — perguntou.
— Fechou. Vi hoje, passando por ali. Virou um estacionamento.
Ela respirou fundo. — O tempo tem um jeito cruel de limpar o que a gente tenta guardar.
— Mas algumas coisas ele não apaga. — Miguel respondeu, sem tirar os olhos dela.
Lucía desviou o olhar, inquieta. — Você ainda tem aquela câmera?
Ele abriu o casaco e mostrou a Leica pendurada por uma alça de couro envelhecido. — Ela nunca me deixou.
O vento soprou forte, espalhando folhas sobre o calçamento.
— E por que voltou, Miguel? — ela perguntou, baixinho. — Pela exposição… ou por mim?
Ele demorou a responder.
— Talvez pelos dois. Ou talvez porque cansei de fotografar o mundo inteiro tentando esquecer uma única imagem.
Lucía engoliu em seco. Os olhos dela brilharam como antes, entre a raiva e a saudade.
— Você sempre teve um jeito bonito de dizer as coisas erradas.
O segundo encontro aconteceu sem planos — mas talvez o destino sempre tenha sido um conspirador silencioso.
Miguel estava na galeria, revisando as últimas luzes para a noite de abertura. A curadora conversava com jornalistas, e ele tentava parecer interessado, mas o pensamento insistia em vagar.
Até que, entre o burburinho, ele a viu.
Lucía.
Vestia um casaco bege e carregava uma pasta de couro, o crachá do museu pendurado no pescoço.
— Fiquei sabendo da exposição. — disse ela, aproximando-se. — O museu recebeu o convite.
— Achei que não viria.
— Achei que você não fosse me reconhecer. — respondeu ela, com aquele meio sorriso que sempre o desmontava.
Miguel mostrou as fotos penduradas nas paredes: rostos anônimos, sombras de janelas, mãos solitárias, passos na chuva.
— Tudo isso… são tentativas de entender o que eu perdi. — confessou, quase sem perceber que falava em voz alta.
Lucía se deteve diante de uma imagem em preto e branco. Um banco vazio, cercado de folhas caídas.
— Essa foto é de Palermo, não é? — ela perguntou.
— Sim. O mesmo lugar onde te esperei naquela noite.
O silêncio dela foi uma lâmina.
— Miguel…
— Você não apareceu, Lucía. Eu fiquei lá até o amanhecer.
Ela respirou fundo.
— Eu queria ir. — disse, quase num sussurro. — Mas não pude.
Ele a encarou, ferido e confuso.
— Você não quis, é diferente.
Lucía virou-se para ele, o olhar firme, mas trêmulo.
— Você acha que entende tudo. Mas não sabe o que aconteceu naquele dia.
Miguel deu um passo à frente.
— Então me conta. — disse, com a voz embargada. — Me conta agora.
Ela hesitou, os olhos assustados.
— Meu pai teve um infarto naquela tarde. Eu fui com ele pro hospital. Fiquei a noite inteira lá. — fez uma pausa, buscando fôlego. — Quando voltei pra te explicar, tua mãe disse que você tinha ido embora… que estava cansado de esperar.
Miguel sentiu o corpo gelar.
— Minha mãe te disse isso?
— Disse. E ainda me entregou uma carta tua.
— Que carta? — ele perguntou, atônito.
Lucía abriu a bolsa e, com mãos trêmulas, tirou um envelope amarelado.
— Essa. Eu guardei.
Ele pegou o papel, olhou o próprio nome rabiscado à pressa e percebeu, com horror, que não era a letra dele.
— Isso não é meu.
Os olhos de Lucía se encheram de lágrimas.
— Eu sei. Eu descobri depois. Mas já era tarde. Você tinha sumido.
Miguel deu um passo para trás, atordoado.
— Ela mentiu pra você. Pra nós.
— Ela queria me afastar, Miguel. Achava que eu era o motivo de você não seguir em frente.
Ele passou as mãos pelos cabelos, rindo com incredulidade.
— E conseguiu.
Lucía se aproximou, tocando o braço dele com suavidade.
— Eu tentei te procurar. Juro. Mas você já não estava em lugar nenhum.
Miguel a olhou, com os olhos incrédulos e a voz embargada.
— Eu te odiei por tanto tempo, Lucía… e tudo foi por causa de uma mentira.
Ela baixou o olhar.
— O amor sempre paga o preço daquilo que o orgulho não deixa explicar.
O silêncio voltou. Só o som distante de um bandoneon atravessava a janela aberta da galeria.
Miguel respirou fundo e, com voz baixa, perguntou:
— E agora? O que a gente faz com tudo isso?
Lucía deu um meio sorriso triste.
— Acho que é tarde demais pra recomeçar, mas cedo demais pra esquecer.
A noite da exposição terminou cedo para Miguel.
Os flashes, as conversas, os aplausos — tudo soava distante, abafado, como se a realidade estivesse coberta por uma fina camada de vidro.
Lucía havia ido embora antes do fim.
Ele caminhou pelas ruas vazias, com a carta ainda na mão. A chuva fina começava a cair, dissolvendo as luzes dos postes no chão molhado.
Por dentro, sentia-se dividido entre raiva, alívio e uma saudade que agora doía com nome e motivo.
Passou diante de uma vitrine e viu o próprio reflexo: o mesmo homem de sempre, mas com um olhar que não sabia mais mentir.
O passado não era um quadro a ser pendurado — era uma ferida aberta que insistia em sangrar quando tocada.
Enquanto isso, Lucía atravessava a Ponte de la Mujer, o vento gelado balançando o cabelo solto. O colar com a inicial “M” reluzia sob a luz branca da ponte, e ela o segurou com força, como se isso pudesse impedir o arrependimento de cair no rio.
Em casa, abriu uma garrafa de vinho e olhou pela janela o movimento das luzes da cidade.
As memórias vinham em ondas — a primeira vez que ele a fotografou, as tardes em que fugiam para o parque, o jeito como ele dizia seu nome como se fosse uma oração.
Mas agora tudo parecia distante demais.
— Por que o tempo precisa ser tão cruel? — murmurou para si mesma, deixando o copo sobre a mesa.
No celular, o nome de Miguel piscava na tela.
Ela hesitou, o coração acelerado.
Deixou tocar.
Do outro lado da cidade, Miguel sentou-se na cama do pequeno hotel, encarando o envelope aberto sobre a mesa.
A letra feminina, falsificada às pressas, ecoava como uma sentença antiga:
“Lucía, você tem razão. Somos diferentes. Melhor esquecermos.”
Ele releu as palavras pela décima vez.
Aquelas linhas haviam mudado o rumo de suas vidas.
Pegou a câmera e girou o anel de foco, apontando para a janela. Do outro lado, um casal se abraçava sob a chuva, protegidos por um único guarda-chuva.
Clic.
A foto soou como um desabafo.
Ele baixou a câmera e respirou fundo, o peito apertado.
— Chega de mentiras, mãe. — murmurou para o nada.
Alguns dias depois, Lucía caminhava pelo museu, tentando se perder entre obras antigas. Restaurar arte era o que sabia fazer — devolver cor ao que o tempo desbotou. Mas o amor… o amor não se restaura com pincel.
Ao sair, ouviu passos se aproximando.
— Pensei que te encontraria aqui. — era Miguel.
Ela o olhou, surpresa.
— Eu achei que você tivesse voltado pro Brasil.
Ele sorriu de leve. — Voltar pra quê? O que eu procurei lá nunca esteve lá.
Lucía baixou os olhos. — Às vezes é melhor deixar o que passou em paz.
— Paz? — ele repetiu, rindo sem humor. — Eu vivi cinco anos tentando fazer as pazes com um fantasma. E agora que te reencontrei, não sei mais quem eu era sem você.
Lucía respirou fundo, tentando conter a emoção.
— Miguel, nós não somos mais aqueles dois garotos. A vida mudou. Eu mudei. Você também.
— Então me deixa te conhecer de novo.
Ela balançou a cabeça, tentando conter as lágrimas.
— Não é tão simples. Tem coisas que o amor não consegue colar.
Ele deu um passo pra trás, sentindo o vazio entre eles.
— Talvez você tenha razão. Mas ainda assim… — fez uma pausa. — Eu precisava ouvir isso de você, e não de uma carta que nunca escrevi.
Lucía assentiu, as lágrimas finalmente caindo.
— Adeus, Miguel.
E foi embora.
Sem olhar pra trás.
Miguel ficou ali, parado entre as colunas do museu, com o som distante do bandoneon vindo de algum bar próximo.
Guardou a câmera, olhou pro céu nublado e fechou os olhos.
Sabia que precisava deixá-la ir.
Mas também sabia que algumas histórias não terminam — apenas adormecem, esperando o instante certo pra acordar de novo.
O outono cedeu lugar a um frio discreto, e Buenos Aires parecia respirar mais devagar.
Miguel permaneceu na cidade. Fotografava pouco, dormia menos. Às vezes passava pelas ruas que haviam dividido, pelas cafeterias onde o cheiro do passado ainda parecia recente.
O nome dela ainda o seguia como um eco.
Lucía.
Um domingo, ele foi até o parque de Palermo. As árvores, quase nuas, deixavam o chão coberto de folhas que rangiam sob os passos.
Aquele mesmo banco da fotografia estava ali — solitário, cercado pelo silêncio do inverno.
Miguel sentou-se e fechou os olhos.
Por um instante, tudo voltou: o riso dela, o cheiro do cabelo dela, o som distante de uma motocicleta antiga cruzando a avenida.
E então, como se o tempo decidisse ser gentil por um segundo, ele ouviu uma voz atrás de si.
— Eu sabia que te encontraria aqui.
Virou-se devagar.
Lucía estava ali, envolta num casaco claro, o cabelo preso, o colar com o “M” ainda pendendo do pescoço.
O mesmo brilho nos olhos — talvez um pouco mais sereno, talvez um pouco mais cansado.
Miguel se levantou.
— Eu achei que fosse te ver só nas lembranças.
Ela sorriu.
— Eu também tentei deixar você lá. Mas não consegui.
Por um momento, ficaram apenas se olhando, como se o tempo precisasse de uma pausa pra se reorganizar.
O vento soprou leve, carregando folhas douradas ao redor deles.
— A carta não era sua — ela disse, baixinho. — E mesmo assim, eu acreditei.
— E eu acreditei que você tinha me esquecido.
— Fomos ingênuos, Miguel.
— Fomos jovens.
Lucía se aproximou, devagar, e tocou o rosto dele com as pontas dos dedos.
— E agora? O que fazemos com tudo isso?
Ele segurou a mão dela, com um sorriso suave.
— A gente deixa de inventar desculpas.
Lucía deu uma risadinha curta, com os olhos apaixonados.
— Eu não sei se consigo recomeçar.
— Então não recomeça. — disse ele. — Só continua.
Ela o encarou por um instante, e depois se deixou abraçar. O tempo pareceu parar — o som do vento, o farfalhar das folhas, o cheiro da terra úmida.
Nada mais importava.
Miguel sussurrou perto do ouvido dela:
— Eu nunca deixei de te fotografar, Lucía. Só troquei o filme por memórias.
Ela sorriu contra o peito dele.
— Então, por favor, não apague nenhuma.
E ficaram ali, abraçados, enquanto a luz suave do entardecer tingia a cidade de tons alaranjados.
A vida continuava passando ao redor — carros, passos, risadas, o bandoneón distante — mas, por um instante, o mundo parecia inteiro de novo.
Na lente invisível do destino, o foco finalmente se ajustara.
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