Volta Pra Mim Capítulo II
Estou dispondo aqui os primeiros capítulos do livro de minha autoria chamado “Volta para Mim”, que está publicado e disponível no Google Play Livros.
Gostaria de sua opinião sobre o conteúdo, o começo da história, os personagens, a trama, etc. Deixe nos comentários sua participação.
O link do livro: https://play.google.com/store/books/details?id=SXj-EAAAQBAJ
Vamos então ao segundo capítulo.
— Do livro “Volta Pra mim” — Capítulo II
EPÍGRAFE
“Nossas opiniões são a pele
na qual queremos ser vistos.”
Friedrich Nietzsche
Tôni se envolve completamente no trabalho.
Pesquisa dados, monta esquemas de organização, busca informações a respeito de estratégias de funcionamento, colabora com todos.
É simpática e cultiva muitas amizades. A maioria gosta muito dela.
Tôni, envolvida no trabalho, quase se esquece ser de outro país, tão entrosada se encontra naquele momento. Só seu modo engraçado de falar denuncia sua estrangeirice.
Meses de tranquilidade e sossego se passam. Dá até vontade de que aquilo nunca acabe, tanto para Tôni quanto para Jean, por motivos completamente diferentes para cada um.
Tôni, por sua vez, fica feliz que está conseguindo atender à sugestão de Gerard, e com um certo esforço, entendendo as razões de Gerard.
Jean, ao seu modo, achando que a presença de Tôni lhe é cada vez mais cara e cada vez mais preciosa.
Num galpão muito bem organizado, localizado junto ao principal restaurante de Anton, muito bem distribuído por ordem de prioridade, pratos semiprontos são montados e encaminhados diariamente para os grandes restaurantes, para suprir a demanda de noites e dias da semana e noites e dias dos finais de semana.
Grandes peças temperadas, molhos produzidos, complementos de pratos, verduras frescas, vegetais cortados em formatos decorativos, frutas da estação sendo selecionadas, estão a toda hora sendo enviados para a rede de restaurantes da cidade.
Um trabalho árduo, que exige requinte e cuidado dos que o elaboram, precisão e coordenação dos que participam dessa elaboração.
Já existe uma coleta de dados, um estudo dos movimentos diários dos restaurantes, então… tudo o que pode ser preparado antecipadamente é feito nesse local.
Este é o centro nervoso de toda a movimentação da grande rede de restaurantes, sob a direção de Anton.
Produtos semiprontos vão para as grandes cozinhas, onde os famosos “chefs” montam seus badalados pratos para os gourmets elogiarem e para virem estrelas Michelin adicionar valor aos já consagrados pratos.
Que “costumers” continuem a se sentir especiais e badalados por pertencerem a uma casta exclusiva: a dos gourmets, pessoas exigentes consigo mesmas e com os locais que frequentam, onde comem.
Tais gourmets são modelos chiques para os mortais comuns e servem de medida para os que galgam ascensão social em curto e médio prazo. Os restaurantes de Anton fornecem tal status para quem os frequenta.
Tudo isso é tarefa para aprendizado de Antonella ou Tôni para os amigos.
Grande parte dessa dinâmica foi, de fato, implementada por Tôni, que já tinha esse projeto para o restaurante de sua família, mas como Gerard a forçou a trabalhar em hierarquias inferiores em nome do aprendizado, ela aproveitou a abertura dada por Anton e fez isso para ele, nos restaurantes dele.
— Jean, arrependeu-se de me empregar aquele dia? Já faz quatro meses e estamos conseguindo colocar em prática quase oitenta por cento do meu projeto, e veja… os resultados estão sendo ótimos.
— Toni, depois do susto que levei com seu sumiço no dia seguinte à confusão que você armou, com os venenos naqueles pratos e com a prisão do fulano, confessando estar a mando do concorrente para boicotar a avaliação dos funcionários da Michelin, quase nada que você faz eu me arrependo.
— Quase nada? Já está bom! — diz Tôni, rindo.
Jean fala e ri gostosamente ao lado de Tôni. A abraça, sem haver resistência da parte dela. Tôni gosta de Jean, como um bom amigo. Tôni não percebe o que Jean sente com aquela intimidade que ela permite a todos os que são amigos.
Jean é inteligente, faz tudo com muita eficiência, e apesar de ela comandar um posto que era dele, ele aparenta estar feliz com Tôni no comando.
Gerard quer Tôni aprendendo e mantém um controle sobre ela, cobrando informações dela, mesmo por telefone, todos os dias, para ela saber por onde começar, aonde ir para obter os melhores resultados.
Onde pesquisar, como manter um negócio, inclusive diante de possíveis adversidades.
Esses são alguns dos objetivos de Gerard, o pai, o “grand chef”, que Tôni ama e quer satisfazer e fazê-lo feliz.
Tôni está nesse país há uns meses, trabalhando como funcionária nessa grande família, nesse local que carinhosamente chamam de galpão. Tôni investe em aprender a lidar com todas as etapas de um projeto, para ajudar a manter o império que seu pai já construiu. O trabalho atual é um passo para ela assumir a rede de negócios do pai.
É uma grande responsabilidade.
Ela está como empregada, desconhecida de todos.
Gerard a quer sem privilégios, sem vantagens, para que Tôni aprenda a lidar com todo tipo de acontecimentos, sejam eles bons, sejam maus, e para isso, Tôni pensa que, se manter “anônima”, talvez seja o melhor caminho para entender o funcionamento das empresas.
É só assim que Gerard acredita que uma boa empresa pode sobreviver num mundo competitivo que é o de restaurantes. Alimentação.
Só mais tarde Tôni descobre que esse anonimato pode lhe causar grandes problemas.
Antonella aprendeu rapidamente a língua do local. Seus momentos engraçados com Lisa, sua colega de apartamento, foram decisivos para que aprender o idioma não fosse um sofrimento, mas sim uma diversão.
Fala mais ou menos, consegue se comunicar e entender a maioria das pessoas.
Em último caso, seu inglês precário a ajuda a sair de algumas situações difíceis, como já aconteceu antes.
Seu sotaque é audível, mas não agride os ouvidos dos nativos, que acham muito gracioso o som que Tôni faz com determinadas palavras. Algumas construções gramaticais erradas provocam riso.
Isso, na verdade, a torna mais simpática aos olhos de todos.
Por se esforçar muito para entender a língua, ela dá bastante atenção a todos e fez grandes amigos.
Isso é muito importante, porque o almoxarifado nesse galpão funciona mais ou menos como um formigueiro. Cada um tem uma função e cada função precisa ser cumprida à risca.
Nesse momento, é a forma que Tôni pensa. Começando a desenvolver sua percepção do funcionamento dos negócios.
Mas, como a vida é um campo cheio de aprendizados e surpresas, esse olhar de Tôni também se modifica no decorrer de suas experiências.
Anton visita o galpão pelo menos algumas vezes ao mês e já esteve no local, pelo menos, duas vezes, no local dos “preps”, como é carinhosamente apelidado pelos que lá trabalham.
O grande espaço é a base dos infinitos pratos finos a serem servidos nos chiques restaurantes da rede, na cidade.
Por duas vezes seguidas da visita de Anton, Tôni estava no almoxarifado, tentando entender como manter saudável a rotatividade dos produtos, perecíveis ou não.
Muitas ideias explodiam na sua cabeça, com uma grande frequência, mas elas ainda precisavam ser organizadas, melhoradas, para serem implementadas.
Testes de praticidade da teoria aplicada à prática precisavam ser, pelo menos, tentados.
Uma grande agitação acontece naquela manhã, quando Anton visita novamente o local de base de seus restaurantes.
Ele tem ouvido falarem a respeito das propostas feitas pela nova funcionária e por isso resolveu observar com mais vagar e mais atenção sobre as pretensas mudanças.
O almoxarifado, dessa vez, será alvo de Anton.
Tôni, naquele imenso armazém, entre produtos perecíveis, freezers, geladeiras e armários climatizados, se envolve cada vez mais a estudar sobre os fornecedores, sobre alternativas ao que já existe, sobre tempo de novos pedidos. Quem é encarregado das compras… com que frequência elas ocorrem, de quanto é a perda de produtos, se há estudo e estimativa sobre esses dados, etc., etc.
Enfim, dados e mais dados que, em determinado momento, enlouquecem quem está tentando administrar, se não houver um mínimo de organização.
Um almoxarifado bem organizado é uma chave mestra e a alma para o funcionamento dinâmico e sem problemas — ou, pelo menos, com poucos problemas — do resto da linha de produção.
— Milus, por que estão saindo produtos daqui e voltando? O que está acontecendo?
— Não sei, Tôni. Quem faz as requisições e controla o que sai na agenda diária é Laura. Precisamos falar com ela.
— Acho que está havendo perda aqui. Isso não deveria acontecer. O que volta nem sempre pode ser reaproveitado. Especialmente se tiver sido descongelado.
E Tôni segue, checando cada canto, levantando dados, andando pelo imenso almoxarifado quando…
De repente, um homem barbado, muito alto, com uma aparência forte, presença marcante, olhos escuros e incisivos espia pelo outro lado da prateleira onde se encontra Tôni.
Tôni se assusta, afasta-se e solta um som alto de exclamação! Milus corre até ela e ri quando percebe o que aconteceu.
— Quem é você? — pergunta Tôni, para o estranho.
— Anton. — responde ele.
— Nossa! Não precisava chegar tão silencioso. Assusta todo mundo assim.
Anton resmunga algo e sai de perto, deixando Tôni ainda mais estranhada com aquela atitude de pouco-caso.
— Idiota! — resmunga Tôni.
— Fale baixo. — diz Milus. — Ele é o chefe!
— Grande coisa! Precisa ser tão tonto?
Anton volta. Sinaliza que ouviu Tôni. Encara-a e Tôni afasta-se um pouco parecendo estar envergonhada.
Embrenha-se pelas prateleiras tentando esconder-se e se livrar daquele olhar penetrante que sentira com Anton encarando-a.
Fica corada, e desvia o olhar o quanto pode da direção que viu o estranho tomar, mas…
Anton a alcança.
— Ouvi você falando da deficiência da saída dos produtos do almoxarifado. Vá até meu escritório amanhã ao meio-dia para conversarmos melhor a respeito. Quero saber mais sobre esse problema e outros que podem prejudicar o andamento do trabalho.
Ele vira as costas, não dando chance nenhuma de Tôni contestar sua colocação, indo embora, e fechando a porta atrás de si.
— Eu nem vou lá nada! — contesta Tôni, conversando com Milus. — Ele nem sequer sabe quem eu sou! Jerk! Grosso!
— Ele pode não saber quem você é, mas se você não for, ele vem te buscar… — Eu trabalho aqui há muito tempo e o conheço muito bem.
— É? Ele não tem um supervisor para fazer um relatório para ele das deficiências do trabalho aqui no almoxarifado? Que raio de empresário é esse que não estabelece hierarquia entre os funcionários?
— Você está nervosa à toa. Por que ficou tão brava? Já vi pessoas te destratarem muito mais e você nem ligou, não deu bola!
— É! Ele realmente me irritou… com aquele jeito arrogante. Mandão. Vou mandar Jean. Ele que se entenda com o chefe. Ele o conhece há mais tempo que eu.
— Pelo visto, você também gosta de mandar. — completa Milus, sorrindo para Tôni.
Ao passar da porta do almoxarifado para a agitação e movimentação frenética das pessoas no vasto salão ao lado, que de fato trabalham com os “preps”, um funcionário avisa Antonella:
— O Sr. Anton me mandou levá-la amanhã, para o seu escritório no primeiro horário. Não mais ao meio-dia… pela manhã!
— Credo! Ele controla tudo… ou quer controlar tudo. Inacreditável!
Sua tentativa de enviar Jean cai por terra. Como conhece realmente Anton há mais tempo, Jean avisa Tôni que, se ela não for, ele provavelmente a despedirá… sem piedade… essa é a fama de Anton ali no galpão. Isso não pode acontecer.
Como vai explicar para Gerard que foi despedida? Não! Ela precisa atender o chefe, o grosso!
O dia termina mais calmo para Antonella. Sua única preocupação é anotar algumas deficiências que ela nota no almoxarifado e, lógico, perguntar quem é o superior dela naquele caso.
Não obtém resposta para essa pergunta, porque não há superior a ela. Aos poucos, trabalhando lá há uns meses, foi deixado a ela o comando do setor, sem que ela ao menos tenha percebido.
As pessoas a elegeram de forma unânime, quando viram o seu trabalho e a melhora nas relações da empresa com fornecedores e até mesmo com os chefs que encomendavam os “preps”.
Nem mesmo Anton havia notado, mas Antonella tinha lhe chamado muito a atenção. Ele se lembrou, no entanto, que ela havia salvo o restaurante de uma vergonha no dia em que pensaram que havia um inspetor da Michelin, esperando para ser servido no salão.
Ele não admitia admirar e ser envolvido por outra pessoa, sentir-se devedor, por isso passou uma borracha na imagem mental que fez dela assim que saiu do local, mas garantiu uma forma de vê-la novamente.
Isso lhe custaria muita dor de cabeça, mais do que ele imaginou.
Ele se apegou ao fato de a garota lhe dar a ideia de que sabia o que falava quando comentou da saída de produtos do almoxarifado e, por isso, era urgente para ele falar com ela novamente.
Mas, tudo somente no dia seguinte. Hoje, Antonella vai para seu apartamento no centro da cidade, procura algo na TV para se distrair e aprender um pouco mais da língua local, mas se pega com lembranças de um passado bem recente.
Tôni lembra-se do que recebeu de Chilli antes de se separarem. Concorda com ele. As palavras de Chilli, escritas naquele guardanapo, no último dia em que estiveram juntos em um restaurante, voltam à sua mente, como uma pedra, que martela, martela, impiedosamente, a alma daqueles que querem negar suas emoções, seus sentimentos.
“A atração, a possível paixão, que promove a perda de controle do ser que se apaixona, para o ser amado, inventa subterfúgios para não admitir o que considera fraqueza, coloca nomes estranhos e faz exigências bobas.
Enquanto o ser potencialmente amado não percebe o jogo, ou não corresponde ao sentimento do primeiro, vai se criando uma situação de aproximação e afastamento entre os dois, o que causa grande confusão e atrito entre as partes.
Alguns resultados dessas inseguranças pessoais são trágicos. Separações, brigas, mágoas, ofensas. Mas se as pessoas percebem e lutam para entender esses movimentos emocionais, com algum esforço, as coisas começam a dar certo… de uma forma bem variável… mas a tendência é que o esforço atinja corações e revolva paixões”.
Puff! — Chilli, que mais parecia um viking naquele cabelo ruivo, barba e coração, acaba naquele momento o relacionamento que tinham, por causa de Dreads. O atual amor de Chilli.
Tôni encerra aí, seu pensamento a respeito das nuances de sua vida. Lisa chegou.
A colega de quarto chega barulhenta, com o namorado, arrancando-a dos devaneios sobre uma vivência anterior, embora recente.
Antonella vai para seu quarto e se esforça por dirigir seus pensamentos para as atividades que tem feito até agora e se preocupar com o que falará com Anton no dia seguinte.
Preencher suas horas de folga com novos planejamentos para o trabalho evita que ela pense em mazelas já ocorridas em sua vida. E nos planos de trabalho é que ela se aplica com afinco.
Aquele fulano meio assustador e chato que a perturbou na parte da manhã pode ser outro assunto a ser investigado.
Ele é o chef, o dono do negócio? Bem, seria bom então se Antonella conseguisse conversar com ele civilizadamente, mas sem se deixar conhecer.
Ela sabe que seu pai é conhecido no mundo inteiro pelos restaurantes que possui, mas se ela se revelar, não poderá mais trabalhar com Anton. Terá que deixar a empresa.
Gerard, o babo, papai, não vai ficar feliz se souber que ela se atrapalhou dessa forma, sabendo que conhecer Anton é uma grande oportunidade para aprender, para assumir os negócios como o pai quer, e se Anton souber quem ela realmente é, não vai mais tratá-la como funcionária.
Antonella precisa ter sucesso nesse contato. Precisa ser educada e civilizada, embora Anton seja grosso, segundo o que ela pode testemunhar.
Lisa e Felipe estão felizes e barulhentos no quarto ao lado, e Antonella tem dificuldade para conciliar o sono devido à movimentação do casal e à preocupação do dia seguinte.
— Preciso comprar aqueles protetores de espuma para o ouvido… ou deixar meu celular ligado em algum site de música. — pensa ela enquanto tenta se desligar do barulho do casal.
Mas, finalmente, consegue dormir.
Realmente dorme. Dorme tanto que perde a hora e o motorista que a levaria na presença de Anton não tem como fazê-lo.
No mundo de Antonella, um atraso se resolve rapidamente, mas no mundo de Anton, um atraso é uma catástrofe, especialmente se o atraso for de alguém que ele não tem controle… e quer ter.
— Ela não estava no trabalho agora de manhã, Sr. — diz o motorista, desolado, na expectativa da bronca de Anton.
Mas, ao contrário do esperado, Anton não fala nada. Fica mudo.
Um testemunho muito negativo do valor de um funcionário.
Anton se irrita grandemente com o descaso, ou o que ele chama de descaso, de Antonella.
Mais tarde, manda o funcionário novamente buscá-la no local de fabricação dos “preps”, depois de se certificar de que ela havia chegado, e Antonella vai cabisbaixa para o encontro.
Ela sabe que não foi correto perder hora, negligenciar as ordens do chefe. Terá que dar um jeito de consertar isso.
Gostou?
Volte sempre. Postamos todas as 3ªs e 6ªs.
Logo vamos dispor o 3º capítulo, quando um relacionamento começa tomar ares mais próximos e potencialmente perigosos para os objetivos de Toni.
Obrigada, comente, dê um like e volte sempre.
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