Um erro Acertado
PRÓLOGO
O que dizer de alguém inteligente, talentoso, mas que passou tanto tempo se ajustando aos outros que quase esqueceu do próprio brilho? A vida faz dessas: às vezes você se dobra, se estica, se contorce… até perceber que está fazendo yoga emocional para agradar quem nem merece. E quando finalmente cai a ficha — ah, meu bem — é como se um refletor de Broadway acendesse bem no meio da alma. E tudo o que antes era sombra vira revelação.
Foi nesse clarão que Zach a viu. Não de forma suave, não — foi aquele impacto cinematográfico, tipo “meu Deus, como eu não percebi isso antes?”. Com ela, ele descobriu a diferença entre viver sob as regras do mundo… ou sob as próprias.
E assim o destino, que às vezes tem senso de humor, às vezes só gosta de aprontar mesmo, resolveu brincar de juntar peças improváveis. Zach e Willa: tão diferentes que jamais teriam se encontrado, não fosse esse empurrãozinho cósmico. Mas bastou um encontro para tudo virar o avesso: amizade improvável, confiança inesperada e aquele tipo de química que começa baixinha… e termina gritando.
Prepare-se. Quando dois mundos colidem assim, ninguém sai igual.
A HISTÓRIA
Até parecia um leilão. Uma turba de homens infantilizados, se achando, competindo pela melhor escolha. Como se só escolher fosse lhes render algo.
— Aquela ali, aquela ali, ela é linda! Deixa ela entrar.
Esse é o comentário daquele que acha que o mundo não pode viver sem ele, assim como o mundo só existe por ele.
Lindo, maravilhoso, escultural, mas arrogante, sem noção e achando que o mundo gira em torno de seu umbigo.
O saguão do hotel está tomado por uma turba de garotas que esperam ansiosamente pelo seu ídolo. Ela passa entre todas, chamando a atenção dele.
Ela fala no telefone. Entra rapidamente no elevador, sendo recebida por Jerome, que a conhece desde há muito.
— Jerome, o que esse povo todo está fazendo no saguão?
— Ah, menina! Parece que estamos hospedando uma celebridade. Então as garotas enlouquecem.
— Ah, é? E quem é?
— Sei não, garota. Esse hotel é tão antigo, e eu junto com ele, já hospedamos tantas celebridades que parei de contar no número duzentos e três… isso foi há, mais ou menos, uns cinquenta anos.
O interfone do elevador chama e diz exatamente:
— Deixe a loira entrar.
— De onde vem isso? — pergunta Willa a Jerome.
— Sei lá… hoje em dia, determinadas tecnologias têm vida própria. Já não assusto mais.
Willa imagina de onde isso vinha. Raulf, da TI, deve ter dado acesso aos seguranças do grande ídolo que provocou o burburinho na recepção.
Ela ri, junto com Jerome, da forma divertida como ele conta suas histórias. Quando ela nasceu, ele já era adulto e já morava lá.
Willa também conta histórias. Gosta de escrever e é o que mais faz, atualmente, depois que terminou a faculdade. Ela vai direto para seu quarto no último andar do hotel.
No apartamento dos recém-chegados, os egos exaltados conversam.
— Sabe as consequências que isso pode ter, não é? — pergunta Lui, amigo do ídolo, referindo-se à suposta escolha dele pela garota.
— Fica sossegado. Não vou ultrapassar nenhum limite. Sei como agir. Mas se não for uma boa companhia, pelo menos é bem bonita.
Zach senta-se na poltrona de veludo vermelho, aguardando a entrada da moça. Ela não vem. Ele olha impaciente para a porta. Nada.
Chama o secretário.
— Lui, cadê a moça que eu falei para deixar passar?
— Sei não, Zach, acho que ela nem gostou tanto assim de você! — diz Lui, caindo numa sonora gargalhada.
— Para com isso, vai ver para mim o que está acontecendo.
— Ok, vou indo. — diz Lui ainda rindo. — e ele chama o segurança.
— Você viu uma garota loira passar por aqui?
— Vi sim, ela entrou naquele apartamento ali, o número 1015.
— Será que ela se confundiu? — ela deveria vir conversar com Zach.
— Pode ser. Vou até lá perguntar se ela virá conversar com ele.
— Está bem. — diz Lui.
O segurança aperta a campainha da porta do 1015. Willa, que já estava envolvida na sua escrita, atende relativamente irritada.
— Quem será a essa hora? — abre a porta e se depara com um fulano grande, careca e feio de meter medo. Respira fundo e… — Pois não?
— Você não quer falar com o Sr. Zach?
— Quem?
— Zach! Ele está no outro apartamento, acho que a senhorita confundiu.
— Confundi o quê? — pensa ela, sem entender a pergunta.
Ela estava sossegada e tranquila em seu próprio apartamento, mas agora estava sendo perturbada por uma conversa indecifrável.
— Quem é Zach?
— O ator, aquele que a senhorita veio ver.
Nossa! As coisas estavam cada vez mais esquisitas. Nunca ouviu falar de nenhum Zach, ator. O que será que estava acontecendo?
Em um momento, um rosto barbado, bonito, seguido de um corpo bem musculoso e alto, apareceu na outra porta. No apartamento 1020.
— Aquele é o Zach? — pergunta Willa ao segurança.
— Sim, não foi ele que você veio ver? Talvez conseguir um autógrafo, uma tarde juntos para suas redes sociais…
Agora Willa começa a compreender alguma coisa. Lembra-se da voz no interfone do elevador e percebe que foi identificada como “a loira bonita”. Reconhece no rapaz o ator de que Jerome estava falando. Sorri e resolve ir em frente com a confusão que fizeram achando que ela era uma fã…
— É! As imagens na TV modificam a feição das pessoas, por isso demorei a reconhecer. — diz Willa para consertar o mal feito…
— Não sabia que ele estaria nesse hotel? — pergunta o segurança, ainda descrente.
— Ah! É mesmo…
Agora que começou a entender a confusão formada, é preciso ficar esperta para não se deixar denunciar.
Nunca tinha visto o ator na vida, mas gostou do que viu de imediato. Não via TV, estava sempre envolvida com seus livros, romances e contos.
Zach se aproxima sorridente, disposto a lustrar o ego e tirar vantagem da boa aparência. Willa sorri, pensando como seria interessante deixá-lo pensar nela como uma fã. O que ele iria oferecer? Como ele irá se comportar? Aliás, isso tudo pode ser tema para seu romance, por que não?
Pensando assim, sorri de volta e começa a se aproximar de Zach que lhe estende a mão logo de cara.
Ela aceita e segue com ele ao apartamento dele.
— Quer beber algo? — ele pergunta, após oferecer-lhe sua melhor poltrona de veludo. Vermelho queimado, com estofamento capitonê.
— Sim, um vinho. — diz Willa, divertida.
— Tem idade para beber? — pergunta ele, fazendo de conta que se importa.
— Sim, obrigada pelo elogio, mas há tempos que já tenho idade para beber.
Zach serve o vinho e se senta, sedutor e insinuante, perto dela. Willa sorri o tempo todo, imaginando o que virá em seguida.
Ele é realmente algo mais, algo para mexer com o coração, mas para o gosto de Willa é muito sem noção. Vive num mundo de sonho e de bajulação das fãs. Precisa ver alguma atuação sua para saber se pelo menos isso ele sabe fazer, isto é: atuar.
Nunca viu nenhum trabalho dele, e agora ela se pergunta o que vai responder se ele fizer aquela pergunta fatídica: qual foi minha atuação de que mais gostou?
Ela tem que arranjar uma saída logo para isso, pois parece que é exatamente para onde a conversa está indo.
— Assiste sempre às séries em que atuo?
Willa está achando que a sua atuação vai durar pouco, pois já se encontra encalacrada na primeira pergunta. Faz menção de se levantar e confessar tudo, quando o telefone dele toca. Já tinha até aberto a boca para falar.
Ele pede licença, atende o celular e se vira para a janela.
Enquanto parece a ela que ele tenta se livrar de alguma fã ardorosa, Willa pega o seu celular e faz uma pesquisa rápida sobre as séries em que ele atuou. O telefonema dele dura o suficiente para ela descobrir alguns nomes, algumas atuações, algumas armadilhas nas quais ele se meteu, e outras coisas mais.
Ele se vira, de repente, ela é pega no susto e começa a se justificar.
— Eu… eu gosto de alguns jogos do celular, estava me distraindo, aliás, é o que faço normalmente. — diz ela com um sorrisinho maroto que o encanta.
Ele não entende a razão de tanta explicação, mas não leva esse aspecto muito a sério. Tem por base a informação popular de que “as mulheres falam muito mesmo. Mesmo que desnecessário” e ponto final.
Willa se salvou no primeiro round. Prepara-se mentalmente para o que virá a seguir. Mas, aceita que está realmente se divertindo.
E mais uma enxurrada de ego autocentrado vem, devagar, insidiosamente disfarçado de interesse em melhorar. Como se ele já não se achasse bom o suficiente.
— O que acha então das séries? Viu todas elas?
— Não sei se vi todas, mas todas que vi, gostei muito. Acho sua atuação muito boa. — ela fala e faz aquela cara de quem está babando no seu ídolo.
Conseguiu ler algumas críticas e elogios a ele enquanto ele falava ao telefone.
Olhando e desviando o olhar, como que envergonhada, ela pensa ao mesmo tempo que também deveria estar em alguma série. Desconhecia até então sua habilidade de falsidade de fingimento. Mas, está gostando de conhecer esse seu outro lado.
Com o pensamento a mil, tentando avaliar tudo o que possa ocorrer, lembra-se de que somente Jerome a pode denunciar como dona do hotel. A brincadeira está gostosa para ela ser denunciada tão já.
Se ele perguntar o que ela fazia nesse andar, naquele apartamento, também vai ficar de “saia justa”, mas parece que, tanto Zach como seus seguranças, não são muito eficientes. Nem notaram de onde ela veio e, se notaram, não perguntaram nada.
Na verdade, Lui notou quando viu o segurança a convidando para vir ao apartamento de Zach, mas não falou nada, pela agitação do momento, mas depois de alguns momentos, ele começou a refazer o caminho dos acontecimentos.
Quem era aquela garota? Se ela saiu do apartamento da frente, no último andar, quem mora lá, ou quem está hospedado lá? Ela certamente não era parte da turba que se formava lá embaixo para ver Zach.
Era preciso avisar Zach daquela situação, mas, olhando para ela conversando na sala deles, com tanta tranquilidade, sentiu que aquela investigação poderia esperar.
— Willa, você não quer tirar uma foto comigo? — ele pergunta, depois de esperar o pedido dela que não veio.
— Ah! Sim, claro. — diz Willa, se pondo em pé ao lado dele.
Ele é enorme, ombros largos, rosto forte e bem talhado. Cabelos espessos e bem cuidados. A barba parece estar de férias como ele. É curta, mas cheia. Aliás, fica muito bem nele. Eles tiram várias fotos com o celular dela.
O telefone dele toca novamente. Enquanto ele atende, Willa olha em volta. Vê livros espalhados pela mesa de jantar. Levanta-se e começa a olhar os títulos.
Autores conhecidos, clássicos, histórias consagradas e bem estruturadas. Ela conhece todos, mas fica muito admirada que alguém tão popular possa gostar de tais leituras.
Vê ao longe um cello, encostado na parede.
Volta-se rapidamente e tromba com ele, aproximando-se dela, depois do telefonema finalizado.
— Pensei que você tinha ido embora. — diz ele.
— Não, estava admirando seus hobbies. Provavelmente são hobbies, não é? Livros de muito bons autores, um cello, para música, provavelmente clássica, certo?
— Ok, você me descobriu. Me achou.
— Como assim?
— Nada, não. Não posso parecer tão fútil para algumas pessoas, como você, por exemplo. Então coloco os livros para parecer mais… intelectual… — ele completa hesitante.
— Não acho que acredito. Você nem sabia que eu viria para essa sala. Está dizendo que faz de propósito?
Zach não sabe o que falar. Foi pego por uma fã mais erudita? Ou… o que está acontecendo? Ela conseguiu deixá-lo embaraçado?
De repente, ela mesma dá a solução para seu embaraço.
— Preciso ir. Tenho coisas a fazer. Até mais ver. Gostei de te conhecer. — ela diz tudo isso, virando-se e indo embora rapidamente.
— Espere! Não vá ainda. — ele diz, sem compreender muito bem o que acontece, pois geralmente ele é que dispensa quem tanto o quer ver.
Ela não se vira. Sai rapidamente, entrando rapidamente no seu próprio apartamento, fechando a porta e respirando fundo, encostando-se na porta.
Está entre frustrada e assustada. Não sabe bem o que pensar. Afinal, ele é mais do que representa para todos ou é exatamente o que ele mesmo falou: um falso ainda maior. Não, ele não sabia que ela veria seus livros e o cello.
Dia seguinte…
— Como se chama aquela garota que esteve aqui, Zach?
— A que me deixou a ver navios? — diz ele com um sorriso meio amargo.
— Sim, ela mesmo.
— Willa, acho… — ele diz, tentando parecer desligado…
— E o sobrenome? Qual é?
— Não sei, não perguntei. Ela nem me deu tempo para isso. Começou a investigar os meus pertences e descobriu meus livros e o cello, ali na outra sala.
— Ah! — comenta Lui, já pensando longe, em outras possibilidades.
Ele desce até a recepção. Dirige-se ao recepcionista, olhando seu crachá.
— Sanches, me diz… quem está hospedado no quarto 1015?
— Ah! Sinto muito. Não posso fornecer esse dado senhor.
Lui tira uma nota de cem do bolso e coloca sutilmente no balcão, deixando que o recepcionista entenda que será recompensado se falar. E ele entende.
Sanches começa a digitar no teclado a relação dos quartos e, assustado, olha de volta para Lui.
— Não tem quarto 1015 na minha relação, senhor!
— Como assim? Tem uma pessoa lá. Eu a vi entrar.
— Pois é. Mas aqui não consta. Preciso falar com Jerome. Ele saberá responder.
— Jerome? Quem é Jerome?
— É um gerente “sênior”, se é que me entende.
— Não, não entendo mais nada. Onde encontro Jerome?
— Ele tem um apartamento no térreo. Ali, siga por aquele corredor e vire à esquerda. É a porta grande, de madeira trabalhada. Só não sei se ele estará lá agora.
Lui já está se distanciando, indo na direção indicada, e Sanches já está se apossando da gorjeta deixada por ele.
Após explorar os labirintos do térreo, Lui chega à porta indicada por Sanches. Bate e aguarda. Ouve movimento lá dentro. Logo após, Jerome atende. Um homem alto, forte, por volta dos cinquenta anos, quase sessenta, e bem grande. Grande a ponto de intimidar Lui.
— Boa tarde, Sr. Jerome. Podemos falar?
— Sim, claro. — e Lui percebe que, apesar do tamanho intimidante, Jerome é educado e gentil.
Lui conta a ele o que presenciou, quando uma moça loira saiu do apartamento 1015 e se encontrou com Zach.
Jerome olha para ele, sorri.
— Não se preocupe, estou ciente disso. Ela é parte de nossa equipe. Sua estada é permanente e, por isso, não consta no registro do computador.
— Mas, quem é ela? — insiste Lui.
— Preciso pedir permissão para revelar isso. Não sei como a viram, isso é inédito. Mas pode tranquilizar que ela não oferece perigo ao seu chefe — comenta Jerome, rindo alto.
Lui ainda insiste, não conseguindo demover Jerome da sua posição, mas consegue uma promessa dele de buscar autorização para revelar quem ela é.
— Até quando pode fazer isso? Sabe, pretendemos passar o mês nesse hotel maravilhoso. São as férias merecidas de Zach. Mas queremos ficar seguros.
— Filho, esse hotel tem muita história. Você pode ver na sala, com a placa “Nossa história”, que aliás é um de nossos convites para os hóspedes, a história do hotel. Pode comparar os dados daquela sala com as notícias na internet e checar com as notícias policiais para saber que, em termos de segurança, damos todas as garantias para nossos hóspedes e pode ver também que tivemos e temos muitos hóspedes famosos, ao longo dos anos. Vocês não são os primeiros.
Lui não sabe se está ouvindo uma explicação simplesmente, uma bronca, ou se está sendo tripudiado. Mas não insiste mais, depois de ver o sorriso estampado no rosto de Jerome.
— Está bem, Sr., aguardo então sua resposta.
— Aguarde! — replica Jerome, assentindo com a cabeça e fechando a porta.
Lui sobe imediatamente. Deve comentar com Zach o que descobriu e o vê às voltas com alguns contratos.
— Zach, Zach, escute. — insiste ele, vendo o amigo envolvido nos papéis.
— Sim, Lui. — diz Zach levantando os olhos.
— Zach, aquela moça, a loira…
Não consegue terminar, Zach o interrompe.
— Ela voltou? Desapareceu ontem, não deixando rastro.
— Não, Zach. É justamente sobre isso que quero falar. Fui investigar o apartamento do qual ela saiu…
Zach o interrompe de novo.
— Você sabe de onde ela veio? Achei que tinha vindo da multidão lá de baixo e quando ela se foi, já tinha perdido a esperança de vê-la de novo. — Ah! Sabia que queria vê-la de novo — sussurra Lui.
E continua…
— Vai me deixar terminar ou vai ficar me interrompendo?
— Desculpe, Lui, você parece nervoso. Mas, me conte, você a localizou?
— Sim, Zach…
De novo, Zach parece incontrolável…
— Onde, onde?
Lui respira fundo, estica as sobrancelhas e se conforma com a ansiedade de Zach…
— No apartamento da frente.
— Como?
— Sim, ela saiu do apartamento da frente. O 1015.
Zach se levanta, abre a porta e ao mesmo tempo exclama:
— Ela esteve aqui o tempo todo?
— Não sei se o tempo todo, mas sei que ela mora aí. Parece que é funcionária do hotel.
— Ah! Idiota que sou. Achei que ela tinha vindo por mim…
Lui ri. Entende que o amigo tem compreendido melhor sua importância.
Zach sai em direção ao apartamento 1015 e só para quando Lui lhe diz que falou com Jerome.
— Jerome? Quem é Jerome e o que tem a ver com ela? Willa, não é? O nome dela?
— Sim, Willa. Parece que ela chamou sua atenção. Nem quis mais fazer “panfletagem” com ninguém. Nem quis se exibir mais.
— Ora, Lui, fala logo… o que sabe sobre ela? Jerome é o marido, namorado, irmão, ou… o quê?
— Sei o que já te disse. Jerome é gerente “senior”, segundo eu soube, e disse que precisa pedir permissão para revelar o sobrenome dela. Não acho que seja marido ou namorado. Ele tem idade mais para ser pai dela.
— Ah! Enquanto eu tento aparecer, ela tenta se esconder? — explode Zach num ímpeto de descontrole.
— É, parece assim, portanto, vocês nunca dariam certo.
Zach vira-se para Lui espantado:
— Primeiro, quem disse que eu quero “dar certo” com ela?
Lui não deixa barato:
— Não precisou dizer. Eu vi como olhou para ela. E, pela primeira vez em vários anos depois de sua fama, vi você recuar diante da possibilidade de ser mal interpretado. Você se importou com o que ela pensaria de você.
— Virou psicólogo agora? Nos últimos cinco minutos?
— Não! Sou observador e tenho te observado por vários anos.
— O que está insinuando, Lui? — replica Zach.
— Não quero insinuar nada. Eu disse o que tinha que ser dito. Use sua cabeça e aceite o que eu falei.
— Está sugerindo o quê? — pergunta Zach irritado.
— Nada, criatura. Calma! Vamos falar com Jerome depois para ver se ele conseguiu a permissão para falar dela.
Assim que dão uma pausa na conversa que já estava com ares de animosidade, ouvem a porta do apartamento da frente se abrir. Ela sai.
Vestida a caráter, vira-se imediatamente na direção dos elevadores, deixando os dois boquiabertos na outra porta.
Willa vai a um concerto. Planejado há tempos, encontra-se com Johanes e é seguida de perto até a saída da recepção pelas câmeras que dão acesso aos hóspedes. No caso, Zach e Lui.
— Ela tem namorado, óbvio. — comenta Zach já se sentindo derrotado.
— Só porque ela sai com alguém não significa que seja namorado, não é? E tem outra: você se acostumou a ser caçado, está sentindo falta de caçar, não é, Zach?
— É, faz tempo que não tenho trabalho nenhum em conseguir o que quero, mas parece que se quiser Willa, ela vai me dar trabalho.
— Mas assim tudo fica mais emocionante. Tudo mais humano. Cérebro primitivo se pondo em ação. — completa Lui. — Aliás, você gostou dela porque ela não te deu bola?
— Será? — exclama Zach realmente em dúvida.
Dia seguinte, logo cedo, Lui vai até o apartamento de Willa.
— Zach quer falar contigo. Por que não voltou?
— Por que eu tinha que voltar? — pergunta Willa, meio irritada com a ousadia.
— Ele achou que você gostava dele.
— Escute! — diz Willa, indignada. — você sempre serve de porta-voz dele?
Lui dá uma risadinha embaraçada…
— É! Algo assim.
Bem, não costumo mandar recado por terceiros, então… e Willa para, pois sabe que vai ofender se continuar…
Diga que amanhã falo com ele.
— Jerome já pediu autorização e você já deixou que digam quem é, não é?
— Sim… e??
— Bem, acho que Zach quer se desculpar. Ele confundiu você com as fãs dele.
— Ok, vou lá amanhã, já disse
— Certo! Aviso a ele. — diz Lui saindo de mansinho, sem graça.
Willa dá uma risadinha. Continua achando esquisito esse leva-e-traz estabelecido na relação entre eles.
Ela passa boa parte da noite pensando em Zach.
O que ele quer? É bonito sim, elegante, atraente, mas isso não basta para ela.
O passeio ao teatro com Johanes foi fatal. Ele se mostrou totalmente diferente do que tinha sido até então.
Ele ofereceu a ela um relacionamento “benéfico” para ambos. Eles se encontrariam e ficariam juntos quando lhe conviesse.
Johanes não estimou o perigo que correu ao propor aqueles absurdos a Willa. De gênio forte, autossuficiente, ela o expulsou da vida dela eternamente e ainda ficou muito brava consigo por ter se deixado enganar.
No meio dessa disputa de ego, ele contou que faria parte da próxima série, como coadjuvante, é claro, mas a caminho do estrelato.
Willa sabe que deu a devida resposta a Johanes e que, se ele tiver um pouco de desconfiômetro, nunca mais vai falar com ela.
Ela se lembrou que a série era a mesma em que Zach será protagonista. Conversaram sobre isso no dia em que esteve no apartamento dele.
Não! Johanes estava definitivamente riscado de sua vida.
E claro que iria falar com Zach. E, a menos que ele fosse canalha como Johanes, talvez a proposta dele fosse boa!
Finalmente, ela consegue dormir um pouco. Logo de manhã, depois de se desincumbir das tarefas com Jerome, ela segue para o apartamento da frente, o de Zach.
Ele já a espera, abre a porta para ela, a convida a sentar. A mesa do café está posta e sentam-se juntos diante da fantástica paisagem que se abre ao redor de todo o hotel.
Zach rompe o silêncio.
— Willa, em primeiro lugar, quero me desculpar.
Ela não se mexe.
— Fui prepotente, intrometido, vaidoso e egocêntrico.
Willa começa a rir.
— Por que ri?
— É a primeira vez que vejo um homem em tão pouco tempo ter uma conscientização de si mesmo. Pouco tempo e muitos adjetivos de demérito.
— Bem, eu fiz uma besteira, confundindo você com algumas outras pessoas que já encontrei. Minha carreira nesse ambiente é relativamente recente e, em pouco tempo, passei de alguém zero à esquerda para alguém conhecido quase que mundialmente.
— Sim, verdade.
— Deixei-me levar por isso, perdi a noção de ridículo.
— Nossa! Pare com isso. Fale sobre o assunto para o qual me chamou, e não fique se desprezando tanto. Não discordo do que falou a seu respeito, mas tenho certeza de que tem seus méritos também. Essa sua forma de ser só seleciona relacionamentos rápidos e fúteis, mas mantém você no topo da lista de bons profissionais, sem dúvida. É uma opção.
— Não! Eu posso ser um bom profissional e me comportar de outra forma na minha vida pessoal.
— Isso é verdade também. Mas, o que quer de mim?
— Bem, como disse, pedir desculpas e, se me perdoar, ver você mais vezes. Sei que é a dona desse hotel e Jerome contou algumas coisas pelas quais você passou. Isso me fez admirá-la mais ainda.
— Ok, combinado.
Willa fala isso e se levanta para ir embora.
— Ok, o que? Concorda e vai embora?
— Sim, vou.
Zach percebe que, se não for rápido, vai perder de novo a chance de convidá-la.
— Espere. — diz ele, se aproximando dela.
Ele a detém segurando seus braços. Ela não protesta. Fica parada e espera alguns momentos. Ele não fala nada. Olha para ela com carinho e um sorriso lindo no rosto. Olha para ela e a deixa sem jeito. Ele percorre várias vezes o rosto dela, sem dizer uma palavra. Põe instintivamente as mãos em seus cabelos.
Willa para e fica a olhar para ele. Percebe que sua figura é encantadora, seu jeito é sutil, e percebe que gostaria de saber mais dele.
— Muito bem, diz ela. Me conta quem toca aquele cello, quem lê aqueles livros e por que razão você age como um bobo.
Zach ri.
— Você entendeu tudo na primeira vez que esteve aqui, não foi?
Willa continua a olhar para ele, sem responder.
— Bem, você está certa. Tenho uma formação boa, estudei música e aprecio os livros que você viu. Os trago comigo, pois muitas vezes os leio de novo e, pode acreditar, as várias leituras me contam várias histórias. Não é sempre a mesma.
— Imagino! Também sinto isso quando leio um livro mais de uma vez. Sempre vejo aspectos que não vi na primeira leitura.
Os dois passam horas conversando. Willa, que iria embora logo, está lá ainda quando a noite vem. Jerome já a chamou várias vezes e ela o mandou resolver por ele mesmo.
Zach e Willa passam o resto do mês de férias dele, conhecendo-se. Passeando juntos, nadando juntos e explorando os vários passeios que o hotel oferece.
Eles sentem nascer uma grande amizade, muitos pontos em comum, afinidades mil e uma alegria imensa na presença um do outro.
E, assim, decidem que vão continuar esse relacionamento que começou com uma bravata, um erro de julgamento dele, de uma resistência dela a ele.
Muita vida e muita aventura ainda podem ser vividas pelo novo casal.
Algo bom os espera no futuro. Agora eles constroem o presente.
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Se quiser também ouvir a narração siga o link: DiariosRomanticos – YouTube
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